Livros de Chimamanda Ngozi Adichie “Sejamos todos feministas” e “Para educar crianças feministas” pela Companhia das Letras/Foto: Desbravador de Mundos.

Um olhar feminista para as memórias de infância

Postado em 11/05/2019, 15:31

Quando li Chimamanda Ngozi Adichie comecei a me dar conta da educação feminista que, principalmente minha mãe, havia se esforçado para que eu tivesse acesso e a experimentasse. Sei que muito de mim vem das experiências e escolhas de minha mãe, não desmerecendo o papel de meu pai e meus irmãos na família. Tenho três irmãos, homens e mais velhos do que eu. Minha parte masculina é muito presente e também por esse motivo venho desconstruindo e reconstruindo com dinamismo minha identidade. A família por parte de minha mãe é grande, são cinco irmãs e seis irmãos, sendo ela a irmã mais velha, a de meu pai são em três irmãs e dois irmãos. Famílias grandes que aprenderam a dividir e multiplicar desde cedo. Conheci meus avós maternos e paternos, tias-avós, tias e tios, primas e primos, sobrinhas e sobrinhos, e outros parentes em geral, [email protected], [email protected], [email protected] etc. Muitas amizades. As festas de família são bem animadas.

Nos encontros de família, ou mesmo em casa, dificilmente havia os “espaços para homens”. Tudo sempre foi muito fluido e diverso. Transitávamos por todos os espaços possíveis, sempre escutando as conversas dos mais velhos. Claro que as mulheres cochichavam na cozinha ou no quarto, mas logo já estavam com todos. Mesmo assim os assuntos ditos “particulares” foram “segredos” por muitos anos. Eram tempos em que a mulher precisaria resolver as questões de maneira discreta. Elas me deram “alternativas desde cedo”, nos ensinaram a ter “jogo de cintura”, a buscar soluções possíveis porquê de uma forma ou de outra a vida continua e as relações humanas são complexas todos os dias. Minha família tem muitos elementos e símbolos parecidos com outras famílias, por isso acredito na possibilidade de entendimento pelo diálogo, mesmo que à distância.

O exemplo das mulheres de minha família foi decisivo para eu ser quem sou atualmente. Suas posturas no enfrentamento dos hábitos machistas na família fizeram com que as mulheres mais novas como eu pudessem se posicionar de forma a serem ouvidas, representadas e não aceitassem a violência com normalidade. Quando em algum momento alguém me disse para “varrer direito” geralmente foram alguns primos que na mesma hora sorriram para mim com uma certeza de que aquilo não faria o menor sentido, porque eles já haviam feito a mesma tarefa a pedido de minhas tias.

Vi o livro de Chimamanda Ngozi Adichie “Para educar crianças feministas: um manifesto” na internet e enviei a foto da capa para uma amiga que tem uma filha de dez anos imaginando que ela, por estar em um caminho de uma educação feminista com sua filha poderia gostar. Passado um tempo, em uma roda de conversa sobre mulheres na literatura, uma colega jornalista falou sobre a autora do livro e apresentou algumas de suas obras, entre elas o manifesto. Fiquei curiosa e pedi-lhe para ver o livro e, vendo meu interesse, ela disse que poderia me emprestá-lo. Aceitei a oferta. Li no dia seguinte. A leitura foi me levando para lugares de memória na infância em momentos que decidi compartilhar com vocês.

No livro Chimamanda tem um insight interessante quando diz “saber cozinhar não é algo que vem pré-instalado na vagina. Cozinhar se aprende”. Minha mãe sempre fez questão de me ensinar a dinâmica da cozinha, mas não a cozinhar especificamente. No cotidiano com a observação e o aprendizado nas pequenas tarefas que envolvem a alimentação fui aprendendo com minhas tias e primas também nas férias e nos encontros de família. Atualmente, vendo programas de culinária, sei que minha mãe, como ela mesma diz, não é cozinheira, mas o que ela cozinha tem técnicas muito interessantes escolhidas por ela como a deglaçagem, que minha avó não utilizava. Minha mãe incentivou meus irmãos a cozinharem e a saberem minimamente o que são as tarefas domésticas. Claro que minha mãe, assim como a maioria das mulheres, trabalhou em jornada tripla por muito anos.

A sétima sugestão do manifesto “nunca fale do casamento como uma realização” minha mãe seguiu à risca. Ela sempre me explicou que escolher os caminhos da vida é a própria realização, não simplesmente o casamento. Não havia romantização. O lado prático de resolver conflitos sempre foi uma prioridade para ela. Hoje consigo entender suas motivações. O casamento e a submissão são temas complexos para ela. Podemos entender o porquê.

Outro fator importante para mim foi o sobrenome. Eu e meus irmãos não tínhamos o sobrenome de minha mãe, uma “escolha comum”. Por gostar muito da família de minha mãe e para marcar a diferença de gênero resolvi colocar o sobrenome dela, também para fazer parte com mais clareza de árvore genealógica. Eu era adolescente e foi uma questão de conflito para meu pai na época. Na verdade, particularmente, não havia encontrado esse caminho de ter um sobrenome que não fosse o meu. E até hoje não o encontrei. Nunca esperei por um casamento ou que “pedissem minha mão”. Isso minha mãe me ensinou. Lá em casa diziam: “mas só a mão?” e davam muitas risadas depois. Ela também me ensinou sobre dinheiro. É bom cada um trabalhar e ter o seu. Meu pai pensava diferente. Ele mudou um pouco esse pensamento.

A autora fala em “senso de identidade”. Minha mãe sempre me ensinou a descobrir quem eu sou, a defender minhas escolhas e lutar por elas, a me sentir feliz. Ensinou-me que essa é a verdadeira beleza da vida, não a aparência ou os bens materiais, mas a sua verdade em constante mudança e aprendizagem. Fui uma criança que brinquei muito, muito mesmo. Passei a infância em uma cidade pequena correndo pela rua, brincando na areia, subindo em árvores. Não lembro de ter ganhado como brinquedo um ferro de passar roupas ou uma vassoura. Meus brinquedos eram lúdicos, era incentivada a ver filmes, ler livros e a colorir. Adoro as cores. Ela nunca me ensinou que a mulher “não pode certas coisas”. Por vezes, quando alguém mencionava algo nesse sentido ela ria e me dizia “vá brincar”. Acredito que meus irmãos contribuíram muito nesse fator. Queria fazer muitas coisas que eles faziam. E fiz, mas na adolescência a discordância sobre as questões de gênero começaram a ficar claras.

Em casa, durante a adolescência, não me disseram “com essa roupa você não vai”. No máximo meu irmão disse sorrindo “você parece a rainha da sucata”. Sorri para ele porque parecia mesmo uma personagem da novela com brincos, colares, pulseiras, batom, unhas pintadas, maquiagem e salto alto. Nunca me chamaram de “indecente por isso”. Outro fator foi o cabelo. Aos poucos fui aprendendo a ligar com ele. Era crespo. Minha mãe também não sabia muito como lidar. Aprendi a pentear meu cabelo com um “garfo” durante o banho com creme específico desde cedo. Minhas amigas tinham cabelo liso, mas isso não chegou a ser um problema para mim. Alisei algumas vezes, mas essa não era minha verdadeira vontade. Minhas primas me ajudaram um pouco e fui aprendendo. Meu cabelo mudou bastante com o passar dos anos. Nunca tive o cabelo no padrão “bem ajeitado”. Meus pais me deram um espelho uma vez de aniversário para eu aprender a me conhecer e a valorizar quem eu sou. Cantei muito em frente ao espelho. Meu irmão bateu na porta várias vezes para baixar o volume da voz. Esses pequenos posicionamentos durante a infância puderam trazer mais lucidez para minha educação. Fico imaginando o quanto isso deve ter custado à minha mãe.

Alguns anos antes duas de minhas amigas haviam menstruado, mas eu ainda não. Pela minha curiosidade, sabendo que poderia acontecer comigo a qualquer momento, fui conversando com elas e com minha mãe para ter mais informações. Havia lido algumas “revistas femininas” referentes ao tema. Já sabia onde estavam os absorventes de minha mãe. Eu já estava esperando. Certa vez, no final da manhã, estava me arrumando para ir à escola e fui ao banheiro para fazer xixi. Percebi que havia “ficado mocinha”, como se falava no interior. Coloquei um absorvente e fui dar a notícia para minha mãe que agiu com normalidade. Depois voltei para o quarto “toda boba” e continuei a arrumar o material para ir à escola. Fiquei feliz. Escutei minha mãe ao telefone, mas não prestei atenção ao que se tratava. Na hora do almoço meu pai chegou com um buquê de rosas brancas e um cartão com uma frase muito delicada. Depois entendi que minha mãe havia ligado para a floricultura, feito a encomenda e pedido para meu pai passar para buscá-la.

