Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (54) – ou um ano depois… outros sentidos e na resistência!

Postado em 21/03/2021, 12:06

Domingo, vinte e um de março de dois mil e vinte e um. Nesta semana fez um ano desde o início do isolamento social: era 17 de março de 2020. De volta à casa de minha mãe em Turvo, lembro com quais representações escrevi a primeira crônica desta série, e custo a acreditar que faz um ano! Escrevendo agora, como fiz todas as semanas desde então, e me dou conta dos sentidos tantos a perpassar meus escritos: saudades, medos, solidões, vontades, inseguranças, espantos, sustos, desejos, aprendizados, mais saudades… Sobrevivi. Sobrevivemos e cá estamos, mas não livres de um contágio. Espero a vacina e, embora exercite a paciência, por vezes vocifero palavrões para os estrupícios sem competência que gerem este país e para o genocídio em curso. Muitas vezes com fúria. Pequi roído é pouco!

Passei este ano entre o campo e a cidade, no vai e vem pela BR-101 entre Turvo e Florianópolis. A cada viagem, cuidados extremos porque entrar num banheiro pode ser fatal e, por mais que me envolva em álcool, use máscara, não encoste em nada e me mantenha longe das pessoas, vai saber se o medonho grudento, num descuido, entra nas minhas mucosas e viro estatística. Mais ainda porque cuido de minha mãe em Turvo, e ela merece a vida plena nos seus últimos anos sem a moléstia infame. Nós merecemos. E também cuidar de minha filha Tashi, meu mais perfeito poema!

A cronista com sua filha Tashi / Foto: arquivo pessoal

Também me reinventei e, mesmo que escrevesse muito antes, com a pandemia e a clausura passei a fazer crônicas e nelas depositei sentidos, os meus e os que me tocaram – a experiência é o que nos toca, nos atiça e nos torce para outras possibilidades. Lembro do pedagogo Jorge Larrosa Bondia nas suas lições sobe a experiência e o saber experimentar.

Desde que vesti a camponesa, naquele março do ano passado, revirei o entorno da casa da mãe nos cuidados com a horta, o jardim e o pomar, e nas lides com galinhas e com o cotidiano da casa. Estou colhendo vagens, alfaces, pimentões, abacates, limões, maracujás, couves, abóboras, goiabas, rúculas e ovos, e tudo sem agrotóxicos, uma beleza!  Sei onde comprar mudas de alface, comida de galinhas e gatos, onde consertar coisas diversas, tenho o whatsapp das farmácias, do mercado, das lojas agropecuárias… Só não me acostumo com o fato de que aqui tudo fecha no horário do almoço!! Aprendi com meu irmão Madson a fazer cercados de tela, cortar arames, pregar caixotes e outras habilidades de marcenaria. Espero que a Tchê se engrace com o namorado peludo e traga felininhos, e que dos ovos aquecidos por 21 dias debaixo da penosa brotem olhinhos piando – faltam quinze dias para uma ninhada! Laura e eu mimamos a choca maternal que pousou no ninho e ali afundou as penas, e ai de quem se atrever a mexer nos seus ovos!

Neste ano, minha mãe adoeceu e perdeu mobilidade, ficou esquecida e se atrapalha nas coisas do cotidiano. Meu maior desafio foi compreendê-la e aprender a cuidá-la. Sorte que sua memória de antigamente está nítida, e por vezes revela coisas vividas e segredos familiares que me espantam. Rita Peruchi tem sido amorosa com minha mãe e nos ajuda, obrigada! Nesta vinda, trouxe para a mãe um exemplar do livro recém publicado.

“Este livro é teu, Marlene? Foi tu que escreveste?”, perguntou-me. Observei-a folheando com curiosidade – “Tu escreves bonito, eu queria saber escrever também, mas não pude estudar…”, disse ela. Chorei por dentro e por fora, ah, que maldade fizeram com ela…

Therezinha folheando o livro / Foto: arquivo pessoal

Neste tempo de pandemia, aprendemos a olhar de longe, como fiz em alguns encontros com amigas num parque a metros de distância. Reinventamos cotidianos e maneiras de viver os afetos. A telinha passou a ser a presença possível, o áudio do whatsapp tornou-se ordinário, e os aniversários… “Minha gente linda que tanto amo! Sigo com esperanças de que possamos ter vacina para todo mundo, sinto muitas saudades, muitas, mesmo. Queria poder abraçar, beijar e por extensão conversar ao vivo e a cores, poder encontrar, aglomerar”, respondeu a amiga Regina Bittencourt às felicitações de aniversário no grupo Confraria de Mulheres. Ah, como queremos! Ninguém pôde comemorar o último aniversário com amigos… Eu costumava promover uma festa tangueira nos dezembros… No próximo dezembro a festa será de arromba!!!  Como sinto falta de dançar tango, isso me rasga fundo.

Cada qual fez o isolamento como foi possível, reinventou-se. Houve quem passou a dedicar-se à jardinagem, à gastronomia, às leituras, à escrita,  pintura, música, costura, esportes, a carpintaria, ver filmes e muitas outras coisas… Outras pessoas adotaram animais – o amigo Marcos Jorge, que é veterinário em Santo Antônio de Lisboa, disse que aumentou a demanda por seu trabalho “porque pessoas ou adotaram animais ou passaram a cuidar melhor dos que já tinham, a olhar para dentro de si, dos seus, inclusive no cuidado com os animais”. É mesmo, e tomara que não os abandonem quando a pandemia se for (que incerteza).

Para muitas pessoas, o cotidiano do trabalho não mudou e só fez aumentar os transtornos com os protocolos de higiene e o medo. Fico pensando nos riscos para os motoristas de ônibus porque, sabem eles, o vírus pode estar a bordo. Penso também nos trabalhadores e trabalhadoras domésticas, nos motoboys, frentistas, balconistas, caixas de supermercados, cozinheiros, garçons, policiais, caminhoneiros, mecânicos, profissionais de saúde, da limpeza urbana e outros, imprescindíveis para que a vida siga seu curso. Penso nos professores e professoras, com tanto trabalho remoto acumulado e agora com o risco de aulas presenciais. Preocupo-me principalmente com as mulheres que somam jornadas de trabalho, muitas vezes sofrendo violências que culminam em feminicídio cometidos pelo machismo estrutural – “Quem mata uma mulher mata a humanidade” lemos na página do Levante Feminista contra o Feminicídio. São pessoas, sobretudo mulheres, para quem se a sobrevivência já era dura,  e que são quem mais sofre com a pandemia.

Aprendemos a lidar com os cuidados de higiene, a usar máscaras, a ter álcool sempre à mão, a deixar os calçados na porta, a banhar-se depois de uma saída de casa, a não encostar em corrimões e maçanetas, a lavar ou passar álcool em tudo o que vem da rua, do supermercado, das lojas. Habituamo-nos a não cumprimentar com apertos de mão, a não receber visitas e nem visitar pessoas, a não receber o vendedor de vassouras em casa, não reunir a família como fazíamos, não ir a nenhum lugar onde existam aglomerações, não promover festas, não entrar em elevador com mais pessoas, não sair de casa ou só sair por necessidade inadiável, a não ter encontros amorosos por aí… Como disse uma amiga, até virei monogâmica!

Lidamos hoje com outras formas de vivenciar as sociabilidades através das redes da internet, construímos outras rotinas, aprendemos a fazer lives, a participar de eventos pela tela de um computador, de nos cumprimentarmos à distância, de ficarmos em casa, sermos menos consumistas e mais minimalistas. Lastimo pelas pessoas que não aprenderam nada e ainda negam os protocolos, e continuam seguindo o cloroquinado imbecil psicopata, afff…

Também estamos valorizando mais a solidariedade, os afetos e o cuidado com os nossos familiares, amigos e amigas. Sofremos com as pessoas que adoecem, e aquelas que morrem deste vírus infame. Já nos acostumamos a receber notícias de óbitos de conhecidos, e é muito dolorido. Chegou perto, muito perto de nós. Malditos genocidas, canalhas assassinos que nos negaram a vacina em tempo de barrar esta mortandade: o Brasil vive o maior colapso sanitário e hospitalar da história e hoje é laboratório de estudos que apontam o que não fazer ou fazer para barrar os óbitos e contaminações. Nesta semana que entra, chegaremos a 300 mil mortos. Era 21 de março de 2020 quando escrevi: Covid-19 – Praga implacável / ataca as carnes / embrulha corpos / leva almas / e segue / fatiando sonhos…”. O que dizer exatos 365 dias depois??

Hoje, 20 de março, já duas horas, escrevo à mesa da cozinha da casa de minha mãe, em Turvo, exatamente como fiz ano passado, na crônica que abre esta série. Naquele dia 21 e março às 00:37h, publiquei no facebook com o título “Crônica da incontingência da clausura (1) – ou, do vírus invisível”. Depois, Paula Guimarães sugeriu a publicação na minha coluna do Portal Catarinas. Nem por sonho mais remoto pensaria que um ano depois eu estaria escrevendo a crônica de número 54, e muito menos que estaríamos num país atolado de tragédias, mortes, negacionismos, ódios e medos…

Como já sabem, as primeiras 25 crônicas escritas entre março e agosto, foram reunidas no livro Crônicas da incontingência da clausura – cotidianos da pandemia (Volume 1), já disponível nas livrarias. Em breve faremos uma live de lançamento! Logo publicarei o Volume 2 que que completará um ano dos relatos cotidiano da pandemia.

Que farei depois? Esta série de escritos da incontingência da clausura  se encerra aqui. Sim, porque estou pensando em outro projeto – calma! – que deverá iniciar outra série. Continuarei a publicar as crônicas no Portal, mas pretendo dar foco para questões que abordem os feminismos e o que deles advém, como a sexualidade e o que nos toca enquanto mulheres, sem deixar de incluir os homens parceiros na construção da paz. Para tanto, sugestões de temas e abordagens serão bem vindas. O que sugerem??? Assim, não é uma despedida, mas uma mudança de foco, sem deixar de ver os acontecimentos do cotidiano. Aguardo suas vontades (no público ou no privado, como desejarem).

Obrigada por me acompanharem! Se a escrita é também um ato de coragem, não tenho medo de ousar. Aguardem! Como já disse em algum lugar, ‘Escrever é o meu vício: alimento-o no exercício de catar palavras e desdobrar verbos’.

Sim, porque “O preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que você oferece em troca”, na bonita frase da jornalista Marta Peirano. Continuaremos trocando ideias em boas conversas, plenas de vida! Ninguém soltará a mão de ninguém. Juntas na resistência!!

Marlene de Fáveri, 21 de março de 2021. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri