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Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (42) – ou do cuidado das mulheres e da generosidade

Postado em 27/12/2020, 12:45

Domingo, vinte e sete de dezembro de dois mil e vinte.  Em Turvo, com minha mãe, entre flores, gatos, galinhas, pássaros, rãs, árvores e horta, passamos o Natal juntinhas. Laura, nossa pequena, nos enfeita com suas peraltices.  Sentimos a ausência dos ruídos e das vozes nos encontros familiares como quando não havia um medonho seboso por aí… Nos vimos pela telinha, mas não é como abraçar, apertar e beijar. Estamos todos bem, com o firme propósito de continuarmos com a saúde e o amor que se espraia entre nós. Amo esta família! Trocamos uns presentinhos e Laura ganhou uma boneca artesanal confeccionada pela prima Maíra, linda arte feita com carinho! Laura deu à boneca o nome de Manu!!!! Amei.

Laura com a boneca Manu. (Foto: Arquivo Pessoal)

Na casa de minha mãe tem sempre o que fazer, sempre. Peguei os marmanjos galináceos bicando as alfaces e fiquei fula da vida. Meu irmão e eu trocamos uma tela de uns trinta metros no cercado das galinhas que teimavam em fugir. Aprendi a fazer uma arte com amarrações de fios de cobre, e gostei. Agora sei como fazer!!! Me aguardem, penosas!

Nesta semana, conforme o mito cristão, o menino Jesus renasceu em Belém. Na crônica anterior falei dos mitos bíblicos sobre esse (re)nascimento, o presépio, os discursos acerca da virgindade de Maria e o legado de sofrimentos sobre os corpos das mulheres. “Marlene, o que será que fazia o menino Jesus depois que cresceu? Será que tinha escola na sua época?” perguntou minha mãe. Difícil responder, pois pouco se sabe da infância e juventude, embora existam registros que, aos treze anos, Jesus celebrou o bar mitzvah, ritual que marca a maioridade religiosa dos judeus. Tudo o que sabemos foi compilado na Bíblia, palavra de origem remota, encontrada em um pergaminho. Todavia, na língua grega, papiro é biblos, e no latim designa um conjunto de livros eclesiásticos que a compõem.

Este livro, a Bíblia, o mais lido e vendido do mundo e traduzido para quase três mil idiomas, redigido a muitas mãos e em tempos diferentes, contém muitos paradoxos. Há inclusive controvérsias sobre a data exata do nascimento e da morte de Jesus. Sabe-se que era um homem da Galileia, falava na língua Aramaica, embora soubesse outras línguas, sendo provável que tenha seguido a profissão de carpinteiro. A despeito do silêncio bíblico sobre esse tempo da vida de Jesus, narrativas dão fortes indícios de que ele continuou residindo em Nazaré, e por isso é chamado de Nazareno, e que teve irmãos e irmãs. Por que esse silêncio sobre a família e a vida de Jesus até seus trinta anos?

Não li toda a Bíblia, mas costumo pesquisar como um documento histórico, que diz muito do que somos e como fomos educadas na cultura católica. Repleta de mitos danosos para as mulheres que têm feito estragos até hoje. As mulheres que aparecem na Bíblia ou são esposas recatadas, submissas e tementes a Deus que geraram varões e estenderam dinastias, como Maria, ou desobedientes e lascivas, como Eva, ou pecadoras merecendo serem apedrejadas, como Maria Madalena. Sim, os narradores eram todos homens. Observem que no presépio só existe uma mulher, Maria, no papel de mãe.

Conhecemos parte da vida pública de Jesus, imersa num contexto de facções políticas que dividiam o Império Romano, num mundo cindido entre forças do bem e do mal. Profetas anunciavam a vida de um Deus que viria para acabar com o sofrimento e inaugurar uma era de bondade. Quando o profeta e influente líder político, João Batista, morreu, Jesus era seu discípulo. Logo correu boca a boca que Jesus seria o Salvador anunciado por João Batista, e suas pregações acolhiam os anseios das populações desassistidas, exploradas e miseráveis daquele Império. Jesus dizia que as pessoas deveriam agir para que o novo reino chegasse, e que não deveriam esperá-lo de braços cruzados. Nesse reino não haveria violências: “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra” (Lucas 6:29).

Na parábola do bom samaritano, Jesus fez duras críticas ao sistema religioso, que não tinha compaixão para com o próximo, ignorava os miseráveis moribundos e cultivava preconceitos religiosos e étnicos. “Ame o seu próximo como a si mesmo” (Mateus 22.37-39), a essência da doutrina cristã como mostra a parábola. Jesus não compartilhava da hostilidade entre os povos e mostrou que a bondade e a solidariedade não devem ter fronteiras de classe, étnicas, raciais e religiosas nos conceitos de hoje.

