Nossa homenagem às mulheres que estão na linha de frente do enfrentamento à pandemia/Foto: Site Cofen/Arte: Catarinas

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (52) – ou o Oito de Março no Brasil em guerra

Postado em 07/03/2021, 9:05

Domingo, sete de março de dois mil e vinte e um. Chegou março. Mês das mulheres, com significado especial nas lutas pela defesa dos seus direitos. Oito de Março é o Dia Internacional das Mulheres e é nosso dever lembrar as resistências de nossas ancestrais, fortalecer os laços que nos irmanam e engajar-nos ainda mais por nossa dignidade.

Abriu-se março sob o espectro do medo: não há mais leitos nem respiradores em Florianópolis, capital de um Estado negacionista. Desesperos, é o que se ouve e vê. O fim seria num gemido, como profetizou Henry Thoreau? Temo o seboso medonho que pode catar minhas carnes, e me protejo. No Facebook, alguém compartilhou que o presidente “decidiu nos matar e nós decidimos observá-lo pacificamente. A cada 52 segundos morre um ser humano no Brasil por Covid-19”.

Na Ilha, me recolho entre meus guardados. “Eu quero só fazer isso na vida”, me escreveu André Soltau, o amigo escritor e contista. Eu também gostaria. Escrever é refúgio e silêncio no exercício da liberdade e da resistência. O exercício da escrita faz a gente buscar mais de si e do mundo, e só o conhecimento é libertador.

Nesta semana, em Turvo, minha mãe recebeu a vacina contra a Covid-19. Meu irmão compartilhou esse momento e o que senti foi enternecimento suspirado, ah, quanta espera! O que será que ela pensou ao receber a vacina? Vou perguntar assim que estiver com ela. Neste país sucateado e descarrilhado, a vacina tem gosto de vida, renovação. Também quero, já!

Foto: arquivo pessoal

A vacina só foi possível a partir da valorização da ciência e das universidades que formam cientistas e mantêm laboratórios e não pelo esforço do governante, muito pelo contrário. “Não há mais nada a dizer sobre o estado de sanidade mental do monstro que se disfarça de presidente para devastar a nação e assassinar brasileiros”, disse o embaixador Paulo Roberto de Almeida – “Mas, e o estado de sanidade mental dos que o cercam? Vão continuar participando do GENOCÍDIO? Vão continuar servindo a um PSICOPATA?”, completou. Haverá tempo de impedir que as mutações e variantes do vírus se espalhem? Haverá oxigênio suficiente para quem precisa respirar?

Estamos numa guerra sem bombardeios, mas guerra. Estamos num front entre gemidos entrecortados pelos ruídos de ambulâncias, ventiladores mecânicos, corpos marcados para morrer e a exaustão agoniada das/os profissionais da saúde. Uma catástrofe. Até onde aguentarão estas cuidadoras?

Como na distopia de José Saramago, a cegueira grudou e bestializou quem deve tomar decisões e os que o seguem. Como um grupelho grudento e que se blinda, eles compram mansões e debocham das mortes – logo seremos 300 mil óbitos pela Covid-19.

Neste ano, em vez de passeatas e atos públicos, nós mulheres estamos amotinadas em nossas casas, mas não caladas e nem silenciadas! Em 1975, a ONU determinou o Dia Internacional das Mulheres como marco para reflexões sobre a condição dos sujeitos mulheres e suas lutas. O dia das mulheres não é para flores e comemorações, e sim para lembrar que todos os dias do ano são das mulheres, todos os dias são oito de março! Reivindiquemos nossos diretos, pois,

Desde quando nos
queimaram nas fogueiras,
não paramos mais de arder.
Nossos úteros carregam a
fúria de nossas cúmplices ancestrais.
Somos feitas do barro que as
limalhas não conseguiram romper.

Nessa ardência, na segunda-feira, fui surpreendida por um podcast que me arrancou lágrimas e me fez suspirar fundo: o Grupo de Trabalho de Gênero da ANPUH Nacional abriu o mês de março com poemas meus declamados por colegas historiadoras! Emocionada, voltei no tempo desses escritos, o que pensava e o como escrevia, nossa!!! Obrigada, mulheres feministas que fazem acontecer! Importante pôr arte no Feminismo! Ouçam:

Apesar das conquistas do Feminismo nos quesitos legais: a Lei do Feminicídio (2015), Lei da Maria da Penha (2006), da criação de delegacias da Mulher (1985), dentre outros recursos, há quem as refute e se coloque na contramão. O pronunciamento da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, durante a 46ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU em 22 de fevereiro de 2021, foi pífio. Ao dizer que seu ministério continua firme na defesa da democracia, da liberdade e da família, ela mente descaradamente: qual democracia, qual liberdade, quais famílias? Ela ignora todas as mazelas e violências, nem deve saber que no Brasil a cada oito minutos uma criança é estuprada, e que a cada seis hora uma mulher é morta por ser mulher.

A ministra desconsidera as mortes por abortos inseguros, a gravidez precoce, os abusos sexuais, o feminicídio, o genocídio de jovens negros e as mortes pela Covid-19. Ignora tudo. Vive num mundo paralelo, aliás, como vivem os palacianos. Em 2019, o SUS registrou, por dia, uma média de 5 internações de crianças de 10 a 14 anos por aborto em todo o país. A ministra não sabe? Isso é cuidar da família? Não sabe que, hoje, a cada hora, quatro meninas de até 13 anos são estupradas no país? Ela faz uma ideologização espúria da agenda dos direitos humanos em nome de sua orientação cristã fundamentalista e ultra conservadora.

Morgani Guzzo analisou todas essas mentiras e omissões da ministra Damares Alves, a mesma que vem promovendo o desmonte das políticas de direitos humanos e é contra direitos das mulheres. Uma vergonha! “Nós temos agora a geração de filhos de feminicídios”, disse a major Daniele Alcântara, coordenadora de Projeto de Prevenção de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. E teremos uma geração de filhos de mães e pais mortos pelo vírus pandêmico. Ela, a (des)ministra, se importa com isso?  Eu gostaria de saber de quais famílias fala, mesmo?

Aqui ao lado, na Argentina, nossas hermanas dão um banho: a partir deste março, motoristas argentinos terão que estudar temas como masculinidades, patriarcado, feminicídios, travesticídios e acesso de mulheres ao setor de transporte, e devem fazer curso sobre igualdade de gênero para ter a habilitação. Ventos do Sul da América nos alimentam e inspiram nas lutas.

Registro durante o Congresso Mundos de Mulheres, em Florianópolis, em 2017/Foto: arquivo pessoal

Neste oito de março, participaremos do lançamento do programa Hora do Levante (canal youtube 8M, 19:30h). Vamos nos articular com as organizações nacionais que lutam por cidadania e justiça, e nos juntar às denúncias ao que nos têm aviltado e negado nossos direitos.

​Venham com a gente! Na série Grace e Frankie (T.6, E. 6), uma das protagonistas diz que “Há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam outras mulheres” – Frankie é fantástica!

Mulheres, unam-se e resistam! A revolução será feminina e Feminista! Em setembro passado eu lia um manifesto contra violências de gênero. Veio-me uma veneta e escrevi o poema Rebele-se! Ei-lo:

Renegue dogmas que usurpam os prazeres da carne
com requintes de vilania – exercite o desejo!
Combata naturalizações que desqualificam pessoas
com normas espúrias e tirania – acolha as diferenças!
Rejeite o patriarcado que acorrenta, ameaça e submete
mulheres com selvageria – abrigue a equidade!
Conteste todas as leis que castram a voz e, por decreto,
jamais silencie – reivindique o livre arbítrio!
Repudie violências que atravessam corpos e os
aniquilam com covardia – empodere mulheres!
Insurja-se contra decretos que coagem meninas e as
silenciam todos os dias – exija autonomia!
Renegue, combata, rejeite, conteste, repudie e
insurja-se – pratique a rebeldia!
Exercite, acolha, abrigue, reivindique, empodere
e exija – exercite a democracia!!!

 

Marlene de Fáveri, 07 de março de 2021. Florianópolis.

 

 

 

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri