Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Juliana Gelmini

Postado em 29/01/2021, 16:13

Juliana Gelmini nasceu em 1985, no Rio de Janeiro, onde mora. É autora do livro Insólito Sólido (Patuá, 2017). Licenciada em Letras (UFRJ), especialista em literatura para crianças e jovens (UFRJ) e mestre em literatura brasileira (UERJ). Atualmente, é doutoranda em literatura brasileira (UERJ), sendo pesquisadora-bolsista do CAPES. Atuou como professora temporária do Colégio Pedro II e CAp (UFRJ). O blogger Insólito Sólido e o IG @julianagelmini são seus laboratórios de escrita.

Como de costume, para começar você poderia contar um pouco de sua trajetória como escritora? Por que começar a escrever? E mais, por que continuar escrevendo?
Escrevo desde criança em diários e agendas de papel. E a escola teve um papel importante nisso. Lembro que minha escola oferecia diversas atividades culturais, como um projeto com troca de cartas entre a comunidade escolar e um concurso de fomento à leitura, proposto pela biblioteca, chamado “Quem lê, sabe mais”. Ainda nos anos iniciais, escrevemos um conto coletivo, produzido pela turma e publicado no livro A ilha da Aventura, da coleção “Escola-escreve”. Em casa, também tive acesso a livros para crianças e jovens. Lembro em especial de uma coleção de livros de contos de fadas, acompanhada de audiolivros em discos de vinil, e das leituras que minha família fazia para mim. Acredito que essa vivência de amor pela leitura, ainda na infância, contribuiu, em muitos sentidos, para meu envolvimento com a escrita.

Aos 16 anos, escrevi meu primeiro livro de poesia, engavetado. E mantive cadernos e plataformas digitais para exercitar a escrita. A entrada na faculdade de Letras, na UFRJ, foi um marco nesse percurso, pela oportunidade de acesso à qualidade da educação pública, com professores de excelência e bibliotecas que, como Borges conta, são uma espécie de paraíso. Na faculdade, tive a oportunidade de realizar vários cursos de escrita com professores que também são escritores, como meu mestre Antônio Carlos Secchin que foi fundamental para meu olhar para poesia. Acredito que a oportunidade de atuar como pesquisadora bolsista de literatura ao longo da graduação em Letras, orientada pela minha mestra Rosa Gens, também contribuiu para o amadurecimento do meu olhar crítico para a escrita. A Rosa também me apresentou ao NIELM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura) e melhor compreendi a importância política das mulheres ocuparem o lugar de escritoras. Isso me encorajou a pensar em publicar um livro.

Em 2009, criei o blog Insólito Sólido que utilizei como laboratório da escrita para a composição do meu primeiro livro homônimo que só publiquei aos 31 anos, em 2017, pela editora Patuá.  Por que começar a escrever? Por que continuar escrevendo? Penso que, nesse mundo insólito, a arte é nossa força de resistência.

Agora enquanto leitora. Poderia nos contar quais suas principais influências? Autores muito queridos ou livros que te marcaram? Qual foi sua última leitura?
Recentemente, li o livro digital Há muitas formas de se fazer macarrão, de Georgina Martins, leitura que me arrebatou. A trama nos dá a ver cenas da vida de um casal em uma relação amorosa abusiva, senda narrada pelo olhar da personagem feminina. Outra leitura recente foi o livro de poesia O Singular do Dual, de Carollina Costa. E tive a oportunidade de escrever o prefácio desse livro. Pretendo ler, em breve, Tinha uma coisa aqui, de Ieda Magri; Alinhavar, de Thaís Chagas; e O peso do pássaro morto, de Aline Bei.

Algumas leituras me atravessam: o conto “A terceira margem do rio”, em Primeiras estórias, de Guimarães Rosa; Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas; A vida submarina, de Ana Martins Marques; Parque das ruínas, de Marília Garcia; Poética, de Ana Cristina Cesar; Sangria, de Luiza Romão; Líricas breves para construção de uma alma, de Déa Trancoso; Vidas Secas e A terra dos meninos pelados, de Graciliano Ramos; A moça tecelã, de Marina Colasanti; Memórias inventadas: a terceira infância, de Manoel de Barros; Água viva e A hora da estrela, de Clarice Lispector; O velho e o mar, de Hemingway; O Médico e o Monstro, de Stevenson; Dom Casmurro, de Machado de Assis; Um teto todo seu, de Virginia Woolf;  Da poesia, de Hilda Hilst; O livro das perguntas, de Pablo Neruda, O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë; Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto; O Navio Negreiro, de Castro Alves; Navio Negreiro, de Maria Duda e  1984, de George Orwell. E alguns poemas que amo são “Operário em construção”, de Vinícius de Moraes; “O elefante”, de Drummond; “Profundamente”, de Manuel Bandeira; “Retrato”, de Cecília Meireles; “A arte de perder”, de Elizabeth Bishop, “Com licença poética”, de Adélia Prado, entre outras vozes.

Você publicou pela Editora Patuá “Insólito Sólido”. Poderia compartilhar um pouco sobre essa obra com os leitores?
É um livro de poesia que reúne composições híbridas, “do minimalismo de algumas peças à exuberante mescla de gêneros e estilos de muitas outras”, como diz Antônio Carlos Secchin, na orelha do livro. Insólito significa aquilo que não se pode explicar à luz da razão, o extraordinário que, na realidade da imaginação, pode se tornar sólido. O livro apresenta três partes principais que são subdivididas em duas seções, ilustradas com aquarelas autorais. Os subtítulos das seções já nos sugerem o diálogo com outras artes e o tom onírico: “Orvalhos orgânicos”, “Águo”, “Eu Tarja Preta”, “Sala vermelha ou Não sei ser degradê”, “Meu coração estreme-céu” e “Memórias a secar”. Além das ilustrações internas, também fiz a arte da capa, sendo uma experimentação com tinta a óleo. E o artista Arnaldo de Pádua fez o retrato da autora, ilustrado em nanquim sobre papel. O livro é dedicado “aos gatos sem rabo e àqueles que sabem que/ as cores guardam segredos [e cheiros]”. E dialoga com Virginia Woolf, em Um teto todo seu, em referência à metáfora utilizada para denunciar o espaço repisado para as mulheres que escrevem. Insólito Sólido também dialoga com Camille Claudel, Manoel de Barros, Caio Fernando Abreu, entre outros.

Além desta obra você também já publicou em coletânea e mantém uma página com criações autorais, certo? Poderia nos contar sobre esses projetos?
Claro. Desde 2009, mantenho o blog Insólito Sólido. Atualmente, também mantenho uma página com criações autorais no Instagram. Escrever, por muito tempo, foi um exercício mais solitário. Porém, cada vez mais, venho tendo oportunidades de experienciar a escrita como atividade coletiva, junto a alguns grupos. Participo, como integrante do corpo discente, do projeto de extensão da UERJ Poesia, ficção e crítica: exercícios com autor, exercícios de autor, coordenado pela minha orientadora Ieda Magri e outros professores. Projeto que promove encontro com autores contemporâneos, articulados com propostas de criações literárias, entre outras atividades. Também faço parte do grupo de escrita Ecos poéticos, com publicações contínuas no Instagram. E participei da antologia Poesia livre 2015. Este ano será publicada, em breve, a coletânea de poesia do Prêmio Off Flip de Literatura, na qual participo.