Aprendi a parábola do bom samaritano quando fiz o catecismo. Desde então pensava no valor da solidariedade. Quanto mais eu estudava, mais estranhava como os mandamentos de Deus não eram praticados. Ao me dar conta dos preconceitos, das violências, da miséria social, do racismo, do machismo, passei a questionar os dogmas. Procurei compreender o Jesus histórico como um filósofo de sua época e apontar os paradoxos da construção dos mitos religiosos. Eu estudava Sociologia e conheci o pensamento de Marx: desde então sou socialista.

Será que aquele filósofo galileu que não aceitou ordens impostas, que  repartiu o pão, multiplicou peixes, expulsou os vendilhões capitalistas gananciosos do templo, esperançou os sem norte, ouviu os aflitos, impediu Maria Madalena do apedrejamento, curou doentes, pregou a ética, a dignidade, a solidariedade, a justiça social, a generosidade e o direito de todos a uma vida digna merecia ser detido e crucificado?  Essa parte da filosofia de Jesus ficou no limbo, submetida aos podres poderes…

Passaram dois mil anos. O que mudou? Facções políticas e religiosas fazem dos templos instituições bancárias capitalistas. Papas, pastores e bispos acumularam terra e poder sobre almas e edificaram luxuosos templos, igrejas, catedrais, ostentando poder e riqueza. O Jesus da solidariedade foi transformado num branco europeu de olhos azuis – um crime de racismo histórico. Desse crime, advieram outros: guerras ditas santas, os fascismos, a inquisição medieval, a usurpação dos prazeres, o racismo, as fobias, a avareza, a ira, a cobiça, a luxúria, a gula, a raiva, a inveja, todos cometidos por homens e também por algumas mulheres.

Pasmem: existem pessoas que, no Natal, se vestem de papai Noel e entregam uma cesta a um miserável, se auto fotografam para ostentar piedade e expõem nas redes sociais. Mas só no Natal. No resto do ano chutam o cachorro, praticam a avareza, negam a ciência, exploram o próximo, carregam armas, violentam mulheres e crianças, debocham dos doentes e mortos, praticam crimes raciais, homofóbicos, sexistas, fascistas e machistas, exploram, escravizam, constrangem, assediam, usurpam os bens alheios, maltratam a quem empregam, decidem processos com parcialidade, matam a próxima ou o próximo, estupram, mentem, negam a vacina… O que fazem esses ‘homens de boa vontade’??? Guerras, exploração do trabalho, desassistência, desmatamento, violências, compra de almas…

Contudo, com todas essas mazelas, não foi possível matar o amor das almas humanas. Se Jesus foi sábio ouvindo os lamentos e anseios da população desassistida naquele tempo, outras pessoas abnegadas às causas sociais ouviram, em tempos diferentes, os mesmos anseios. Estas pessoas também foram massacradas, perseguidas, denunciadas. Ainda são. Estão sendo. “Enquanto um irmão ou uma irmã estiver passando fome, teremos motivo de sobra para nos cobrir de vergonha”, disse Lula em 2003. Sábio este outro filósofo, também perseguido. Acredito na filosofia do Nazareno e suas relações pautadas na dignidade, na paz e no respeito entre os homens e as mulheres e sem violências ao próximo. Ele pregou o amor.

“O que você acha que é o amor?” perguntou-me Antônio assim, de susto. As imagens que me vieram foram a de minha mãe e de minha filha. “Amar é cuidar de quem está próximo, dos outros e das pessoas que nos cercam”, respondi. As mulheres devem cuidar dos homens, e os homens devem cuidar das mulheres. E todos cuidar idosos, das crianças, dos doentes, dos desassistidos, em suma, do próximo. Esta é a ética do cuidado que Jesus ensinou mas que perdeu-se nas várias instituições com sede de poder. “O que eu vos mando é que vos ameis uns aos outros” (Jo, 15, 12-17). Quem pratica os valores da ética na vida cotidiana tem convicção dos princípios ensinados por Jesus.

Amar é cuidar. Sem cuidados não teríamos vicejado e crescido. Cuidar é ver o outro, o próximo, na sua dignidade. É esforçar-se, sobretudo, para que os outros estejam bem. Greg News mostrou, com propriedade, a arte de cuidar como a ação mais importante de nossas vidas. As mulheres dedicam boa parte de suas vidas cuidando de crianças, pessoas idosas, doentes e dos trabalhos da reprodução da vida. Elas resistem. Minha mãe, e faz quinze anos, mantém flores ao lado da fotografia da filha que perdeu: todos os dias ela as colhe do jardim, arruma as flores com cuidado… minha mãe sabe das artes de cuidar. Agora, cuido dela, colho as flores…

Therezinha de Fáveri. Natal 2020. Foto: Arquivo Pessoal)

Ninguém  é uma ilha. Somos parte de um todo e dependemos dos próximos e de seus cuidados para continuarmos vivos. John Donne poetizou há cinco séculos: “A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”.

Hoje, usar uma máscara é também cuidar. Cuidar-se. É amar o próximo como a si mesmo. “Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada”. Mesmo assim, Clarice Lispector.

Marlene de Fáveri, 27 de dezembro de 2020. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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