Por um fio, obra da série Fotopoemação (1976), de Anna Maria Maiolino. Foto: Contemporary And América Latina.

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (6) – Sempre o patriarcado…

Postado em 16/05/2021, 12:32

Domingo, dezesseis de maio de dois mil e vinte e um. Confesso: esta última semana foi difícil. Em Turvo o clima virou e fez um frio demasiado cortante para meados de maio. Minha mãe sofre com este frio que enrijece  suas articulações, já avariadas pelo esforço e desgaste nos seus mais de oitenta anos. Ano passado trouxe-lhe um aquecedor a óleo, mas ela tem medo que pegue fogo e resiste quando quero ligar. Eu entendo: em 1994, ela tirava cachopas de marimbondo com fogo na ponta de uma taquara e caiu uma faísca na cortina… ela presenciou sua casa caindo em chamas e virar cinzas. Foi trágico.

Além do frio, de que não gosto porque avermelha o nariz  e congela os pés, choveu três dias seguidos, impedindo-me de calçar as botas e andar  pela redondeza da casa. Roupas lavadas dormiram num varal mas,  na quarta- feira, o sol abriu e elas secaram. Mesmo com a terra ainda úmida, tirei os inços que nascem entre os pés de alface e couve, e ajeitei outras plantinhas. Pronto.

No meio da tarde, que beleza de tempo! Enquanto minha mãe dormia, resolvi podar uns arbustos  do jardim. Procurei a tesoura de poda por todos os lugares prováveis e nada. Fico fula da vida quando tiram uma ferramenta do lugar em que deixei, afff.  Bem, como aqui tudo é perto, fui até a loja de ferragens, trouxe outra tesoura com os fios do corte tinindo. Problema resolvido? Só que não. No início do trabalho, um galho traiçoeiro impediu minha visão… antes de sentir dor vi o sangue na ponta das lâminas e um fisgo no dedo indicador da mão esquerda, que jorrava o líquido vermelho.

Ao lavar em água corrente, percebi que o dedo estava inteiro mas com um corte profundo na ponta do dedo, do lado inverso da unha. Ufa! Minha mãe acordou e contei o ocorrido, mostrei o estrago no dedo agora enrolado num guardanapo e disse que ia até a farmácia para fazer um curativo. “Não precisa sair, Marlene! Coloque banha de porco, enrola bem e não molha, vais ver que amanhã  melhora e o corte fecha!”  Dito e certeiro! Dois dias depois cá estou digitando e, mesmo que não use este dedo, só lembro do corte porque o bandaid o protege. Sabedoria de mãe tem poder!

Costumo, pelas 18 horas, ajudar no seu banho e  no vestir-se. Então, a medico e depois preparo nosso jantar, quase sempre sobras do almoço ou polenta frita com queijo. Depois a ajudo a deitar – ela tem dificuldades de colocar a pernas sobre a cama – e me aninho ao seu lado. Seguro sua mão. Ela sempre aperta  minha mão e diz “como vai ser quando tu fores embora?”. Digo que não ficará só, que Rita ficará parte do dia, depois vem Nivea, sua nora, e mais tarde Madson, seu filho, e a neta Laura, e que ela estará sempre bem cuidada, que não vou me demorar em Florianópolis e logo estarei de volta. Ela entende, mas eu sei que me quer perto sempre. A pandemia, ironicamente, permitiu esse reencontro com minha mãe. E bem no tempo de colher sua sabedoria, me olhar nela.

Nesses momentos, raros e preciosos, observo seus tremores e, mesmo que a televisão esteja ligada – a gente costuma ouvir noticiários  – vamos conversando cotidianidades como o trato com as galinhas, o almoço de amanhã, a horta que fizemos, o que precisa comprar na praça, a fisioterapia que nunca quer fazer mas sabe que lhe faz bem, sobre uma roupa ou costura, os netos…  Pede que eu passe um gel canforado onde lhe dói, e eu passo, massageio, mesmo sabendo que não vai aliviar muito, porque a dor vem dos estragos que os tremores vão fazendo nos ossos.

Foi numa noite dessas, quando estávamos na cama, que passou uma reportagem sobre  a morte do ator Paulo Gustavo, mostrando-o com os dois filhos nos braços. Minha mãe perguntou se os bebês não tinham mãe. Expliquei que eram dois pais e agora ficou só um, “mas que ele dá conta sim, mãezinha”. Ela entendeu, mas não muito…  Falei que existem muitos casais de homens e de mulheres, que eles têm direitos iguais aos que são heterossexuais e que merecem nosso respeito.

Ela apertou minha mão com a força que ainda tem e fixou os olhos num ponto longínquo do teto, como se o ultrapassasse e visse a escuridão da noite. E, como se suas retinas buscassem do infinito instantes da memória  e  cavassem no obscuro, disse: “Eles devem ser mais felizes, acho. Eles não devem passar pelo que eu passei no casamento…”. Um frio de doer me transpassou a espinha e, sem dizer nada e com um nó no peito, segurei mais forte sua mão. Ficamos em silêncio.

Essa confissão comoveu-me. Sempre o patriarcado e todas as engrenagens dessa educação tóxica a doer e a maltratar as mulheres. A geração de minha mãe era jovem nos anos 1950, mas não ousava sair dos padrões normativos de seu gênero e tampouco podia  fazer escolhas. Eu diria que a maior parte das mulheres não foi feliz. Sublimaram nos filhos, no trabalho árduo e nas orações as frustrações vividas na urdidura do cotidiano. Silenciaram vontades e foram submetidas ao pátrio poder.  As marcas de minha mãe são as mesmas dessas mulheres que sonhavam, por certo, com uma vida feliz mas se viram nas armadilhas de um casamento sem volta. Maridos violentos, bêbados, abusivos e machistas as mutilaram. Se, por coragem, reagissem, ah!, eram culpadas e vadias.

Minha mãe dorme. Seguro sua mão de leve para que não acorde, e me  sinto em dívida por não a ter olhado mais naqueles anos de minha adolescência. Mas eu não sabia! Era tão naturalizado o tratamento dos homens casados com suas esposas que eu não tinha como perceber. As mulheres não tinham voz. Sofriam, caladas no cotidiano, resistindo todo santo dia.

Os acontecimentos desta semana remexeram meus sentidos.  Somadas ao cotidiano estão as barbáries do genocida, os feminicídios, abusos sexuais, privatizações, a fome  de metade da população deste país, o negacionismo barato, a falta de vacinas,  a redução de recursos para educação e saúde, o massacre da pátria, o tratoraço, a desministra Damares, a devastação das florestas, o Guedes, os direitos trabalhistas roubados, as tocaias que matam indígenas, os assassinatos de jovens negros, de pessoas trans, as 430 mil almas, as mortes de fome, de fome, de fome. Como não se indignar?

Indignar-se precede resistência. Resistiremos sem perder a mão de ninguém que se indigna e luta e  brada e age. A plena democracia procede das lutas de pessoas indignadas, das escolhas de pessoas democráticas para representá-las.

 

Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.

Simone de Beauvoir

Marlene de Fáveri, 16 de maio de 2021. Turvo, SC




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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