Foto: Arquivo Pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (31) – ou no cotidiano, as formigas, as fêmeas e as violências

Postado em 11/10/2020, 10:53

Domingo, onze de outubro de dois mil e vinte. Que semana plena de caprichos! Na companhia de minha filha e minha mãe fiz as pazes com a pandemia… mas só por uns dias. Resolvemos mexer na horta e semeamos brócolis, rúculas, alho poró e rabanetes. Também desmanchamos um canteiro de alfaces já maduras e fazendo caule, e no lugar plantamos outras mudas. Teremos alfaces sempre frescas dessa maneira.

O problema desse ajuntamento de mulheres – minha mãe, Rita, Laura, Tashi e eu – numa casa é que se faz muita comida e a gente não resiste: só percebemos quando as roupas esticam de cá e de lá e o corpo não mais se ajeita nelas. Também com tanta fartura com a colheita da horta, queijos coloniais adquiridos de quem produz e bolinhos de chuva feitos com ovos de gema amarelo-laranja colhidos dos ninhos de galinhas felizes, polenta, minestra e macarronadas, fica difícil resistir.

Já que me toca esta incontingência da clausura, resolvemos construir um muro na casa da mãe, e como gosto de reformar e construir coisas, estou administrando a obra. Contratei pedreiros e comprei todo o material de construção necessário – espero que não chova e a obra não atrase. Nesta semana que entra, as mamães penosas ajudarão no rompimento das cascas dos ovos e os pintinhos pularão para fora de suas casinhas ovulares para o mundo das galinhas. Estou ansiosa para ver os miúdos felpudos piarem!

Foto: Arquivo Pessoal

Na quinta-feira levei minha filha de volta para Florianópolis e voltei no dia seguinte. Aproveitei para reunir-me com Angelita Corrêa para decidir e definir sobre a formatação e detalhes do livro de crônicas – as primeiras vinte e cinco crônicas da clausura na pandemia – e extasiou-me o trabalho minucioso e artístico como está sendo produzido. Me revi num compônio de textos, letras e imagens desenhadas acerca de meus dilemas, medos, angústias, saudades, prazeres, solidões, desejos, gritos, dramas, denúncias, gostos, sabores, aprendizados, amores, retornos, memórias, poesias e tudo misturado com minha mãe e minha filha entre o campo e a cidade. A elas, as mulheres de minha vida, dedicarei o livro.

Eu que já tive muitas sessões de autógrafos, ando me sentindo estreante e virgem de tudo (nem tudo!).  Eu sempre escrevi poemas, alguns contos, memórias, textos e livros de História – até recebi um prêmio literário com o livro originário da tese de doutorado, intitulado Memórias de uma (outra) guerra: cotidiano e medo durante a Segunda Guerra Mundial em Santa Catarina – mas não me sabia cronista. O paradoxo é que a pandemia e o claustro me estimularam nas tintas e no prazer dessas narrativas. É mesmo um paradoxo.

Tenho lido Clarice Lispector e Cora Coralina, as quais sempre me surpreendem, tanto como criaturas quanto como criadoras e me inspiram. Ah, eu li nesta semana última Jude, o Obscuro, e entrei na correnteza de uma história na qual Jude e Sue sofrem com as amarras das convenções sociais na conservadora Inglaterra do século XIX, nas suas miseráveis vidas de apego à religião. Thomas Hardy é impecável em demonstrar o quanto a sociedade é cruel com aqueles que desafiam as tradições, neste caso, os casamentos, mas, e principalmente, as mulheres que buscam liberdade e o direito a fazerem escolhas. Este livro foi excomungado justo por sua ode aos prazeres sem que um deus castigasse os amantes.

Foto: Arquivo Pessoal

Dois problemas domésticos estorvaram o cotidiano da casa: os mosquitos e as formigas. Mosquitos mordem e gostam de sangue quente; multiplicam-se aos milhões nesses dias que começam a esquentar. Repelentes ajudam, mas pouco. São muitos os malditos mordentes da pele– sempre tem um que zune no ouvido quando tento dormir, despertando em mim um certo instinto assassino: matar o pernilongo antes que me pique.

As formigas, essas danosas carregadeiras, em um dia destruíram todas as rosas do jardim. Descobri quando já era tarde e o estrago estava feito. Foi uma comédia: eu maldizendo as pernudas comedoras de flores, minha mãe dizendo que ia “buscar o veneno que se coloca nas carreiras que elas levam para o ninho”, e minha filha bióloga nos proibindo de eliminar as  bichinhas que só “estão levando sua comida para o ninho, é da natureza delas”. Nessa discussão, minha filha se resignou: “Mas elas sabem que a maior parte do exército de operárias vai ser eliminada mesmo porque é também parte do ciclo da natureza”. Sábios argumentos. Decidimos – eu e minha mãe – por eliminar as cortadeiras de rosas, com receio de estar atentando contra o ambiente. “Mas os mosquitos a gente estapeia com prazer” eu disse. Rimos. Vai ter pena de mosquito???? Joguei veneno nas formigas… que dó.

Dia seguinte eu e a pequena Laura observamos outro caminho de formigas, e mais outro… percebemos o quão rápidas elas são na colheita de folhas e flores. Mas o mais curioso foi seguirmos uma trilha: um grupo de milhares descia de uma árvore muito alta, cada qual com um pedaço de folha verde nas costas. Depois faziam um percurso íngreme, cheio de obstáculos e buracos por uns trinta metros, até chegar ao ninho que, no final, era em cima de uma árvore cortada e cheia de nervuras, folhas e farelos de cascas. Elas faziam sua via-sacra de carregar uma folha mais pesada que seus próprios pesos, subindo e descendo ladeiras e árvores e grama e pedras em acrobacias impensáveis.  Ficamos abismadas com tanto esforço!

Observamos que um grupo trazia sua carga até o pé da árvore e outro grupo seguia até o ninho, dada a quantidade de folhinhas ali amontoadas, e todas quase no mesmo formato e tamanho. Que sabedoria tem as formigas! Todo esse esforço é feito para armazenar alimentos para o coletivo e principalmente para a rainha e os machos. Por outro lado, que sociedade exploradora da mão de obra das operárias! Estariam elas estupefacientes, entorpecidas numa inércia mental e física a ponto de sacrificarem-se pela vida do coletivo? Ou seriam solidárias na manutenção do formigueiro? Favoreceriam a proteção do grupo facilitando a reprodução e a busca por alimentos? Sim, é da natureza delas, como disse minha filha.

 

É sabido que as formigas formam sociedades complexas, compostas de três castas: rainhas, machos e operárias. A rainha, fêmea alada cuja única função é a reprodução, é fertilizada por machos também alados e que, depois que a fecundam são expulsos do formigueiro. Cada jovem rainha  fecundada perde suas asas e cava um canal no solo, onde coloca os primeiros ovos que darão origem a um novo formigueiro. Já as formigas fêmeas, em número infinitamente maior, são operárias estéreis que se subdividem em soldados – ou operárias maiores que protegem o formigueiro, e as carregadoras que cortam e carregam as folhas. Cientistas as chamam de insetos sociais – como as abelhas e cupins – que vivem em bandos para facilitar a proteção e trabalham em cooperação na divisão do trabalho. “Como sabem o caminho?” perguntou Laura, e eu disse que elas se comunicam através de estímulos e dos feromônios.  Curioso é que se morrer a rainha, o formigueiro morre junto porque as demais fêmeas são estéreis.

Esta saga das formigas lembrou-me o genial Charles Chaplin apertando parafusos até a exaustão, na selvagem exploração de corpos maltratados e dos quais se tira o máximo do lucro – mais valia – que vai beneficiar uns poucos patrões gananciosos e ávidos por cifrões. Se a sociedade das formigas for assim por sua natureza, a dos humanos bem que poderia ser de equilíbrio, sem grandes fortunas – tem que taxar! – não aliciamentos e sem fomes. Vimos no filme Metrópolis como uma elite parasita controla a classe operária sufocada nos subterrâneos. E dizem por aí que somos civilizados…

Como manter nossas relações de trabalho sem que haja exploração de outrem?  De que forma teremos uma sociedade que acolha e viva a solidariedade no coletivo sem miséria nem ostentação inútil? Isso só seria possível através da consciência do voto, quando eleger pessoas pensem a cidade e o campo, que acolham seus cidadãos e cidadãs é um direito constitucional.  A cidadania pressupõe que todas as pessoas que vivem em solo pátrio, independentemente da etnia, religião, raça, classe social, necessidades especiais, homossexuais, cor da pele, crenças, nível de escolaridade, tenham seus direitos assegurados. Indígenas, camponeses, trabalhadores no mar, no ar, na terra, nas minas, nos aeroportos, nas rodovias e ferrovias, na segurança, nas escolas, na saúde, nas cozinhas, moradores de rua, ambulantes e todos os demais habitantes, mesmo sendo peregrinos retirantes de outras pátrias, todos merecem dignidade.

Em meio a tudo isso acompanhamos as notícias e são de doer na alma. O medonho invisível continua sua cruzada assustadora e já é tão cotidiano que nos acostumamos com os riscos– no país são 150 mil corpos sem vida, que lástima… Continuamos nos cuidando muito e, embora já sabemos como nos prevenir, o medo do contágio permanece. A miséria social aumenta e com ela a fome, o desemprego e o descaso aos direitos trabalhistas e previdenciários.

Da mesma forma crescem violências contra indígenas, mulheres, crianças, pobres, homossexuais, pessoas negras. Em se tratando de violências contra mulheres, as estatísticas mostram que 497 mulheres perderam suas vidas durante a pandemia do novo coronavírus, ou seja, um feminicídio a cada nove horas entre março e agosto no Brasil – na média inaceitável de três mortes por dia. Em Santa Catarina, registrou-se um feminicídio por semana no mesmo período. Esses dados alarmantes evidenciam as violências que destroçam a integridade das mulheres diariamente, tornando urgente que se promovam políticas públicas educativas e de gênero.

Os cidadãos esperam de um governo que cuide do que lhe compete, que é proporcionar bem estar e trabalho digno, mas estamos jogados aos leões. Fascistas, machistas, racistas, fóbicos e exploradores do trabalho mostrando suas caras odientas, vocês não são eternos e a mesma terra que engole um operário tombado cobrirá suas lápides.  Sem uma educação pública emancipadora para todos os níveis de escolaridade, as pessoas estão condenadas a serem descartadas e viverem nas margens, servindo a poucos milionários, enganadas em nome de uma figura divina. Não somos formigas.

Dedico esta crônica aos operários e operárias que plantam, colhem, moem, constroem, cuidam, asseguram, alimentam, transportam, educam, comercializam e buscam a futuridade digna. Trabalhadores e trabalhadoras, uni-vos!

Marlene de Fáveri, 11 de outubro de 2020. Turvo/SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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