Por que no Brasil, invariavelmente, os projetos começam como conchavos políticos que têm pouca relação com o povo?

Nos últimos três anos, o país assistiu a um verdadeiro desmonte das políticas de proteção social. Fazendo jus a essa mesma política, o programa Bolsa Família, depois de 18 anos, reconhecimento internacional e prêmios recebidos, foi encerrado. 

Em seu lugar, é apresentado o Auxílio Brasil, que chega cheio de interrogações e dúvidas. Sua única certeza é a de que nasceu sob a chancela de um governo que queria deixar a sua marca (como se não tivesse deixado já em outras áreas de forma indelével).

Mas ele está aí. Tal qual uma colcha de retalhos, vem recebendo remendos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal em uma tentativa de salvá-lo do fim óbvio em 2022, ano de eleição, e do descrédito.

Esta semana, a versão aprovada pela Câmara dos Deputados  e apresentada pelo deputado Marcelo Aro (PP-MG), sugeriu a ampliação do número de famílias que serão atendidas pelo programa. Isso deve pressionar ainda mais a exígua verba disponível para o Auxílio Brasil de 2022. 

Como tudo neste governo, ainda há muitas dúvidas rondando o Auxílio Brasil. De certo mesmo, apenas a quantidade de pessoas que já foram excluídas de qualquer política de proteção de renda em novembro de 2021, sem perspectiva de inclusão. São 29 milhões, sendo que 24 milhões recebiam o auxílio emergencial por inscrição via aplicativo e 5,3 milhões de famílias estão no cadastro único, mas nunca receberam o Bolsa Família.

Mas o que são esses 29 milhões diante de tantas famílias que passam 24 horas por dia sem acesso a alimentos?

Ou frente a pouco mais da metade da população brasileira (55%) que sofre com a insegurança alimentar desde dezembro do ano passado?

Como se não bastasse, a perda de empregos, de postos de trabalho e renda, impostos pela crise econômica, fizeram o número de favelas praticamente dobrar em todo o país na última década. 

 O estudo “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, da Rede Pessan, revela que 116,8 milhões de brasileiros não têm acesso pleno e permanente aos alimentos. Desse total, 43,4 milhões (20,5% da população) não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estavam passando fome (insegurança alimentar grave…).

Essas pessoas vão continuar sem assistência alimentar e social do governo. Abandonadas à sua própria sorte, vão cada vez mais engrossar as filas dos que correm atrás de sobras para tentar alimentar a si mesmo e aos filhos.

Triste país das costuras que não consegue olhar além de Brasília.

Paola Carvalho

Diretora de Relações Institucionais da Rede Brasileira de Renda Básica, uma das organizações participantes da campanha #AuxílioAtéoFimdaPandemia.

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