Além de escritora você também é doutoranda em Letras, correto? Como concilia essas duas atividades? Seus estudos acadêmicos influenciam sua literatura?
São atividades que dialogam. Minha escrita é atravessada pela experiência como pesquisadora em literaturas. Curso doutorado em literatura brasileira, pela UERJ, orientada pela professora e escritora Ieda Magri. E, como bolsista da CAPES, pesquiso a poesia brasileira contemporânea de vozes de autoria feminina, como Ana Martins Marques, Angélica Freitas e Marília Garcia. A escolha pela literatura de autoria feminina possibilita repensar a memória arquivada por nossa sociedade patriarcal e escrita predominantemente por autores homens, especialmente no que diz respeito à tradição literária. Esta espécie de “mal de arquivo”, como explica Derrida, a questão política que orienta este arquivo, a instituição que o valida, entre outras questões. A oportunidade de pesquisar vozes de autoria feminina, de alguma forma, possibilita construir uma outra cartografia, aberta ao reconhecimento dessa literatura, por séculos considerada como “menor”. Esses estudos acadêmicos contribuem para amadurecer meu olhar crítico para a literatura e fazem parte do meu percurso com a escrita.

Como foram suas experiências de publicação? O que mais te marcou no processo?
Foi uma ótima experiência. E agradeço à editora Patuá, pela oportunidade de publicar, de forma gratuita, meu primeiro livro de poesia. E pelo compromisso com a qualidade dos livros. Para a Editora Patuá, “os livros são amuletos”. E são mesmo.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Ou, alguma mensagem final?


Escrevam. Escrevam. Escrevam. Virginia Woolf nos lembra, em Um teto todo seu, “eu pediria a vocês que escrevessem todo tipo de livro, não hesitando diante de nenhum tema, por mais trivial ou vasto que seja”. Escrevam com liberdade e coragem.

Aproveito para agradecer ao projeto Chicas que escrevem, do portal Catarinas, pela visibilidade às nossas vozes de autoria feminina. Vamos juntas, como diz Adélia Prado, “com licença poética”, fundando linhagens. Como nos lembra Chimamanda Ngozi Adichei, sejamos todos feministas.

Por favor, indique um livro para os leitores e também um filme ou série.

Livro: O Singular do Dual, de Carollina Costa (autopublicação). Tive a oportunidade de escrever o prefácio do seu livro de estreia, como vemos a seguir:

A poesia de Carollina Costa é um convite fascinante à viagem existencial, à experiência do sujeito em sua travessia plural de ser: “O Singular do Dual”. Em seus poemas compostos em língua portuguesa e inglesa, a busca pela essência congrega os aparentes opostos: a parte visível e invisível da paisagem, a morte e a vida, a superfície e o fundo do mar. Como diz em seus versos: “Às vezes eu sou tão/Profunda/Que tudo o que eu queria/Era molhar a ponta dos pés/Na beirinha do mar”.

Nas águas dessa poesia, há um olhar de estranhamento de quem se observa como outros no espelho da dimensão íntima. Espaço interior que, simultaneamente, reflete o universo externo que nos cerca: “When I look into myself/From my imaginary mirror/A white space is all what I see/Blank painting/That’s all/And I’m afraid/No,/Terrified” (Quando eu olho para mim/Do meu espelho imaginário/Um espaço em branco é tudo o que eu vejo/Pintura em branco/Isso é tudo/E eu estou com medo/Não, /Aterrorizada). Nessa dialética entre identidade e alteridade, tal “espelho imaginário” revela traços da sondagem psicológica em sua escrita.

Os jogos de “eus” são desdobrados também pelo bilinguismo que multiplica as vozes de enunciação do texto, assim como pela interlocução com leitor, entre outras estratégias. Nesse coro de personas, as figuras femininas destacam-se reunidas pela unicidade de ser mulher. Dividida em duas seções “Do singular” e “Do dual”, esta obra desperta o leitor para o prazer do insólito poético pela voz sensível e original da poeta que faz do poema um lugar para “outrar-se”.

Mais informações aqui. 

Filme: documentário brasileiro sobre a poeta Ana Cristina Cesar: Bruta aventura em versos, de Letícia Simões, 2011. Disponível no youtube.

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Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert