A eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo no último domingo (5), para mim, não foi só uma derrota esportiva. Foi também um espelho que revelou uma imagem incômoda. 

De um lado, Neymar, um dos maiores símbolos recentes de um país que se acostumou a produzir talentos, mas nem sempre referências públicas à altura da influência que exercem. Na partida contra a Noruega, além do gol marcado de pênalti, o atacante chamou a atenção pelo desentendimento com o goleiro norueguês durante o jogo, em mais um episódio que alimentou as críticas sobre sua postura dentro e fora de campo.

Do outro lado, Erling Haaland, autor dos dois gols da vitória norueguesa por 2 a 1. Depois da classificação histórica, suas declarações seguiram um caminho diferente. Em vez de exaltar apenas o resultado, fez questão de elogiar a tradição do futebol brasileiro, disse que cresceu assistindo aos jogos da Seleção e falou sobre ter enorme respeito pelo Brasil e seu povo. 

Ao longo da carreira, Haaland também construiu a imagem de um atleta competitivo, mas respeitoso com adversários e companheiros de equipe, reforçando uma postura frequentemente associada ao espírito esportivo.

Duas trajetórias, dois modelos de sociedade

Seria injusto resumir dois países a dois jogadores. Mesmo assim, é difícil não perceber que o contraste entre essas duas imagens estimula uma reflexão maior sobre os valores que cada sociedade cultiva, incentiva e reconhece em seus ídolos.

Não se trata de comparar dois indivíduos como se fossem a síntese moral de seus países. Mas é impossível ignorar que o futebol, muitas vezes, expõe o que uma sociedade escolhe valorizar. 

Neymar tornou-se também expressão de um Brasil que ainda confunde diferencial com salvo-conduto e fama com irresponsabilidade pública. Haaland, por outro lado, parece representar algo que vai além do atleta: um modelo de formação social em que disciplina, equilíbrio emocional, respeito à família, confiança e senso coletivo não são exceções, e sim resultados de uma engrenagem social mais ampla e que funciona.

A diferença entre Brasil e Noruega, portanto, não começa no gramado. Começa na escola, na infância, na proteção social, na qualidade das instituições, na base familiar, na forma como se distribuem oportunidades e na maneira como cada país decidiu, ou deixou de decidir, o que fazer com sua riqueza.

Antes do petróleo, vieram as pessoas

A Noruega investe cerca de 6,2% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação, um dos maiores percentuais entre os países desenvolvidos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O país destina aproximadamente US$ 19,8 mil por estudante, enquanto o Brasil investe cerca de US$ 3,6 mil por aluno e enfrenta profundas desigualdades territoriais, de eficiência e aprendizagem.

Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), considerado a principal avaliação mundial da educação básica e coordenado pela OCDE, apenas 27% dos estudantes brasileiros atingiram o nível mínimo de proficiência em matemática em 2022. 

Na média dos países da organização, esse percentual chega a 69%. Esse contraste diz muito. O Brasil produz talentos apesar do sistema. A Noruega produz desenvolvimento por causa do sistema.

Neymar é, nesse sentido, uma síntese. Um menino com talento diferenciado, que venceu muitas vezes por sua capacidade incomum de driblar adversários, mercados, expectativas e também limites sociais. Mas que se transformou em um adulto que, ao longo da carreira, acumulou episódios de comportamento público questionável, escolhas controversas e escândalos negativos da própria imagem. 

Sua trajetória revela algo sobre o país que o formou: um Brasil em que o talento individual é, muitas vezes, obrigado a carregar sozinho o peso que deveria ser sustentado por escola de qualidade, estrutura familiar, proteção social, educação emocional e responsabilidade coletiva.

Equilíbrio de gênero e mais bem-estar social

A Noruega era um país pobre, periférico, de clima hostil e população pequena. Mas começou a construir suas bases muito antes de enriquecer. Desde a Constituição de 1814, fortaleceu gradualmente o Parlamento, a educação pública, a confiança nas instituições e uma cultura política orientada pelo diálogo e pelo planejamento de longo prazo. No pós-guerra, sobretudo entre 1945 e 1970, consolidou seu Estado de bem-estar social. 

Seu Parlamento é um reflexo dessa construção. Formado por 169 representantes eleitos, reúne atualmente nove partidos políticos e conta com cerca de 42,6% de mulheres entre seus parlamentares, um dos maiores índices de representação feminina do mundo. 

Mais do que uma questão de equilíbrio de gênero, essa participação expressiva reflete uma democracia que, há décadas, amplia espaços de decisão, incentiva a diversidade e compreende que sociedades mais plurais tendem a produzir políticas públicas mais representativas e democráticas.

Quando o petróleo foi descoberto, em 1969, o país já tinha instituições capazes de transformar riqueza natural em desenvolvimento coletivo e não tratou a descoberta como bilhete premiado para consumo imediato. Transformou uma riqueza finita em construção de patrimônio comum.

O maior símbolo dessa visão é o Government Pension Fund Global, o fundo soberano da Noruega. Criado para administrar as receitas do petróleo e do gás, ele transformou uma riqueza finita em patrimônio permanente. 

Hoje administra mais de 22,5 trilhões de coroas norueguesas investidas ao redor do mundo, com o objetivo de preservar riqueza para as futuras gerações. Para isso, adota critérios rigorosos de governança e considera riscos relacionados às mudanças climáticas, à biodiversidade e à responsabilidade empresarial em suas decisões de investimento. 

Há um paradoxo interessante nessa história: um dos maiores produtores de petróleo do mundo utiliza essa riqueza para construir um patrimônio pensado para atravessar gerações.Enquanto a Noruega institucionalizou o futuro, o Brasil ainda improvisa o presente.

Confiança também se constrói

A Noruega hoje aparece entre os países mais íntegros do mundo, com 81 pontos e 4ª posição no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional. O Brasil soma 35 pontos e ocupa a 107ª posição entre 180 países. A distância é econômica, mas também educacional e civilizatória. 

Países com instituições confiáveis desperdiçam menos, planejam melhor, atraem mais investimentos e transformam impostos em serviços. Países de baixa confiança pagam caro por isso: mais burocracia, judicializações e desigualdade.

O Brasil tem uma Constituição generosa, um sistema público de saúde muito importante, o SUS, universidades públicas relevantes, e uma capacidade imensa de produzir cultura, ciência, esporte e inovação, por exemplo. 

Mas carrega uma herança brutal: quase quatro séculos de escravidão, concentração fundiária, exclusão educacional, desigualdade racial, instabilidade política e descontinuidade de políticas públicas. 

A Noruega construiu seu pacto social antes da riqueza. O Brasil tenta construir cidadania depois de ter naturalizado desigualdades profundas por tempo demais.

É por isso que a comparação entre Neymar e Haaland, se bem compreendida, não deve servir para humilhar o Brasil. Deve servir para acordá-lo. A questão não é se Haaland é “melhor pessoa” do que Neymar. A questão é o que cada um revela sobre o ambiente que os moldou. 

A Noruega não é perfeita. Também enfrenta dilemas ambientais, dependência histórica do petróleo, pressões migratórias e desafios educacionais recentes, especialmente diante do impacto do excesso de telas, celulares e inteligência artificial na aprendizagem das crianças.

Mas, no fim, creio que a cena da eliminação brasileira não fale apenas sobre futebol. Fale sobre dois modelos de sociedade. O Brasil ainda precisa de escolas melhores, infância protegida, esporte de base, políticas públicas consistentes, segurança social, instituições confiáveis e visão de futuro. 

A Noruega não venceu porque encontrou petróleo. Nem somente porque teve Haaland. Venceu porque decidiu, há gerações, investir em pessoas antes de investir em lucro e dinheiro a qualquer custo. E talvez seja essa a partida que o Brasil ainda precisa aprender a jogar.

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  • Claudia Guadagnin

    Claudia Guadagnin é jornalista, pós-graduada em Antropologia Cultural e Mestra em Direitos Humanos e Políticas Públicas....

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