Padre Robson de Oliveira, pastor Everaldo Pereira e pastora Flordelis dos Santos de Souza/Montagem de fotos: Catarinas
Padre Robson de Oliveira, pastor Everaldo Pereira e pastora Flordelis dos Santos de Souza/Montagem de fotos: Catarinas

Coluna da Lusmarina Campos Garcia

As lideranças cristãs que elegeram Bolsonaro

Postado em 29/08/2020, 17:39

Os escândalos envolvendo dois pastores e um padre esta semana em conjunto com o caso da menina de 10 anos na semana passada, mostram que o cristianismo no Brasil apodreceu

A pastora, cantora gospel e deputada federal pelo PSD/RJ, Flordelis dos Santos de Souza, é acusada de ser a mandante do assassinato do marido que foi executado pelos filhos. Com um discurso moralizante “pela família”, “em favor da vida”, contra o aborto e as relações homoafetivas, a “pastora” é acusada de manter relação incestuosa com os filhos além de matar o marido. Foi eleita com o voto de pessoas evangélicas ao cargo de deputada federal.

O pastor Everaldo Pereira, que batizou o Bolsonaro no Rio Jordão e é presidente do PSC (Partido Social Cristão), foi preso nesta sexta-feira (28), juntamente com dois de seus filhos, acusado de ser o líder de uma “sofisticada organização criminosa” que tem “o objetivo comum de desviar recursos públicos e realizar a lavagem de capitais, dentre outros crimes”. De acordo com a delação do ex-secretário de saúde Edmar Santos, o pastor Everaldo exercia influência sobre a CEDAE, o DETRAN e a Saúde do Estado do Rio de Janeiro. A área de saúde, da qual foram desviados milhões durante a pandemia, expondo a população do Estado a um maior risco de contaminação e morte pelo coronavírus.

Outro grande defensor “da vida”, o pastor Everaldo pode ser responsabilizado pela morte de tanta gente.

O padre Robson de Oliveira está sendo investigado por suspeita de desvio de R$ 120 milhões de doações dos fiéis. Ele foi extorquido em R$ 2,9 milhões para tentar impedir a divulgação de alegados casos amorosos. O padre é o idealizador da construção da Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade (GO), que foi orçada em R$ 1,4 bilhões. Só o sino, importado da Polônia, custou R$ 6 milhões. A obra começou em 2012, mas ainda não saiu dos alicerces.

Tal obra é administrada pela AFIPE (Associação dos Filhos do Divino Pai Eterno) cujo presidente é o padre. Outras três AFIPEs foram criadas e a suspeita do Ministério Público é que existe um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito uma vez que as associações compraram inúmeros imóveis, dentre os quais uma fazenda de R$ 100 milhões, avião, casa em condomínio fechado, casa na praia, etc. A GAECO afirma que as três associações movimentaram entre 8 a 10 bilhões. Uma das linhas de investigação é de lavagem de dinheiro de empresários e políticos. Um dos núcleos políticos recebeu das Afipes mais de 43 milhões. Quatro crimes estão sendo investigados: apropriação indébita, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e organização criminosa.

As igrejas cristãs têm se constituído em verdadeiros antros de extorsão e agências do crime organizado. Escondem a sua imundície por trás do discurso moralista “pró-vida”, “contra o aborto”, “contra a homossexualidade”, “pela família”, enquanto suas ações produzem mesmo é a morte, a injustiça, os abusos sexuais, a violência contra as mulheres, contra a comunidade LGBTQI, contra outras religiões.

Em nome de Deus dão vida ao diabo, ao demônio, ou seja, lá que nome se possa atribuir à concentração do mal. Dizem-se evangelizadores, mas não proclamam nem pautam as suas vidas pelos evangelhos. Matam, corrompem, enriquecem, constroem basílicas bilionárias ao invés de construir casas para quem não as tem e investir o dinheiro para criar condições de vida digna para o povo. Pervertem o evangelho colocando-o a serviço do dinheiro e do poder político. Enganam o povo com uma espiritualidade gospel e com a troca de “bênção” por doação. Dão ênfase à meritocracia, quando o núcleo primordial do evangelho é a Graça.

Onde está a voz destes líderes defendendo os indígenas, que estão sendo expulsos das suas terras durante a pandemia? Onde está o seu canto denunciando os assassinatos cotidianos nas favelas? Porque nada disseram quando chegamos aos 100 mil mortos pela C0vid-19? Onde estão as orações pelas 120 mil famílias enlutadas? Onde está a pregação fervorosa que aponta a desigualdade social como um problema estrutural que não se resolve individualmente, mas apenas com política pública de distribuição de renda, de riquezas, com reforma agrária e social? Cadê as televisões destes líderes denunciando o racismo?

Estes líderes e o povo que os têm como exemplo elegeram Bolsonaro.

É hora de parar. As igrejas cristãs precisam fazer uma auto-crítica profunda se quiserem sarar; precisam se repensar a partir de um diálogo franco e aberto com as mulheres, com a comunidade lgbtqi, com pessoas especiais, com negras e negros, com indígenas. O que precisamos é de um cristianismo libertário, que tome como modelo a figura do Jesus profético, e que não se deixe moldar pelo capitalismo financista, mas sim pela solidariedade e pelo compromisso com a construção de uma sociedade e uma humanidade mais justa, igualitária, acolhedora das diferenças e pacífica.

Lusmarina Campos Garcia, 29/08/2020

Atualizada em 29 de agosto, às 20h53.




Lusmarina Campos Garcia é teóloga eco-feminista, pastora luterana e pesquisadora no Programa de Pós-graduação da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Compõe três grupos de pesquisa: Observatório do Judiciário Brasileiro, Direito e Cinema e Teoria da Sociedade, Direito e Política. Defensora dos direitos humanos, com ênfase na questão de gênero, pronunciou-se na audiência pública do STF no contexto da ADPF 442 em defesa da descriminalização do aborto. É atuante no movimento ecumênico desde a década de 1980.
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