Pílulas_do_discernimento_Mamãe_Falei
Imagem: reprodução.

Coluna da Joanna Burigo

Pílulas do discernimento: Mamãe Falei

Postado em 07/03/2022, 16:41

Em Pílulas do Discernimento, Joanna Burigo, mestra em Gênero Mídia e Cultura (LSE), conselheira editorial do Portal Catarinas e coordenadora Emancipa Mulher, traz pequenas notas informativas e analíticas sobre temas do cotidiano social e político que estão em debate nos fóruns das redes sociais.

Mamãe, falei!

Em viagem performaticamente humanitária à Ucrânia invadida pela Rússia em março de 2022, o parlamentar Arthur do Val, também conhecido como “Mamãe Falei”, do Podemos, ostentou misoginia, classismo e racismo ao falar das mulheres ucranianas. “São fáceis, porque elas são pobres. E aqui minha carta do Instagram, cheia de inscritos, funciona demais. Não peguei ninguém, mas eu colei em duas ‘minas’, em dois grupos de ‘mina’. É inacreditável a facilidade.”, ele disse, em áudios que vazaram no dia 05 de março e que, desde então, vêm ocupando o ciclo de notícias e comentários em todos os rincões da internet brasileira

Após o fato, e no Twitter, uma contundente conclusão de Mia Couto que diz quea diferença entre guerra e paz pras mulheres, é que na guerra, elas são estupradas por desconhecidos” foi compartilhada por Emicida. O rapper disse ter lembrado dessa frase do autor angolano depois de ler um excelente texto em que o jornalista Jamil Chade critica as falas misóginas do deputado paulista. 

As feministas estamos há mais de 200 anos enquadrando o machismo sistêmico que estrutura a psique e os valores dos homens cis para enxergar e tratar mulheres como provedoras de serviços sexuais e de cuidado. Mas os homens cis se referenciam entre si para denunciar o machismo de outro homem cis.

Na esteira deste episódio lamentável, vi poucos homens cis assumindo que o teor de comentários como os feitos por Val é o teor de muitos dos pensamentos que a maioria dos homens cis têm em relação às mulheres. E vi menos ainda os que expressaram reconhecimento da naturalização da sexualização e expectativa por subserviência que depositam nas mulheres. Um só, que eu vi, fez a volta quase completa e expressou que são situações como essas que revelam porque é necessário mais mulheres nos assentos de poder, mas ele tampouco lembrou seus seguidores que essa é uma demanda que surge do feminismo.

Não vou dizer quem são, nem gastar didatismo explicando que nenhum Mia Couto, Emicida e Jamil Chade foram ou serão prejudicados por este texto. Mas nessa vida eu consegui explicar o que é patriarcado para poucos homens cis que se dispuseram a entender, e todos, num primeiro momento (todos!), disputaram a existência do patriarcado, depois minha metodologia de enquadramento do patriarcado, e depois ainda o que, neles, é consequência do patriarcado.

Estes poucos homens cis, depois de entenderem patriarcado, quando explicam patriarcado para outros homens cis, raramente me citam, ou usam as palavras “feminismo”ou “feminista” para fundamentar suas falas, e frequentemente são louvados por sua inteligência.  E nisso eu, meu pensamento e mais de quinze anos de dedicação aos estudos feministas e de gênero (que por sua vez me precedem em mais de dois séculos) desaparecemos da equação.

O feminismo revela o patriarcado. E o patriarcado apaga o feminismo, mesmo quando emprega lógicas feministas para se auto analisar.

Plágio!

O caso João Marques (o cara que plagiou a pesquisadora doutora professora feminista e psicóloga Valeska Zanello e que se auto define como “escritor,  palestrante e pesquisador de psicologias da masculinidade”) revela algumas questões a respeito das quais teço comentários constantes aqui nesta coluna:

Sobre estudos de gênero: o desconhecimento sobre as teorias dessa área ainda é tamanho que um sujeito pode se dizer “pesquisador de psicologias da masculinidade” e fazer parecer que esse direcionamento existe. Existem pesquisas sobre masculinidade e muitos desses estudos se utilizam de ferramentas da psicologia. Mas “psicologias da masculinidade”? Que metodologia é essa?

Sobre masculinidade: homens como Osmundo Pinho, Michael Kimmel, Daniel Costa Lima, Benedito Medrado, Jorge Lyra e Deivison Nkosi arrasam nos estudos de gênero sobre masculinidade, sabem por quê? Porque partem de análises feministas. Abertamente. Reconhecem e referenciam a origem desses estudos, rigorosamente.

Sobre cultura influencer: vejam como é fácil picaretas se criarem no Instagram e fazerem sucesso nos canais GloboSat como intelectuais: basta usar a retórica, estética e o gestual da moda para falar com segurança e um vocabulário razoável sobre um tema. Não importa se é habalaxúria ou conteúdo roubado.

A internet cai fácil no charlatanismo, e o sucesso das jovens místicas, das drags professorinhas e dos coaches desconstruídos mostra que sempre tem espaço pra pilantra.

Haja discernimento, gente.

Conceitos feministas

O patriarcado tem, em sua composição, a supervalorização da masculinidade cis hetero normativa, do falogocentrismo e da supremacia branca.

Eu sou branca e cis. E vivo de empreender críticas ao patriarcado, ou seja: à supremacia branca, à branquitude, à cis hétero normatividade. Não tenho pênis (ao menos não um orgânico, nascido comigo…), e estou mais perto e tenho mais acesso ao poder fálico do que muitas mulheres. E agora que ofereci meu confessional do lugar de fala, obrigatório na era da identidade nas redes (atenção: esta cláusula conteve sarcasmo), vamos pensar criticamente para fora dos nossos umbigos?

É perfeitamente possível ser cis e empreender críticas à normatividade cis. Possível e necessário.

É perfeitamente possível ser branco e empreender críticas à branquitude e adjacentes delírios concretos de supremacia. Possível e necessário.

É perfeitamente possível ser homem e empreender críticas à masculinidade hegemônica, é possível até ser homem cis e fazer isso! É possível e necessário, e a gente considera esses pintas aliados.

É perfeitamente possível ter pênis e empreender críticas ao falogocentrismo patriarcal. Possível, necessário, e não machuca nem brocha.

Vejam: é perfeitamente possível apresentar qualquer marcação de identidade e empreender críticas ao patriarcado. Possível, necessário e feminista — assim mesmo, sem aspas.

(Eu vi no Twitter que chamaram de “feministas” — assim, entre aspas — quem fez críticas adequadamente feministas ao incontestável falogocentrismo bélico da guerra. A minha reação foi rir revirando os olhos. Há coisas que a gente não precisa levar a sério, e o Twitter, sendo a plataforma adequada para o caráter insolente do desejo expresso em slogans oriundos de frustrações pueris, é cheio delas.)

É perfeitamente possível ser feminina e criticar a feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade cis, porque quem a gente é não nos impede de empreender crítica nenhuma.

Falogocentrismo, masculinidade, feminilidade, branquitude… essas coisas, para esta autora feminista e para o feminismo de forma ampla, são conceitos que nomeiam elementos estruturantes da sociedade, não condenações aplicadas em nós pelos nossos próprios corpos.

Discernimento, gente.

E FOGO NO PATRIARCADO FALOGOCENTRADO E SUPREMA-CIS-TA BRANCO.

O senhor da guerra

O patriarcado é o senhor da guerra, e ele é feito por homens cis, e apenas para uns poucos deles e quem quer que eles definam poder existir sob eles. Outro mundo há de ser possível.

América Latina feminista!

É encorajador ser testemunha das feministas que vêm alcançando êxito apesar da extrema direita. 

Em 21 de fevereiro de 2022, e por 5×4 votos, a Corte Constitucional Colombiana assegurou o direito ao abortamento legal. A medida foi levada à Corte pelo movimento feminista do país, há quase dois anos, visando acabar com a pena que chegou a colocar em média 400 mulheres por ano na cadeia por um mínimo de 16 e um máximo de 54 meses. A Corte encaminhou, ao Congresso e Governo, comunicado exigindo que a decisão seja cumprida o mais rápido possível.

A América Latina quer mais feminismo, e o mundo todo precisa se desfazer do fascismo. Bora aumentar a onda verde no Brasil.

Euphoria

Euphoria é a versão anos 20 do que o filme Kids foi em 1995 e do que a série Skins foi em 2007: um conto de advertência, espetacularizado e glamuroso, sobre sexo e drogas na adolescência. A série não passa muito de uma colagem de déjà vu com nostalgia em roupas vintage, mas a Zendaya se entrega tanto à atuação que é irresistível assisti-la. E as câmeras a amam, e ela ama as câmeras, e a gente ama assistir os registros desse amor.

Culto de personalidade

O talento do sujeito bem sucedido na/pela cultura influencer não precisa ser, e geralmente não é, apenas um. Em outras palavras, não estou dizendo que influencers bem sucedidos não tenham talentos múltiplos. Isso seria injusto e falso. Mas, sem um talento específico, nenhum sujeito é bem sucedido na/pela cultura influencer. Esse talento é o talento de se colocar no centro de qualquer narrativa. De reverberar narrativas a partir de si. De conferir a si mesmo relevância a partir da rapidez para forjar conteúdo na esteira de debates que capturam a atenção das tendências algorítmicas. De moldar relevância social para si através de narrativas exógenas numa lógica peculiar de autovalorização, de existir para tornar a si mesmo em capital financeiro, onde rendimentos garantem maior sucesso de público e maior sucesso de público garante rendimentos.

É possível e bonito e profundo falar de si para explicitar problemas sociais, mas a cultura influencer força os sujeitos a fazerem o caminho inverso, empregando o discurso social como base para falar de si.

A cultura influencer é uma manifestação nada surpreendente da subjetividade neoliberal. Eu só não chamo a cultura influencer de ápice da subjetividade neoliberal porque essa não é a minha área de estudo, e desde há muito tempo essa discussão existe nas academias e nas artes dissidentes, como mostra esse refrão de Cult of Personality, da banda estadunidense Living Colour, de 1988:

You don’t have to follow me (Você não precisa me seguir)
Only you can set me free (Só você pode me libertar)
I sell the things you need to be (Eu vendo as coisas de que você precisa para ser)
I’m the smiling face on your T.V. (Sou o rosto sorridente na sua T.V.)
I’m the cult of personality (Sou o culto da personalidade)
I exploit you still you love me (Eu te exploro, e ainda assim você me ama) 

Harmonização facial

Uns chamam de padrão de beleza. Eu chamo de estética da feminilidade que enfatiza a hegemonia da masculinidade cis; de padrão de subjugação ao male gaze patriarcal; de retificação da feminilidade enfatizada pelos artifícios da cultura influencer; de autoobjetificação e o estranho (mas nada incomum) desejo de se parecer com bonecas sexuais; de novíssimo mais do mesmo só que em outra plástica.

Boneca

Quanto mais olho imagens de algumas pessoas famosas, menos consigo distinguir umas das outras, e gente de boneca sexual.

A feminilidade enfatizada, plastificada e filtrada do Instagram da era da identidade (e da subjetividade neoliberal), além de solapar diferenças, acachapa a estética para dentro do que há de pior no male gaze. 

Feminilidade enfatizada e male gaze são conceitos feministas que frequentemente invoco nas minhas análises de mídia e linguagem, e já expliquei e compartilhei o significado de ambos profusamente aqui na coluna #PílulasDeDiscernimento do Catarinas.

Boneca não é elogio!

Penso ser possível dizer que Lizzo é a Aretha Franklin dessa geração, mas se pode não ser correto compará-las, certamente é elogioso na direção de ambas.

Penso ser cada vez menos possível distinguir Madonna de Pabllo Vittar, Kim Kardashian de Anitta, elxs de mais uma penca de gente famosa, e todxs de bonecas sexuais, e essa comparação pode até não ser elogiosa, mas errada não está.

A feminilidade enfatizada conforme sua retificação nas redes sociais é matéria urgente para pesquisa feminista, estudos de mídia e sociologia da imagem.

Manutenção do poder patriarcal

Não é exatamente difícil de entender como nem por que insisto em afirmar que a feminilidade enfatizada é um dos dispositivos mais eficientes da manutenção do poder patriarcal.

O que é difícil de entender é a que feminilidade me refiro, visto que a feminilidade enfatizada não se encerra em uma estética ou em corpos específicos, tampouco é um conceito fechado, mas sim algo que pode (e deve!) ser vislumbrado em/como conjuntos de ações e práticas.

A ativista transfeminista Daniela Andrade é sempre muito certeira nas análises sociais que faz, e muito elegante quando produz críticas feministas mais amplas a partir de comentários que tece sobre pessoas famosas. Como ela bem explora em um post crítico sobre Nany People, naturaliza-se que mulheres façam ou não o que quer que seja tendo como prioridade a intenção de agradar homens – nas palavras da Daniela:

“como se jamais a gente fizesse pela nossa própria saúde e bem estar (…) como se fôssemos meros objetos para homens desfrutarem”.

