Fotoarte: Chris Mayer

Coluna da Princia Beli

“Yèyé omo ejá” – Maria_Ana

Postado em 21/02/2019, 18:55

Adélia não gosta de depender de ninguém, nem mesmo dos pais. Hábil e esperta, em geral consegue o que quer da vida.

Abriu os olhos, em seu quarto despojado. Meio minimalista, meio cheio de memórias. A decoração foi executada por ela mesmo garantindo um estilo pessoal.

É sábado! 02 de fevereiro, dia de Iemanjá.

Pensou em se levantar para comemorar “Yèyé omo ejá”, como é pronunciada em Ioruba: a “Mãe cujos filhos são como peixes”.

– “Ano que se foi”, eu havia comemorado também a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes; um dos títulos atribuídos à Virgem Maria. Uma tarde gostosa, com muitos registros fotográficos. Foi possível ir à praia, molhar os pés, reverenciar a Rainha das Águas com o batuque dos tambores e também consegui acompanhar a chegada do barco, ao ar livre, no deque da Lagoa da Conceição.

Essas coincidências são tão perfeitas. Conversou em voz alta consigo.

O sábado já estava resolvido: iria se entregar às águas. Entretanto, resolveu por algum misterioso motivo ver as notícias e se “atualizar”. Não havia dado tempo para tal, pois os dias de janeiro tinham sido bem corridos.

Conectada pelo seu smartphone, rolava a tela com os dedos e via somente notícias do rompimento da barragem de Brumadinho.

No primeiro momento receber uma enxurrada de descaso era estarrecedor, no primeiro momento.

“Os excessos ficam dentro, aprisionados e pressurizados e o rejeito vai tentar encontrar um caminho para sair; e encontrará uma forma muito agressiva e até desordenada”.

Escutou de uma especialista em barragens que continuava a proferir.

“Quando a saturação acontece medidas são necessárias para que haja vazamento do que está acumulado. Quando a negligencia torna-se normalidade o rompimento é inevitável. Sinais de alteração devem ser olhados”.

Termina de ver no youtube com imagens incrivelmente absurdas. E desse jeito o devaneio matinal lhe toma de assombro.

Uma reflexão lhe acomete: a normose se faz cotidiana e o rejeito se torna mar de lama; então, parece que é preciso movimentos pesados para deslamear a alma. Algum tipo de compensação é possível depois de tamanho desastre?

E quando as normas, crenças e valores sociais causam angústia e podem ser fatais, dando um tom de normalidade… Tem fundamento o sofrimento até a morte?

E lembra dos amigos que a rodeiam.

A maioria em depressão, desacreditados, labutando para ter.

E seguem se “lameando” de tristeza.

Mas, também recorda das amigas da yoga e meditação.

E das sessões de terapia. Momento de espaço-tempo das emoções/pensamentos que tinha a lucidez da constância do constrangimento de sua infância.

O quebra cabeça interno começava a se movimentar com o que acabara de ler.

Tecia dentro de Adélia uma compreensão. A negligencia é uma força socialmente atuante, ainda.

Adélia travava de um enigma há alguns meses: o de se ligar na paz enquanto ruminava tempos de abandono geral.

E para elevar os pensamentos busca umas anotações registradas no seu diário matinal – Um espaço de ancoramento.

Começa a ler um poema escrito em 2013:

“Mau Jeito.

Re-jeito-ação

Enjeito, que jeito?

Eu me deleito em cima de ti, em teu leito.

Na cama da pureza de menina.

Eu derramo meu leite em seu ventre.

Repulsão.

Acolhimento. Quem és?

Deixa de bestagem, menina.

Assuma sua ancestralidade.

Aceita a tua sentença.

Aplauso, aceitação e acolhimento não são coisas para mulheres.

Aceita tua dor em silêncio, sem gemido.

Segura firme teu quinhão de desalinho, reprovação, descuido, abandono, desamparo.

Esquecimento…

Esqueça de existir e receba a rejeição.

Não, não reclames.

Viva sem desdém, pois é isso que mereces.

Quem mandou nascer menina sonhando ser mulher?

Aceita.

Este é o teu quinhão”.

A mina, se encheu pela força de resíduos acumulados. Rompeu em 25 de janeiro de 2019 resultando em um dos maiores desastres com rejeitos de mineração, no Brasil.

Continuava a ler e resolveu pesquisar.

A barragem com os sedimentos era classificada como de “baixo risco” e “alto potencial de danos”.  Aconteceu com Mariana, a primeira vila, cidade e capital do estado de Minas Gerais. 

E com tantos títulos, em 5 de novembro de 2015, é destruída, também.

O Rio Doce banha Minas Gerais e Espirito Santo e está na condição de irrecuperável. O São Francisco corre o risco de ficar assim.

A natureza sendo controlada por outrem com muito desdém. É tão óbvio tamanho desafortunamento. Concluiu!

Adélia incrédula reivindica: onde houver erro, que se possa levar a verdade. Onde houver desespero, que se possa levar a esperança. E, onde houver trevas, que eu leve a luz.

Levantou-se, finalmente.

Foi às águas que caem do chuveiro no conforto de seu banheiro. Pegou um saquinho e preparou um banho de ervas com trevo Azedo, Chuva de Ouro e Erva Sta. Maria.

A Erva de Santa Maria reluziu em suas mãos numa memória de menina. Escutará na primeira comunhão que a formação Mariana provinha do Dogma Mariano e este indicava o que é ser Maria.

A mulher que havia realizado com perfeição a personificação da mãe divinizada. Exaltada precisamente em sua simplicidade e insignificância dada à época da lei de talião – do olho por olho, dente por dente…

E é por intermédio da atenção às necessidades aparentemente insignificantes que o real se revela entre nós. Reluz a erva, em letras douradas como se comunicasse, ali, por uma mensagem codificada.

Adélia, lembrou, que havia, no dia anterior auxiliado uma amiga no chá de bênçãos e foram olhar os nomes femininos. Em primeiro lugar no Brasil aparece Maria e em segundo o nome mais cotado é Ana. Com as ervas nas mãos essa sincronicidade toda causava-lhe arrepios.

Haviam lido que Santa Ana – a mãe de Maria – é considerada a padroeira dos moedeiros e das renderias. Um bonito nome feminino que traz o sentido de dádiva, pois Ana significa alguém que é cheia de graça.

Mariana. Maria_na. Mari_Ana. Mari_a_na.

E Adélia percebeu que a normose não é tão imperativa assim. Graças! Nem quando se carrega nas memórias afetivas trazidas da infância, tampouco dos desmandos da atuação de quem não podemos ver e identificar. Por enquanto.

E naquele 02 de 02 rezou uma reza enquanto se banhava em águas, ainda, límpidas!




Príncia Béli, alma de Artista, mente de Gestora em um corpo de mulher. Tem contribuições com a poesia "Habitualidades" na coletânea Cotidiano; micro contos: Carnavalis e Salão de Festa a Vapor no livro Floripa em 100 palavras. Lançou o livro de artista Linda Liz, em 2017 e o Zine Color - Jardim de Curas, em 2018. Escreve contos, poesia como forma de manifestação das (des) ordens humanas em busca da compreensão mais elevadas de nossos feitos ,ou, como simples registro para expandir nossos olhares.
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