Ilustração: La Morse (@la_morse)

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (29) – ou os tabus, silêncios e segredos sobre os corpos das mulheres

Postado em 27/09/2020, 11:44

Domingo, vinte e sete de setembro de dois mil e vinte. Nesta semana em Turvo fiz muitas coisas miúdas ou aquelas do cotidiano mais rotineiro para manter a casa de minha mãe em ordem. Não é somente a casa: tem jardim e arredores, quintal para hortaliças, mato que cresce na primavera e tudo o mais. Meu irmão sugeriu soltar um cavalo para pastar as ervas e matos que crescem no potreiro, e achei a ideia ótima. Bom que as flores iridescentes refletem cores do arco-íris e chamam pássaros e beija-flores, uma beleza de ver e ouvir. Ando com mais cuidados com as cobras, é verdade, porque quando o clima esquenta elas saem dos ninhos. Uso luvas grossas, botas e olho onde piso. Vai que não dá tempo de pisotear…

Minha mãe reclamava que nenhuma galinha entrava em estado de choco, mas nesta semana duas delas decidiram-se pela maternidade. Colhemos fartas braçadas de samambaias, fizemos os ninhos e colocamos treze ovos galados em cada um deles, trazidos de outra propriedade para evitar crias endogâmicas. Elas, as futuras mães, aquecerão os ovos por vinte e um dias e então nascerão pintinhos! Fico pensando em como é fácil enganar as penosas que se acocoram por três semanas sobre ovos de estranhas desconhecidas e criam as ninhadas como se fossem suas de fato.

Foto: Arquivo Pessoal

Minha mãe olha a horta e diz: “Não está linda minha horta? Eu que fiz!” Me enterneço, e me preocupo: ela não lembra que eu tratei de tudo, mas isso é o que menos importa – se faz bem a ela pensar que continua fazendo tudo o que fazia antes dos limites do Parkinson e dos esquecimentos, quero que continue se envaidecendo por ter uma horta bonita e bem cuidada: amo vê-la colhendo alfaces. Os seus esquecimentos estão ficando constantes para coisas do curto tempo e, se a névoa sombreia suas lembranças, cuido de reavivá-las de modo que não lhe tirem o pertencimento da sua história.

Mostrei a ela um documentário sobre os animais mortos e esturricados nas queimadas pelo Brasil – “Por que isso? Quem faz isso? Coitados, que pena, que dor!”, disse sobre o espetáculo mórbido e funesto a que estamos assistindo. Disse-lhe do descaso com vidas de gentes, animais e plantas por parte de um governo autoritário e sem noção do que seria uma nação soberana, democrática e preocupada com os direitos sociais e com o meio ambiente. E que com desfaçatez mentiu o presidente na ONU nesta semana! Sentimos juntas essa tragédia sem precedentes, orquestrada por um morrinhento mandante despreparado para tudo e que governa para favorecer o agronegócio e pelas veias abertas do liberalismo voraz. E tudo assombrado pelo espectro de um vírus medonho e fantasmático a nos rondar, matando sonhos: já são 140 mil vidas…

Dia desses, a conversa entre minha mãe, Rita e eu desenrolou fios do novelo das memórias da adolescência cujas marcas são hoje enfrestadas através da vida adulta. Assuntamos sobre as regras e como cada uma de nós vivenciou aqueles momentos de passagem para as mulheres. Regras era uma palavra para o fluxo menstrual, que ouvi desde que fiquei menina-moça. Aprendíamos que vinha todo mês e por isso regrada. Lembrei da Rita Lee “Mulher é bicho esquisito/Todo mês sangra/Um sexto sentido/Maior que a razão”.

Minha mãe disse que sua mãe não lhe explicou, mas que “sabia que vinham as regras pelas minhas irmãs mais velhas. Devíamos esconder bem porque era feio mostrar! Eu nunca vi um forrinho de minha mãe!”, evidenciando segredos silêncios.

No tempo delas não havia absorventes – se havia, não chegavam até elas. As mulheres se arranjavam com panos cortados em pedaços, em geral de lençóis usados e assim improvisavam absorventes que eram laváveis. Esses panos de absorventes não tinham nada, um horror! Curioso é que mulheres camponesas nos tempos rudes da colonização pouco usavam calcinhas. Como se arranjavam? “Ah, tinha uns panos maiores que amarravam na cintura com um forro, e também se lavavam no riacho ou no cocho” (tanque), disse a mãe.

