Imagem: Laura Elizia Haubert/Fotos: Michelle Lopes (@claricesemarias)

Coluna da Laura Elizia Haubert

Chicas que escrevem: Carola Saavedra

Postado em 20/06/2020, 10:11

 

A chica da semana é ninguém menos que Carola Saavedra. Escritora e tradutora brasileira nascida no Chile, formada em Jornalismo pela PUC-RJ, com mestrado em Comunicação Social. Já ganhou o Prêmio APCA de melhor romance em 2008 por “Flores Azuis” e em 2010 o Prêmio Rachel de Queiroz por “Paisagem com Dromedário”. Além de estar entre os finalistas dos prêmios São Paulo de Literatura e do Prêmio Jabuti. Ufa! Vamos à entrevista!

Para começar uma coisa que me intrigou foi a forma da escrita e como você montou a história. Então, gostaria de saber um pouco mais sobre como nasceu sua história com a literatura? Por que escrever, e mais ainda, por que continuar escrevendo?
Minha história nasceu quando eu aprendi a ler, para mim foi um mundo que se abriu. Eu fui uma criança-leitora, apaixonada por literatura. Daí foi natural que logo surgisse o desejo de escrever. Enfim, foi um desejo que surgiu aí e nunca me abandonou, para mim escrever é uma forma de viver, de enxergar o mundo e a mim mesma.

Agora, leitura e escritas estão bastante próximas, então poderia contar um pouco sobre as leituras que mais te marcaram enquanto leitora? Quais seus livros de cabeceira? Ou, o que você anda lendo ultimamente?
Quando criança fui leitora fiel da Lygia Bojunga, li tudo rs. Depois veio a Clarice Lispector, Machado de Assis, Hilda Hilst, Sérgio Sant’Anna, Conceiçao Evaristo, Cortázar, Alejandra Pizarnik, Borges, Piglia, Robert Walser, Sylvia Plath, Toni Morrison, Elfriede Jelinek… (são tantos nomes, e citar quem quer que seja é sempre ser injusta). Livro de cabeceira é o Quixote. Ultimamente tenho lido poesia: Cecilia Meireles, Sofia de Mello Breyner e Ingeborg Bachmann

Você já publicou vários livros. Então, vamos falar um pouco sobre eles. O primeiro foi “Toda terça”, certo? É um livro onde a história vai se construindo a partir de várias peças e fragmentos, como foi a escrita desse livro?
Foi muito difícil, meu primeiro romance, eu ainda não sabia para onde tudo aquilo ia. Foi uma espécie de livro-descoberta, e também um tal de levar tombo e depois levantar e levar outro tombo, a escrita desse livro foi assim, hoje, olhando para o processo, penso, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido, rs.

Depois em 2010 você publicou “Paisagem com dromedário” que recebeu o Prêmio Rachel de Queiroz. Poderia contar um pouco sobre esse livro? Qual a diferença entre a Carola Saavedra que escreveu “Toda Terça” e a que escreveu esse?
Eu tenho um carinho muito grande por esse livro, um carinho especial. É um livro sobre muitas coisas, sobre arte (a narradora é uma artista), sobre relacionamentos, sobre o luto, mas também sobre essa difícil passagem que é distinguir o próprio desejo em meio às expectativas da família, da sociedade, dos demais. No Paisagem eu já dominava a técnica então não levei tanto tombo,

Li no ano passado “Com armas sonolentas”, então gostaria de falar um pouco sobre ele. A forma como o real e o imaginário se misturam, assim como a vida das três mulheres foi muito interessante. Como você chegou a fórmula da história? Como foi seu processo de criação?
O Armas teve um processo muito diferente dos demais, eu sabia muito pouco sobre o livro quando comecei a escrever, apenas que seria um romance sobre a relação mãe e filha (algo raro no romance brasileiro até então). O romance foi se mostrando na medida em que eu escrevia, ou seja, foi escrito com uma abertura maior para o inconsciente, para aquilo que não sabemos que sabemos. Quando vi, havia uma capivara falante, uma avó que voltava da morte, e outros aspectos oníricos que foram se infiltrando até tomar o livro por completo. Eu não tentei controlar, apenas aceitei que as coisas acontecessem.

Muitas leitoras escrevem ou gostariam de escrever. Que conselhos você daria para quem deseja se tornar escritora ou aprimorar-se na escrita?
Eu dei oficina de escrita criativa por muitos anos, o que sempre disse foi: não existe talento, não existe genialidade, o que existe é desejo. Só isso. Se houver desejo o resto (trabalho, técnica, resiliência, paciência etc.) virá depois. É claro que o desejo só funciona se a pessoa tiver as condições básicas de sobrevivência garantidas, nem todo o desejo do mundo resolve se você não tem o que comer.

Agora, poderia nos contar um pouco também sobre como foram seus processos de publicações? O que mais te marcou neles, ou algo que pareça importante destacar?
Desde o primeiro romance que eu publico pela Companhia das Letras, então não há muito o que contar nesse sentido. Antes disso, publiquei um livro de contos pela 7Letras, foi muito importante porque me permitiu começar a ser lida, e me deu incentivo para continuar.

Por fim, há algo que você gostaria de dizer para outras mulheres que escrevem? Alguma mensagem final?
Não desistam! É extremamente importante que as mulheres criem suas próprias narrativas.

Além dessa entrevista deliciosa a Carola ainda fez a gentileza de enviar as seguintes dicas:

Indicação de livros: Longe, aqui – poesia incompleta da Maria Esther Maciel e também Amora de Natalia Borges Polesso

Indicação de filmes: Mulholland Drive de David Lynch.

Gostaria de agradecer imensamente a Carola Saavedra por ter aceitado por ter aceitado meu convite para participar e disponibilizar seu tempo para esse bate-papo online. Por hoje é só, por favor, lembre-se, leiam mais e leiam mulheres!




Laura Elizia Haubert é doutoranda em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Graduada e Mestre em Filosofia pela PUC-SP. Autora do livro “Memórias de uma vida pequena” publicado pela Quintal Edições em 2019, e “Sempre o mesmo céu, sempre o mesmo azul” publicado pela Patuá Editora em 2017. Já teve contos publicados na Revista Ponto do SESI-SP, na Revista Gueto e na Revista Subversa. Além de participações em antologias como "As coisas que as mulheres escrevem" da editora Desdêmona publicado em 2019.
Veja a coluna da Laura Elizia Haubert