Coluna da Carla Ayres

#ChegaDeMachismoCacau – contrapondo, ponto a ponto

Postado em 02/04/2018, 13:52

No último dia 26 de março de 2018 – poucos dias antes de findar o “mês das mulheres”, 18 dias após a fantástica mobilização feminista em torno da Greve Geral das Mulheres #2018M e 11 dias após a comoção internacional pela qual passamos em virtude do assassinato brutal da companheira Marielle Franco no Rio de Janeiro – o Sr. Cláudio Menezes, colunista de um dos maiores jornais de circulação em Santa Catarina utilizou-se mais uma vez dos espaços jornalísticos que lhe dão ibope para veicular opiniões machistas e afrontas contra as mulheres.

A nota publicada por ele intitulada “Fim do Machismo?” não é a primeira atitude em que o jornalista se utiliza de sua publicidade para destilar misoginia. Várias outras situações foram listadas pela brilhante campanha #ChegaDeMachismoCacau promovida pelo Coletivo Jornalismo Sem Machismo. Resolvi aderir à campanha com algumas contribuições ao debate. A questão é sempre um dilema: responder ou não? Dar mais visibilidade às palhaçadas de gente como ele? Nós, feministas, vamos fazer ainda mais “propaganda” de suas ideias, mesmo ao tentar rebate-las?

Em que pese não termos a penetração de massas que ele tem, não podemos deixar de fazer alguns contrapontos. No ano de 2015 as mesmas sentenças descritas pelo Cacau, na semana passada, já circularam nas Redes Sociais criando polêmicas e discussões. Naquela ocasião as companheiras do Blogueiras Feministas publicaram texto resposta. Achei interessante replicar aqui algumas coisas.

A primeira questão a ser levantada é o fato dele se utilizar de um vídeo gravado “por uma mulher”, para se munir de legitimidade para dar descrédito à luta histórica das mulheres e dos feminismos com dados mobilizados de forma tão frágil. O machismo existe e é histórico. Assim como também são históricos os motivos pelos quais presenciamos, por vezes, mulheres com argumentos anti-feministas. Não se trata de atacá-las, mas sim conhecer os fatores estruturais que as colocam neste “lugar” e contra eles lutarmos.
São também históricos os “porquês” de cada uma das afirmações feitas pelo Sr. Cacau Menezes. Pois vejamos:

Está estatisticamente provado: o machismo não existe (sim ele existe! Esta nota é mais uma prova disso!). Veja bem: 90% das brigas judiciais por guardas e pensão são ganhas pelas mulheres (as pensões são direitos dos filhos e filhas, e devem ser pagas pelo pai ou mãe que não estão com a guarda para que se contribua com a divisão das despesas do cuidado material das crianças. Entretanto, culturalmente o próprio patriarcado e machismo estruturado na sociedade lega às mulheres o cuidado das(os) pequenas(os) e não à toa vemos casos emblemático de homens que ao se separar de sua esposa se separa dos seus filhos também); a cada 11 mortes por violência, 10 são de homens (antes de mais nada é preciso questionarmos: de qual violência estamos falando? Homens morrem nas ruas, no trabalho. Homens, jovens, negros, são especialmente mortos nas periferias, pela política, inclusive. Mulheres, por outro lado, são mortas em casa, somos vítimas de feminicídio, morremos por crimes cometidos sobretudo por homens, por seus parceiros, em decorrência de variados outros tipos de violência: física, psicológica, sexual, patromonial, etc.); nas universidades, apenas 40% são homens (este dado não revela as especificidades internas do ensino superior e das carreiras profissionais de homens e mulheres. Não revela, por exemplo, que as mulheres são maioria em cursos de humanidades, mas minoria severa entre os ingressos e egressos de cursos nas áreas de engenharias, ciências e agricultura; não revela que nas carreiras internas às universidades, as mulheres figuram minoria entre professores, por exemplo; não revela tão pouco que mesmo com escolaridades semelhantes e funções iguais no mercado de trabalho, as mulheres possuem ganhos relativamente menores que dos homens); o câncer de próstata mata proporcionalmente a mesma quantidade do de mama, mas adivinhe onde são gastos os recursos com prevenção e campanhas de conscientização (os custos e diagnósticos do câncer de mama demandam mais recursos e equipamentos especializados. O diagnóstico do câncer de próstata é mais “simples” – o toque retal – mas pouco realizado pelos homens, nem tanto por falta de informação, mas sim pelo tal machismo-hetero-patriarcal, não é mesmo? Ademais, há anos os governos realizam campanhas sistemática tanto do “outubro Rosa”, como no “novembro Azul”); homens são 80% dos moradores de rua e 90% as pessoas que cometem suicídio (dados revelam que as pessoas passam a morar na rua em virtude de alcoolismo e/ou drogas; desemprego ou desavenças familiares. As mulheres costumam ser vulneráveis a violência sexual nas ruas, por isso em muitos casos preferem não sair de casa, mesmo sofrendo violência doméstica. O alcoolismo é também um dos principais motivos que levam homens ao suicídio); o Exército é obrigatório apenas para homens (entre nós feministas há opiniões diversas sobre este fato: há quem questione a própria existência do exercito, há quem questione o alistamento obrigatório, e também quem defenda a entrada de mulheres); a licença maternidade é de 180 dias e a de paternidade, apenas 5 dias (uma afirmação feita desta forma até soa de duas formas: ou que 180 dias de licença para as mulheres é “muito” ou é um “benefício/folga”, quando na verdade trata-se de dias para os primeiros cuidados com a criança, como funções vitais de amamentação, etc; ou soa como se “os homens estivessem mesmo interessados em dividir as funções domésticas com as mulheres” ou então “dividir esta ‘folga’”. A afirmação vazia não revela que faz parte da luta das mulheres que as licenças sejam compartilhadas com homens ou outros membros da família, nem revela que em muitos casos as mulheres que são demitidas após retorno do benefício. Todos estes, outros traços do machismo); os homens precisam trabalhar 5 anos a mais para se aposentar e morrem 8 anos antes (o fato é que mulheres possuem dupla jornada de trabalho. Além das mesmas 40 horas semanais de trabalho que os homens, são responsáveis, em média, por 24h de trabalho doméstico sem remuneração); quando o Titanic afundou, 80% dos homens morreram e 80% das mulheres sobreviveram (não merece comentário!); os homens ocupam 95% dos serviços braçais, como os de lixeiro, pedreiro e carvoeiro (é verdade também que os “papeis” de homens e mulheres no mercado de trabalho tem se invertido, e em muitos casos mulheres galgado espaços outrora controversos. É verdade também que homens não querem empregos exercidos principalmente por mulheres)”.

Há muitos outros motivos, há muitos outros dados, há uma realidade toda indescritível que atestam a perversidade da existência do machismo entre nós. Porém, apenas o jornalismo responsável pode atestá-lo.




Doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de Santa Catarina e integra o coletivo Acontece – Arte e Política LGBT, em Florianópolis. Em sua coluna no Portal Catarinas, Carla escreve sobre mulheres, participação política, comunidade LGBT e direito à cidade.
Veja a coluna da Carla Ayres