Já Rita teve uma educação menos repressora porque sua mãe lhe explicara as coisas de modo que quando menstruou foi natural: “Estava sozinha em casa fritando batatas quando senti, fui ao banheiro e vi… e então cortei a manga de uma camiseta para proteger”. Contou que sofria muito de dores: “Minha avó fez um chá de folhas de bergamota, canela e gotas de bálsamo branco, tomei durante um mês e nunca mais tive cólicas”.

Foto: arquivo pessoal

Comigo foi assim: eu tinha uns nove anos e presenciei minha prima lavando seus panos vermelhos de sangue numa sanga/riacho, perguntei o que era. Ela debochou de minha inocência e disse que eu era uma pirralha e que “isso era coisa de mulher”. Ofendida, porém curiosa, perguntei para minha mãe que, na sua simplicidade e com certo pudor, respondeu que “quando as meninas crescem sai sangue daqui, assim”, passando a mão pelo baixo abdômen. Passou um tempo, eu estava na casa de minha nona quando senti um calor estranho e dolorido entre as pernas. Assustada, conferi e era sangue. Enrubescida, contei o que me ocorria e a nona me conduziu para um quarto, fechou a porta, me deu uns panos rasgados de um lençol e disse: “Agora tu escondes bem, não deixa ninguém ver porque é feio” – ela falava baixinho, como um segredo, embora estivéssemos só nós duas na casa. Eu não sabia que viria todos os meses… que coisa. Ah, assim que menstruei minha mãe comprou um tal de regulador Zarini e eu devia tomar uma colher diariamente: metade eu jogava fora de tão ruim! Tempos depois, lembrando dessa passagem, escrevi assim – Segredo:

Mamãe explicou que forrinho se usava
no umbigo – tinha vergonha das regras.
Todas as manhãs tateava cuidadosamente
o ventre à procura da cor beterraba.
Quando ficou mocinha, embasbacou-se
(pensou que ia morrer).

Percebo que escrevi na terceira pessoa enquanto falava de mim, suponho que ainda era vergonha. Para as mulheres, sua natureza era silenciada, enfeada e por isso escondida. Lembrei de uma mulher quando eu trabalhava como extensionista rural em Navegantes, a qual me contou das dificuldades para esconder o sangue e os panos: “Eu lavava e estendia bem escondido, tinha vergonha se o marido ou outros homens vissem no varal”, mas como “não secavam bem à sombra sempre criava fungos” e para curar “tomava chá de rosa branca”. Como professora, orientei um trabalho sobre práticas e representações que as mulheres produzem a partir da experiência da menstruação e o que sobressaiu foram as vergonhas, silêncios e segredos, “entre cochichos e reticências”.

Expliquei para minha mãe e Rita que, nas diferentes religiões, os discursos sobre as manifestações naturais do corpo feminino sempre foram apontados como pecados e, por extensão, também a sexualidade e tudo o que a envolve. Disse que na antiguidade, judeus e pagãos consideravam o sangue menstrual como venenoso – lemos em Levítico (15,19-24) que Deus considera a mulher menstruada como um ser impuro e que tudo o que tocar também ficará impuro. Essa crendice ainda perdura, tanto que ainda há quem não faça determinadas tarefas porque até a maionese “desanda” o preparado.

As crendices eram de tal monta que eventualmente o nascimento de bebês deficientes era atribuído a relações sexuais durante a menstruação – “Porque ora serão afligidos pelo demônio, ora leprosos, ou então epilépticos, ou corcundas, ou cegos, ou de pernas tortas ou surdos, ou idiotas, ou terão a cabeça em forma de macete”, num discurso católico do século XIII.

A teóloga Uta Ranke-Heinemann retoma os mitos do sangue menstrual: A propósito, o sangue masculino é de uma natureza totalmente diversa à do infeccioso sangue feminino. O sangue masculino nunca é considerado venenoso. E o sangue de Jesus tem para os cristãos o significado oposto ao de veneno: é a causa da redenção da humanidade.” Por conta disto, faz dois mil anos que cristãos bebem o sangue de cristo na eucaristia, ao mesmo tempo em que demonizam, embruxam e envenenam o sangue das mulheres. Esses abomináveis!

Depois de cada parto, vivenciado num ritual solitário, minha vó fazia questão de tomar a benção do padre para limpar o pecado da carne – aquele que, segundo o dogma cristão, recebemos ao nascer por um ato sexual pecaminoso, o pecado original. Isso porque em um sínodo do Vaticano, em 1227, os cardeais decidiram que as mulheres que haviam dado à luz deviam receber uma purificação com água benta e oração do padre e assim se reconciliar com a Igreja. Mulheres que morriam nos partos sem essa reconciliação perderiam o direito de serem enterradas em cemitérios, assim como o sangue ocasionado pelo parto era visto de forma ainda mais prejudicial que o menstrual, e a relação sexual era ainda mais proibida para a mulher que acabou de dar à luz.

Da mesma forma, tomar a hóstia ou fazer sexo durante o período menstrual consistia em pecado com a justificativa de que a natureza feminina era perversa. A questão menstrual também foi decisiva e fatal para as mulheres que quisessem participar dos ofícios das igrejas: diaconisas, quando estavam menstruadas, eram expulsas do seu lugar na liturgia e do altar sagrado.

Qual o pecado? Não estar grávida! Para os homens em geral que se atrevem ao direito de normatizar os corpos das mulheres, o normal era não menstruar, portanto, estar grávida – porque Deus quis que elas fossem parideiras e só. Desses dogmas embrutecidos e embrutecedores advém tanto a proibição do aborto – mesmo decorrente de estupros, como vimos recentemente – quanto a reprovação dos métodos contraceptivos por religiosos e fundamentalistas de plantão. A estes, meu repúdio.

Foto: Arquivo Pessoal

Lembro que nesta semana que inicia, mais precisamente dia 28 de setembro, é o Dia Latino Americano e Caribenho pela Descriminalização do Aborto. A Frente Nacional Contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto lança a campanha “Alerta Feminista 2020” nas lutas pela defesa dos direitos e autonomia das mulheres e meninas contra as propostas que ferem os direitos humanos das mesmas. O alerta convoca a sociedade civil e as instâncias sindicais e políticas nas lutas e ações contra a violação do princípio democrático da laicidade do Estado, por atenção humanizada ao abortamento e autonomia das mulheres como sujeitos do direito e de dignidade. Sabemos: a pauta do aborto vem na esteira dos assuntos tabus sobre a sexualidade, pontuada de silêncios segredos, medos e dores, assim como a menstruação.

Minha geração não foi educada para perceber o corpo e as regras com naturalidade, mas para ter vergonha, medo, silenciar e manter segredo. Comentamos sobre tabus, como não lavar a cabeça durante o período menstrual e sempre havia histórias de moças que, ao banhar-se, durante as regras, molhavam a cabeça e enlouqueciam. Nas aulas de educação física na escola, bastava dizer “estou naqueles dias” ou estou “nas regras” ou “estou doente” e éramos dispensadas dos exercícios fiscos. As professoras tinham direito a três dias de repouso a cada mês. Um projeto de lei na Câmara Federal, hoje em tramitação, propõe permitir o afastamento do trabalho por três dias durante o período menstrual todos os meses, sob compensação das horas não trabalhadas. Por ser tema polêmico, pareceres das comissões não avançam.

Minha mãe disse que nem ela e nem suas antepassadas tinham o direito a repousos: “Mesmo durante as regras com sol ou chuva, tínhamos que ir na roça”. A economia do trabalho informal e o descaso com a dores femininas as maltratavam. “Mal podíamos nos recuperar dos partos e já estávamos na roça”. Apesar da religiosidade impregnada, o trabalho era mais importante que as cólicas e dores das mulheres.

Para além de ser um ritual de passagem, menstruar gerava desconforto, medo e vergonha. Me lembro que sair de casa naqueles dias era torturante: e se o sangue vazasse através da roupa? “Veja se está aparecendo?”, perguntava-se às amigas. Se por acaso estivesse aparecendo, seria vergonhoso – fiquei a tarde toda sentada numa domingueira (tarde dançante) porque tinha “vazado”. O pavor das mulheres era que manchasse a roupa, o que seria uma tragédia, risível aos olhos de quem estivesse por perto.