Ela foi conversando comigo aos poucos e me contou que quando ela ficou menstruada pela primeira vez colocou um “paninho” e seguiu a vida até porque não se falava muito sobre o assunto. Chimamanda, na décima segunda sugestão do livro menciona as conversas sobre sexo. No meu caso decidi conversar um pouco com minha mãe sobre o assunto. Ela me explicou o que pôde. Presenciei algumas cenas dela conversando com meus irmãos e buscando preservativos para eles. Ela foi comigo ao ginecologista pela primeira vez e soube de minha primeira relação sexual no dia seguinte ao acontecido. Ela tinha a informação, mas só foi se deixar entender anos mais tarde. Iniciei o uso do anticoncepcional com a permissão dela. Naquele tempo não se falava muito sobre o assunto, minhas amigas não conversavam com suas mães e eu não conseguia entender muito bem o motivo. Decidi que comigo seria diferente e cresci buscando informações sobre os assuntos.

Minha mãe sempre conversou muito comigo. Explicou, comentou, argumentou. Fui entendendo como se conformavam as escolhas. Ela é muito observadora. E age rápido. Por conta da vida corrida que levou tem uma rapidez de raciocínio incrível. É admirável. É claro que levei umas chineladas! Mas, tentei me educar para não levar mais. Estávamos descobrindo juntas o que era ser mulher, ela como mãe, eu como filha, mas em uma relação de reciprocidade cada uma em seu lugar, mas juntas. Vejo isso nas minhas amigas que são mães e fico feliz por elas. Minha mãe me ensinou sobre dignidade, sobre escutar os mais velhos ou a quem quiser me dar um conselho, seja quem for. Nem sempre fiz boas escolhas, mas fui aprendendo com isso.

Minha mãe ficou grávida de mim com mais de 40 anos de idade. Decidiu se aposentar para poder se dedicar há uma gravidez inesperada e indesejada. Ela passou por depressão pós-parto e ficou dois anos com atendimento médico frequente. Toda a família se uniu nesse momento para ajudá-la a superar o trauma e assegurar sua saúde. Ela tentou o aborto, mas os métodos foram insuficientes. Outra apreensão seria a possibilidade do nascimento de uma criança com síndrome de down, mais comum nessa faixa etária. Isso mostra a superação de todos ao redor e de minha mãe que, mesmo com crises que a acompanharam durante vida, soube com sabedoria dar sentido à existência. “A tua mãe em primeiro lugar” meu pai sempre me falou. Vejo como [email protected] pudemos encontrar caminhos para nos conhecermos e para aceitarmos uns aos outros. Temos a possibilidade de revermos preconceitos, pontos de vistas diferentes, falta de diálogo, violências, comodidades. Podemos enfrentar nossas decisões. Essa é uma das percepções que tenho sobre minha família.

Ser mulher não me limitou. Sempre fui encorajada a acreditar nisso. Hoje tenho 34 anos e começo a entender o quanto é trabalhoso uma educação permanente para que se tenha acesso ao respeito, principalmente no que se refere às questões referentes às mulheres e aos gêneros. Vejo que é possível. Muitas mães estão na mesma luta e buscando respeito para elas e para seus filhos. E pensando na compreensão de mundo das mulheres, gostaria de agradecer àquelas que trabalham diariamente para melhor sobrevivermos, na busca de uma sociedade com equidade que valorize a dignidade. É um grande desafio. E aos demais que fazem parte desse caminho e buscam se reeducar para que tenhamos mais respeito uns pelos outros “porque a diferença é a realidade de nosso mundo” como diz Chimamanda. A leitura foi um bom presente.

Muitos dos exemplos citados aqui foram retirados do livro da feminista e escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie “Para educar crianças feministas: um manifesto” (2017), autora de livros como o best-seller Americanah (2014), Sejamos todos feministas (2014), Hibisco Roxo (2011) e Meio Sol Amarelo (2008). O texto também é inspirado na TED – Todos devemos ser feministas