Foto: arquivo pessoal da autora

Coluna da Portal Catarinas

Crônica da incontingência da clausura (30): Se eu não puder dançar, não é minha revolução

Postado em 04/10/2020, 16:32

Domingo, quatro de outubro de dois mil e vinte. Ando assim, às vezes saio da casinha com essa pandemia que nos tem aprisionado sem tréguas. Viver entre dois lugares tem se mostrado tão difícil quanto não dançar. Minha mãe e eu seguimos na nossa clausura – comecei a semana com a enxada, e limpei uma área meio esquecida ao lado da casa, plantei grama e pretendo construir um espaço coberto, com bancos de madeira para ler e escrever ao ar livre. Como disse meu irmão, pareço uma camponesa arretada!

“Haja amanhã para tanto hoje” – li em algum lugar. Haja mesmo. Para qualquer lado que se olhe, a pandemia deixa rastros de tristes histórias de perdas, soluços, medos e toda sorte de infortúnios e miséria social. Já são cerca de 145 mil pessoas que eram vidas neste país à deriva, e quase cinco milhões de infectados. A sobrevivência está sendo uma arte, só que trágica.

Ainda mais hedionda é a forma como este governo aprova leis e decretos que cortam verbas para a educação e o combate a incêndios, ceifa direitos, se manifesta contra a vacina para o covid-19 e faz piadas com as tragédias, numa indecência política e moral. Tão hedionda quanto essa forma de gerir o país é a absolvição de estupradores – brancos, ricos, incluídos e bem aparentados: Mari Ferrer é mais uma mulher nas estatísticas da corrosiva impunidade. O número de feminicídios é lamentoso e também pandêmico.

Nesta semana fui a Florianópolis buscar minha filha. Decidimos por isolamento absoluto e então eu a buscaria. Seus abraços me dão forças para seguir e sorrir. O encontro com a avó e a sua volta para as raízes são momentos que não têm preço! Ficará um tempo em Turvo, e faremos muitos bolinhos de chuva, brincaremos com Laura, plantaremos mais flores, mimaremos ainda mais a vó, Guevara e Tchê.

Legenda: Milonga na Praça dos Namorados, centro, Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

Nestas noites de lua cheia e neblina baça bateu-me uma nostalgia de vontades e saudades dos afetos. E de dançar.  “Vamos à Milonga hoje? Te pego aí a que horas?”, assim Angelita e eu trocávamos mensagens todos os fins de semana. Era um ritual que começava com o convite, detalhes sobre vestidos e que, faceiras, fizemos por anos: preparar-se para dançar tango!

Não lembro se contei, mas danço tango faz sete anos. Na época em que comecei findava minha gestão na direção do Centro de Ciências Humanas e da Educação na UDESC e eu estava muito cansada. Precisava de um lugar para esvaziar o cérebro do estressante ritmo do trabalho e de todas as exigências para estar em dia com a produção científica atendendo a inúmeras reuniões, pareceres, aulas, orientações no cotidiano da docência. Foi quando um amigo me convidou para uma aula aberta de tango. Era num sábado à tarde. De uma inquietante estranheza – tango, eu?  – decidi ousar e ouvindo Rejane Wilke: “Quando o desafio cai no colo da gente, é covardia não encarar” – a dança se transformou numa paixão.

Foto: arquivo pessoal

Matriculei-me na Academia de Dança Carlos Peruzzo. Sem que eu percebesse, o ritmo da música e a magia da dança me capturaram. Após alguns meses de aulas eu já encarava uma Milonga – palavra que dá nome a um tipo de baile e também se refere a um ritmo. Um detalhe importante é que ali não havia preconceito geracional: mais idade, mais experiência e cuidados com pessoas iniciantes, como eu. Percebi que, pelo menos na escola que frequentava, era um lugar de acolhimento e que classes, raças e gerações se misturavam.

Logo fui inquirida de como lidava com uma dança que, no imaginário, tinha uma conotação machista dado que cabia aos homens conduzir as mulheres. Sim, no universo tradicional, o tango ainda é uma dança controlada pelos homens, mas, nas escolas mais modernas, alunos e alunas estão tendo contatos com temas acerca do empoderamento das mulheres e aprendendo a dança como movimento de equidade. Não sem que haja resistências por parte de homens.Essas mudanças nas aulas têm mostrado que a dança evolui se a mulher cria espaços para si em sintonia com o parceiro. Também percebi que, nesta dança a dois, a mulher tem domínios e é em torno dela que se fazem as caminhadas, os oitos, os giros e contragiros, os voleios, as calesitas e outros pasitos. Quem conduz? Ambos. Isto foi o melhor aprendizado: o tango é uma dança a dois, ou um par que caminha junto. Ademais, as mulheres dançam com mulheres, mas os homens, com raríssimas exceções, não dançam com homens – resquícios de uma educação para a masculinidade viril e heterossexual e que também é tóxica. Ora, o tango nasceu da dança entre homens negros e no ritmo dos tambores da África, pois.

Baile de Tango, Lira Tênis Clube/Foto: arquivo pessoal

Sim, existem assédios na dança. Como todo lugar de relações humanas, aparecem machistas sem noção de respeito: na minha escola, eram imediatamente identificados e se evadiam. Em Florianópolis, o coletivo E.L.A.S.  lançou o curto espetáculo “E agora, José?” pretendendo chamar a atenção para o assédio e o abuso na Dança de Salão. Relatos dão conta desses assédios e, como disse a bailarina Alexandra Klen, diretora e roteirista do curta: “A violência contra a mulher – seja ela psicológica, moral, física ou sexual, doméstica ou nos salões dos bailes, ou ainda em grandes eventos de dança Brasil afora – tem que parar de ser vista como algo normal. Não é normal”. Inclusive, foi criado um grupo no Instagram ‘Chega de Assédio na Dança’.

Na Argentina, por exemplo, país onde nasceu o movimento “Nenhuma a menos” e onde se deu intenso debate sobre a legalização do aborto, em 2018 mulheres lançaram o Movimento Feminista do Tango contra o que consideram maus tratos às mulheres no ambiente tangueiro. Em 2019, no embalo do internacional #MeToo publicaram um “Protocolo para Milongas”, para prevenir e erradicar a violência de gênero nos salões.  Divulgado no evento Tango Fêmea, foi o primeiro festival feminista de tango e que destacou mulheres homossexuais na música e na dança nesse universo.  No citado Protocolo, recomenda-se “o uso de uma linguagem inclusiva, abolição das imagens das mulheres como objeto e de homens em atitude prepotente, igualdade no espaço a mulheres e homens e pagamento de salários similares também para os profissionais”, disse a dançarina Natália Giacchino.

Quando eu era jovem, em Turvo, ir a um baile e recusar-se a um convite para uma dança poderia ser motivo de violência: o homem para o qual se dizia não passava a controlar os movimentos da mulher e, caso ela fosse dançar com outro, ele interferia e não raro a cena terminava em agressões. Isso aconteceu comigo e guardo disso uma memória horrenda. Eu era muito jovem e não sabia lidar com esses rompantes machistas. Reagir mal ao ouvir um não advém de uma educação tóxica e patriarcal que os educou para a defesa da honra masculina através da posse dos corpos das mulheres.

A pandemia afetou de forma apocalíptica a dança em pares por razões óbvias, já que respirar perto de outrem se tornou perigoso: das artes, a dança é uma das mais afetadas. Salões de bailes, escolas de dança e milonguerias fecharam de imediato e as aulas foram canceladas. Professores e professoras sem emprego e muitos em estado de falência. Uma lástima. Quebraram-se sonhos e projetos no impacto pandêmico.

Apresentação La Mariposa, Ingleses. Academia Carlos Peruzzo/Foto: arquivo pessoal

Perguntei a colegas de tango do que sentem mais falta após seis meses sem  aulas e/ou Milongas. Para as tangueiras Lucia Junglos, Alejandra Luna, Eliziani Olária, Angelita Correa, Vera Nícia de Araújo e Elaine Pauly, a falta do abraço tangueiro e do arrumar-se para uma milonga nos faz doer no coração. No tango, o abraço é um ritual que envolve e conecta o par, numa sublime entrega em que o tempo desparece e a viagem inicia, como viver sem este abraço depois de tê-lo experimentado? “Faz muita falta uma Milonga! Não só o fato de dançar tango, de sentir a musicalidade, de abraçar tantos tipos de abraços, alguns mais contidos, outros mais profundos, onde sempre haverá entrega através da ação e reação!”, ressente-se Elaine. Sim, o tango é um abraço em movimento onde a música conduz o par numa experiência de sintonia e conexão, uma terapia com prazer e calor humano. Lembro de Sandra Sanon: “O tango é um mistério para quem não dança. É um sentimento que só você sente quando dança”. Sandra voltou para o Haiti, e ficamos com saudades do seu sorriso.

Outro ritual é preparar-se: escolher o melhor vestido, sapatos de salto alto, adereços, batom, uma flor… Para Elaine, “Nunca seria apenas sentir falta de dançar tango… mas é a falta da alma da mulher milongueira!”, e sentir-se “única, especial e bem resolvida dentro de uma postura corporal que resulta de uma paixão interna por mim mesma!” Concordo: a liberdade de fazer escolhas pessoais e saudáveis como dançar, e mais ainda dançar tango, faz parte da mulher que se olha, se gosta, se permite, toma iniciativas e tem alma tangueira.

A pandemia atinge como verruma perfurante essa dança. “Esse isolamento veio afetar profundamente a minha vida, primeiramente a social, pois perdeu-se o contato direto com os parceiros de dança”, no relato de Vera Nícia. O emocional foi abalado “devido à forma abrupta da ausência dos alegres encontros para se bailar o Tango!”. Também sinto, e sofro. Como Angelita: “Diante de todos os limites impostos a um hábito tão corriqueiro como ir a um bailinho, bebericar a caipirinha da amiga, compartilhar um cigarrinho, vi o quanto eu fui ridícula todas as vezes em que faltei a uma milonga porque estava cansada do trabalho. Há seis meses estou cansada do trabalho e não tenho uma milonguinha para rir e bebericar com alguém.”

Tango com Kleber/Foto: arquivo pessoal

Ah, os encontros! Nesses sete anos conheci bailarinos e bailarinas de tango com os quais fiz um grupo de amizades sem precedentes na minha vida. Não me lembro de uma semana que estivesse em Florianópolis que não tenha ido a uma Milonga! Com as aulas e os exercícios dos passos perdi peso, adquiri elasticidade e encontrei meu eixo e equilíbrio, e nunca mais senti solidão! Idade? Não existe para tangar.

A dança é uma arte pública, deve ser pública. O milongueiro Evandro Andrade mostra a face pública do tango: “Eu sinto falta do tango na cidade. Como arquiteto e urbanista, sou amante do viver a cidade e de seus lugares, nos trajetos e encontros que nela acontecem, nos prédios, nas ruas e praças; também sou muito entusiasmado pela arte pública, música, dança e teatro, e assim,  o tango e as milongas ocupam um espaço de significado muito especial nas cidades, como sentimento de vivência dos lugares e dos encontros que tive a oportunidade em desfrutar!”. Sim Evandro, “tango na cidade é do ambiente da arte política”.

Sentimos saudades das Milongas que aconteciam em prédios emblemáticos da cidade, como no Museu da Educação, no Palácio Cruz e Souza, na Porta da Igreja do Ribeirão, no Botequim Floripa, na sede da AMOSC, na sede da ELASE, embaixo de árvores na Ponta do Coral, em Santo Antônio de Lisboa, e o projeto Milonga Praça dos Namorados no centro de Florianópolis todo último sábado do mês e com apoio da Fundação Cultural Franklin Cascaes. Tínhamos a Bienal de Tango e eventos mensais como o Congresso Brasileiro de Tango, as milongas das sextas-feiras na Academia Carlos Peruzzo, nos salões das academias de Dança de Salão, nas milongas cenográficas e apresentações em festivais e bailes promovidos pelas escolas diversas, nas praias, etc. Até participei em três espetáculos, vejam só! Em 2017 fomos em grupo para os eventos do Centenário de La Cumparsita em Montevideo, um arraso!

O professor Carlos Peruzzo, entusiasta do tango que é, lastima o afastamento com “a falta das Milongas, o não encontro social com as pessoas com quem tenho afeto, de dançar bons tangos e tecer boas conversas, dos corpos que se encaixam melhor, duas mentes que se harmonizam a extremos elevados. Geralmente em cada milonga se produz algum desses ‘encontros especiais’, marcantes, diferenciados, desses que você fica com a sensação na pele, ou na alma, que te permitem voar por alguns instantes, segundos, minutos… sinto falta de vivenciar esses instantes especiais, de pura arte, magia e conexão.” Também sinto, querido professor Carlos!

Tango em Ratones, Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

Quem dança é feliz; mas quem dança tango é ainda mais feliz! Cada aniversário era motivo para uma Milonga – na casa de amigos, em salões alugados, onde houvesse um tablado possível para planear os pés, lá estávamos nós em faceirices e meneios empolgantes. “Será possível uma sociedade que se relaciona de forma indireta, sem encontros?”, pergunta Evandro.  Não será para quem dança – “Se eu não puder dançar, não é minha revolução”, não mesmo, Emma Goldman.

Às vezes, escrever é como dançar um tango. Ou dois, três. Com ritmo, pausas, conexão, sincronia, soltura, entrega. É esvaziar dores e pôr no lugar a leveza. Fechar os olhos e narrar a melodia e saber-se viva. É como escrever no chão com os pés e desenhar o que vai dentro do peito na feitura de um romance.

Trago vontades de
dançar um tango,
Te propor o abraço;
depois, o compasso,
os passos nos acordes
de um bandoneón.
Passear contigo como
dois em um,
colher ternura no
pulsar erótico do violino…

Um corpo que dança não envelhece.

Marlene de Fáveri, 04 de outubro de 2020. Turvo, SC.

 

 

 




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