Comprar absorventes? Outra comédia. A amiga Regina contou que seu pai tinha uma venda e o cliente pedia baixinho “quero aquele negócio para a mulher” e o vendeiro, cúmplice, embrulhava bem em papel jornal e lá ia o homem com o pacote debaixo do braço. Os homens também tinham pudores e vergonha, e o mesmo acontecia na compra de anticoncepcionais (outro desespero!).

Quem não lembra do Modess, do Ella, do Serena? E quem não sofreu com as piadas e as cólicas infernais que eram tidas como “manha”? Quem não ouviu que o OB era pecado e podia romper com o hímen? E quem nunca ficou em pânico porque “não vinham as regras”, sinalizando uma eventual gravidez indesejada? Quem não tomou chá de canela ou coca-cola quente para “descer”? Ou de alguém que planejou a data do casamento fora do período menstrual? Do ditado: “Óvulo não fecundado sai, mas se não sai, guai”?

Assim, conversamos longamente sobre coisas de mulheres, suas manifestações e tabus. Do que cada uma lembra da primeira menstruação, dos elogios e cumprimentos por “agora ser uma mulher fértil”, ou de que “a mãe contou para todo mundo a novidade e eu fiquei com vergonha”, disse Rita. Todas essas manifestações do feminino sempre foram carregadas de mistérios, de tabus e de crenças mágicas, desde fluido impuro ao poderoso dito “sangue é sempre saúde” e até como fator de atração amorosa em diferentes concepções históricas.

Sorte nossa que vivemos um tempo em que a menstruação é vista com naturalidade – pelo menos no ocidente urbanizado. A medicina tem contribuído na desmistificação e proposto formas humanizadas no trato com o período menstrual. Hoje existem coletores do sangue menstrual reutilizáveis e que visam a sustentabilidade (imaginem a quantidade destes absorventes poluindo rios e mares). Temos absorventes confortáveis, calcinhas especiais, remédios contra cólicas e outros benefícios, infelizmente ainda não acessíveis para todas as mulheres. Em muitos países orientais, por exemplo, o silêncio em torno da menstruação advém do mito de que mulheres ficam impuras, imundas, doentes e até mesmo amaldiçoadas durante esse período, além de serem e impedidas de tomar banho. Isso ainda hoje.

A amiga Iara expressou sua fúria: “Porque a mulher tem que sangrar por quase cinquenta anos? Sacanagem com a gente!” Concordo. Contei que quando entrei na idade dos quarenta sofria com cólicas e dores de cabeça que me deixavam imprestável. Uma ginecologista sugeriu que eu colocasse um DIU – e mesmo tendo ouvido que isso enlouquecia porque o sangue sairia pela cabeça e que poderia morrer, não dei bola. Dos marcadores de minha vida, um deles foi ter colocado um dispositivo intrauterino do tipo que suspendia a menstruação – Mirena – e nunca mais soube o que é dor, cólicas ou mal estar. Pelo contrário, passei a me sentir bem, sem preocupação com gravidez e nem mais absorventes na minha vida! A sexualidade deu um salto de qualidade já que eu nem sabia mais quando estava naqueles dias! Fora o conforto de não sangrar, claro.

E essas conversas que acontecem no isolamento social aconteceriam não fosse a pandemia? Não sei. Mas reforço a necessidade da educação sexual e de gênero – que não é sobre mamadeira de piroca nem acinte às crenças dos pais – mas sim um lugar de aprendizados com os cuidados e a desmistificação dos tabus que nos impregnaram ao longo dos séculos. Aos meninos, devemos ensinar o respeito às manifestações das meninas, e às meninas ensinar que não é vergonha e nem motivo de medo e silêncios.

Chega de homens e igrejas a interferirem sobre nossos corpos e nossa natureza! Não precisamos de controle sobre nossas ações e escolhas, e sim de equidade de gênero, respeito, dignidade e o livre exercício de nossas liberdades!

Marlene de Fáveri, 27 de setembro de 2020. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri