Ilustração: Duda Nas

Coluna da Coletivo Valente

Pandemia, mulheres negras e a necessidade do feminismo negro

Postado em 05/02/2021, 8:33

O feminismo negro convoca a uma mudança estrutural necessária à sociedade. 

Por Halina Leal.

Em tempos de pandemia de Covid-19, as desigualdades de gênero, raça e classe tornam-se mais evidentes. No Brasil, onde negras e negros são vítimas das disparidades sociais, do preconceito e da discriminação racial, a crise é acentuada, revelando a vulnerabilidade desta população.

Tal vulnerabilidade é histórica, tendo em vista o racismo histórico e estrutural que naturaliza as situações desiguais das pessoas negras na nossa sociedade. O racismo, ou seja, a forma sistemática de discriminação racial e que resulta em desvantagens ou privilégios, dependendo do grupo racial ao qual os indivíduos pertençam, invisibiliza e silencia grupos racialmente identificados. Suas demandas não são consideradas como importantes e no contexto da pandemia não é diferente.

No Brasil, o governo federal não exigiu a coleta de dados raciais para os casos de Covid-19 até a segunda semana de abril e o fez somente após a pressão de movimentos negros, entidades de classe e associações científicas. Isto revela o descaso do poder público com esta população. Mesmo tardios e nem sempre com qualidade que permita análises detalhadas que desvelem as desigualdades raciais em saúde, os dados são reveladores.

Em abril, o Ministério da Saúde já apontava para altas taxas de mortalidade por Covid-19 entre pessoas negras, incluindo aquelas que se identificam como “pretas” e “pardas” no censo demográfico. Dados coletados no mês de maio por pesquisadores para mais de 5.500 municípios mostram que 55% dos pacientes negros, hospitalizados com Covid-19 em estado grave, morreram em comparação com 34% dos pacientes brancos. (ARAÚJO e CALDWELL, 2020) 

A situação das mulheres negras é peculiar. Para além do racismo que faz com que a vulnerabilidade anteriormente descrita as atinja, sobre estas mulheres incide também os efeitos do sexismo. Em função disso, as mulheres negras encontram-se na base da sociedade. O que significa, por exemplo, receberem os menores salários em comparação com homens negros, mulheres brancas e homens brancos (IBGE, 2019); sofrerem maior violência obstétrica, 65,9% das mulheres que sofrem este tipo de violência são negras (FIOCRUZ, 2017), serem as maiores vítimas de mortes maternas, 62,8% destas mortes, e feminicídios, 61%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019.  

Na pandemia, as mulheres negras têm sofrido o impacto da doença com maior precarização de condições de trabalho e sobrevivência e exposição a situações de violência. Neste período, o trabalho doméstico tem sido essencial e são as mulheres negras que constituem a maior força de trabalho doméstico no país, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Por causa disso, muitas não fizeram o isolamento, estando mais propensas a serem contaminadas pelo vírus, além de a maioria não ter locais adequados para deixar seus filhos enquanto trabalha. Nas regiões periféricas, muitas mulheres negras estão sustentando a família e muitas, com companheiros desempregados, sofrem violência doméstica de modo mais frequente.  

O “peso” da interseccionalidade (sobreposição) de opressões de gênero e raça tornou-se mais evidente na pandemia, o que torna mais evidente a necessidade de um movimento que coloque as mulheres negras no centro dos debates e reivindicações e que as tire do lugar de invisibilidade e silenciamento. Aí reside a necessidade do feminismo negro. 

Feminismo negro designa o movimento teórico, político e social protagonizado por mulheres negras e que busca dar visibilidade às peculiaridades das demandas deste grupo de mulheres. Essas demandas estão relacionadas à interseccionalidade de opressões que implica em múltiplas situações pelas quais passam estas mulheres e que as colocam à margem do poder e da representação, em diferentes contextos.

O objetivo do feminismo negro é o desenvolvimento do empoderamento das mulheres negras a partir de si mesmas, de discursos próprios e de autoidentificação, tendo em vista a justiça social e a modificação das estruturas sociais. Nesses termos, este empoderamento não está direcionado pura e simplesmente para conquistas individuais, mas às coletividades de mulheres negras que desenvolvem um entendimento de sua condição social e política, de sua história e de suas variadas habilidades, autoafirmando-se e trilhando caminhos de superação das condições impostas pelas desigualdades sociais. 

O feminismo negro, ao dar visibilidade ao conjunto múltiplo e simultâneo de discriminações que recaem sobre as mulheres negras e que definem fortemente posições e possibilidades sociais deste grupo, aponta o quanto as questões de raça e gênero estão entrelaçadas com as questões de classe. 

Este é um movimento que foca, num primeiro momento, nas mulheres negras, mas convoca para uma mudança estrutural necessária à sociedade. É nesse sentido que o feminismo negro envolve não somente a libertação das mulheres negras individualmente ou enquanto grupo, mas envolve também a libertação de homens negros, mulheres não negras, comunidade LGBTQIA+ e todas e todos em situações de desigualdade e opressão. 

Em última análise, ao refletir sobre as bases dos sistemas opressivos e desiguais, o feminismo negro fortalece e amplia seu campo de atuação enquanto um movimento social e político. Ele abarca distintos segmentos sociais, propondo mudanças estruturais em sistemas políticos, econômicos e sociais reprodutores de desigualdades, violências e opressões.

Referências
ARAÚJO, Edna e CALDWELL, Kia. Por que a COVID-19 é mais mortal para a população negra. abrasco.org.br. Disponível em: https://www.abrasco.org.br/site/gtracismoesaude/2020/07/20/por-que-a-covid-19-e-mais-mortal-para-a-populacao-negra-artigo-de-edna-araujo-e-kia-caldwell/

LEAL, Halina. Feminismo Negro. Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia, v. V.6, p. 16-23, 2020.

*Halina Leal é Doutora em Filosofia/USP, com estágio em Stanford University. Pós-Doutorado em Filosofia-UNIOESTE. Professora da FURB, líder do GENERA-Grupo Interdisciplinar de Pesquisas em Gênero, Raça e Poder.

**Esse artigo foi publicado originalmente na Revista Valente, do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário do Estado de SC (Sinjusc).




O coletivo Valente nasceu em 2018 da vontade de um grupo de trabalhadoras do judiciário catarinense de Santa Catarina de unirem esforços não apenas em torno do debate das nossas especificidades, mas também da luta por vida digna e livre para todas as mulheres, a partir de uma perspectiva emancipacionista, antirracista e classista.
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