A naturalidade com que o desejo dos homens cis e supostamente hétero é lido como central para as decisões das mulheres evidencia o quanto certas ações e práticas enfatizam a hegemonia da masculindade. E não me refiro somente ao desejo sexual, mas a como a vontade dos homens é tida como fundamental para as decisões tomadas por mulheres, sejamos nós cis ou trans, ou mesmo lésbicas, ou  até deles mães e filhas. É normal as pessoas esperarem que mulheres levem em conta as aspirações dos homens nos próprios processos de tomada de decisão.

Consolidar o querer dos homens cis e hétero como baliza do que é ou não aceitável e desejável para mulheres fazerem é enfatizar o poder que eles têm de subjugar mulheres para a manutenção da hegemonia masculina cis-hétero-normativa. E é assim que a feminilidade enfatiza o poder patriarcal. 

Sabendo disso, podemos pensar em outra formas de viver feminilidades, descentralizando dessa construção o olhar e o desejo dos homens cis. Que, percebam: nem precisam ser hétero para supervalorizarem essa feminilidade… Mas esse é outro post.

* conceito de Connell que emprego com frequência, e já expliquei mais de uma nas publicações da coluna #PílulasDeDiscernimento aqui no Catarinas.

Feminilidade e outras expectativas patriarcais 

Todas as vezes que critico a feminilidade enfatizada abertamente usando exemplos que a ilustram, ao invés de somente discorrer sobre o conceito, duas coisas acontecem.

A primeira, recebo muito mais engajamento positivo e em concordância do que a média das minhas postagens, porém recebo POR INBOX. Isso diz muito do receio que as mulheres ainda têm de falar sobre feminilidade pelo viés feminista no debate público. A segunda, sempre acabam me mandando conteúdos que questionam a pornificação da cultura.

Nos dois casos, as pessoas fazem questão de salientar que o que elas estão problematizando não é a mulher, mas sim a auto objetificação, a relação das imagens com pornografia e prostituição, o falso empoderamento, a sensualização em nome do feminismo, etc.

Meus comentários feministas sobre feminilidade enfatizada nunca são contra as mulheres, e não acho possível ser feminista e demonizar trabalhadores sexuais. Raramente ilustro o conceito de Connell com imagens de pessoas reais, prefiro insistir na abstração conceitual, e sempre me refiro à objetificação como problemática, não à pornificação. Trabalho sexual é trabalho, e objetificação é fetichizar humanos. São coisas diferentes, e, nos dois casos, minha luta feminista é pela dignidade e os direitos das pessoas; direitos trabalhistas para profissionais do sexo, e tratamento humano para todos não são coisas tão diferentes assim.

A feminilidade enfatizada não deve ser justificativa para misoginia na direção da mulher que a invoca, evoca, emana ou expressa. E as mulheres SABEM DISSO.

A feminilidade enfatizada é tão bom conceito justamente por não enquadrar nenhuma pessoa sozinha como responsável, nem o trabalho sexual ou a sensualidade e a sedução, mas sim um conjunto de significantes e práticas que servem para a manutenção do poder patriarcal.

A feminilidade enfatizada é um desses conceitos feministas de que tanto gosto justamente porque  nomeiam as artimanhas patriarcais de subjugação que todas conhecemos e sentimos, mas sobre as quais mal conseguimos falar sem antes nos enquadrarem como moralistas ou invejosas ou frígidas, e por nos possibilitar não precisar “tacar pedra” em nenhuma “Geni”.

Falar em feminilidade enfatizada não é falar das ações das mulheres. É falar sobre as expectativas do patriarcado. E ainda há muito o que desdobrar. Haja discernimento!

Feminilidade enfatizada

Não é exatamente difícil de entender como nem por que insisto em afirmar que a feminilidade enfatizada (conceito de Connell que emprego com frequência aqui nas #PílulasDeDiscernimento do Catarinas) é um dos dispositivos mais eficientes da manutenção do poder patriarcal.

O que é difícil de entender é a que feminilidade me refiro, visto que a feminilidade enfatizada não se encerra em uma estética ou em corpos específicos, tampouco é um conceito fechado, mas sim algo que pode (e deve!) ser vislumbrado em/como conjuntos de ações e práticas.

Naturaliza-se, por exemplo, que mulheres façam ou não o que quer que seja tendo como prioridade a intenção de agradar homens. A naturalidade com que o desejo dos homens cis e supostamente hétero é lido como central para as decisões das mulheres evidencia o quanto certas ações e práticas enfatizam a hegemonia da masculindade. E não me refiro somente ao desejo sexual, mas a como a vontade dos homens é tida como fundamental para as decisões tomadas por mulheres, sejamos nós cis ou trans, ou mesmo lésbicas, ou até deles mães e filhas. É normal as pessoas esperarem que mulheres levem em conta as aspirações dos homens nos próprios processos de tomada de decisão.

Consolidar o querer dos homens cis e hétero como baliza do que é ou não aceitável e desejável para mulheres fazerem é enfatizar o poder que eles têm de subjugar mulheres para a manutenção da hegemonia masculina cis-hétero-normativa. E é assim que a feminilidade enfatiza o poder patriarcal. 

Sabendo disso, podemos pensar em outra formas de viver feminilidades, descentralizando dessa construção o olhar e o desejo dos homens cis. Que, percebam: nem precisam ser hétero para supervalorizarem essa feminilidade… Mas essa fica para outra nota.

O pum da palhaça

Soube pelo meu amigo e colaborador Jhonatan Lula Zati que existe um TikTok no qual a moça fatura fazendo vídeos, com dedicação exclusiva para o comprador, da própria flatulência.

Realmente não há o que não haja. E como falei pra ele, é a gente é que pensa que o que importa é o que interessa, e vive de acordo. Enquanto nos esforçamos (e sem enriquecer…) em nome do rigor e na direção do progresso inclusivo, influencers faturam com o desejo dos outros de serem como elxs.

E, francamente? Entre a Peidona e a Tássia, por exemplo, a Peidona me ofende menos. Pelo menos ela não participa do ridículo que revela, e deixa bem claro que ganha dinheiro com a estupidez dos outros…

Influencers, em geral, se refestelam na insegurança alheia, e isso não é nem engraçado. A cultura influencer é a manifestação, nas redes, da tradição milenar humana de fazer capital girar a partir das incertezas do cidadão médio.

Há, como sempre existiu, quem produza ações emancipatórias e quem fature com a fragilidade humana. E ações emancipatórias não são tão lucrativas quanto capitalizar vulnerabilidades.

Vender peido é tão grotesco quanto vender feminilidade enfatizada, mas fazer abertamente da flatulência parte de uma transação financeira deixa a decisão pelo ridículo muito mais nas mãos do comprador do que fazer caras e bocas para vender o que ninguém precisa comprar.

Vender escatologia pra quem quer comprar escatologia é mais honesto e inofensivo do que vender ideais hegemônicos i n a t i n g í v e i s pra quem nem sabe que é isso que está comprando…

Sinhá

E nessa de saber das coisas que acontecem em outras redes por amigos, a Jussilene Santana – atriz e uma das autoras do Tem saída? (Editora Zouk, 2017) – me contou que existe, no Instagram, um filtro chamado “ultra bonita (ou algo assim)” que, dentre outras artimanhas, afina o nariz e deixa a pele mais clara.

A feminilidade enfatizada não é uma estética, nem tem relação com corpos específicos, necessariamente. Ela é uma expectativa depositada em mulheres, para enfatizar a hegemonia da masculinidade, e da masculinidade patriarcal, quer dizer, da masculinidade do sujeito universal, ou seja, da masculinidade cis e branca e sem deficiência aparente. Mas ela se manifesta, também e muito, como estética.

Filtros ou intervenções que “deixam mulheres mais bonitas” serem feitos de coisas como afilar narizes e clarear peles enfatizam uma estética branca. Enfatizam, assim, a hegemonia branca. A feminilidade enfatizada é um exercício de manutenção da hegemonia, e evidentemente não somente da hegemonia masculina, mas branca. Como a CEO da Doorbell Ventures e linguista Linda Marxs comentou em um dos meus posts sobre o tema, é a feminilidade da sinhá. 

A feminilidade enfatizada é, também, um exercício de supremacia branca.

Feminismo de influencer

Feminismo de influencer vai mais ou menos assim: “Tenha a coragem de ser você mesma! Compre esse produto que anuncio para faturar o dinheiro que vai me dar a coragem de te explorar sendo eu mesma.” Ah, o culto da personalidade…




Joanna Burigo trabalha com comunicação e educação feminista sobre gênero. Atuou no mercado de publicidade e marketing, e também como professora, no Brasil e no Reino Unido. Cofundadora do Guerreiras Project e Gender Hub e fundadora da Casa da Mãe Joanna, é MSc em Gênero Mídia e Cultura pela London School of Economics. É conselheira do Portal Catarinas, coordenadora da Emancipa Mulher e curadora do selo #CDMJ na Editora Zouk. Seus textos podem ser encontrados em Carta Capital, The Intercept Brasil, Geledés e outras publicações.
Veja a coluna da Joanna Burigo