Em 2026 escrevi muito pouco, e publiquei menos ainda em comparação com o quão profícuos me foram os anos entre 2010-2025. Tenho meus motivos, não estou em sofrimento por conta desta pausa e, para minha alegre surpresa, nesta semana meu comichão pela escrita galgou velozmente o fastio que textos produzidos por IA vinham me causando.

No sábado 25, ainda na sala escura do cinema, estas palavras me vieram à cabeça num ímpeto. Como acontece rapidamente com todo produto cultural que alcança a câmara de eco da Internet dos Comentaristas dos Últimos Dias, falar sobre o longa é uma tendência já saturada. Igual, tive a sorte de vê-lo em um IMAX, e não resisti entrar no giro das opiniões. Daí esse texto – que, saliento, contém a minha opinião, ou seja: o que você está prestes a ler não é resenha de cinema, não é crítica feminista, e não tem compromisso com o poema nem com sua mais recente interpretação cinemática.

Para dar um pouco de contexto, a Odisseia é um poema épico, considerado uma das obras fundadoras da literatura ocidental. É uma ficção que narra o retorno de Odisseu para a ilha de Ítaca após vitória na Guerra de Troia, em uma viagem que dura dez anos e é marcada por monstros, tempestades e dilemas. A tradição o atribui a Homero, sobre quem pouco se sabe. Composto entre os séculos VIII e VII a.C., e surgido em uma cultura predominantemente oral, sua versão escrita tem 24 cantos (livros) e cerca de 12 mil versos. 

A Odisseia é agora também um filme épico, dirigido por Christopher Nolan, e considerado uma das mais ambiciosas adaptações cinematográficas do poema homérico. Lançado em julho de 2026, combina fidelidade aos principais acontecimentos da história com escolhas narrativas e visuais próprias, e moduladas para o contexto político contemporâneo. Produzido pela Universal Pictures, emprega extensivamente câmeras IMAX para emular a escala da obra original.

Abaixo, compartilho notas mentais feitas ao longo das duas horas e cinquenta e dois minutos deste filme que já nasceu clássico, e que fornece quantidades memoráveis de referências culturais, entretenimento arrepiante, e impecabilidade técnica.

  • Me doeu o coração pensar em quem o assistiu na tela comum do aparato cinematográfico, na qual perde-se muito da área visual capturada para o IMAX: uma redução de 50% do tamanho vertical original, que literalmente corta pela metade o prazer visual do cinema narrativo, neste longa oriundo da beleza da fotografia, e, sobretudo, do elenco filmado em todo seu esplendor e beleza fora do enquadramento patriarcal do male gaze. (Os termos em itálico pego emprestados da crítica feminista de cinema Laura Mulvey.)

  • O elenco é glorioso. GLORIOSO. Robert Pattinson está um deleite como o vilão seboso Antínoo, em atuação que lembra a de Joaquim Phoenix em Gladiador, porém livre de quaisquer conflitos morais ou éticos, ressudando a mais pura maldade. Todo mundo brilha muito, mas John Leguizamo como Eumeu brilha mais do que o sol – que, por sinal, é também um personagem importante da trama, sobretudo no arco de Anne Hathaway, a Penélope. O sol – Hélio, na mitologia grega – é pai da poderosa feiticeira Circe, que no filme é interpretada por Samantha Morton, atriz superior que deveria estar presente em toda dramaturgia em que uma personagem tem como objetivo entregar a nêmesis para a húbris dos homens.

  • Achei interessante que, numa leitura informada pelo cristianismo sobre este conto que o precede por quase um milênio, constam o Pai (Matt Damon, Odisseu) e o Filho (Tom Holland, Telêmaco), mas o papel do Espírito Santo cabe à Zendaya, como Atena — a única deusa presente em uma obra notavelmente esvaziada deste aspecto da mitologia grega. E Zendaya, ela mesma, é uma deusa. Que mulher, minha gente.

  • Escalar Lupita Nyong’o como Helena de Troia e sua irmã gêmea, Clitemnestra, foi de uma genialidade indiscutível, pois além de ela ter “o rosto que lançou mil navios” (que é como outro Christopher, o Marlowe, descreve a beleza da personagem em A Trágica História de Doutor Fausto, de 1604), ela tem a pele que lançou mil discussões online e revelou a ignorância de trilhões daqueles que demonstram seu racismo com base em falácias tal qual a precisão histórica de um poema ficcional.

  • O Odisseu de Matt Damon é mais atrapalhado do que mercurial, não tem tanta complexidade quanto os classicistas atribuem ao herói dessa jornada, e seu arco é um de arrependimento e redenção. (Pausa: aqui me refiro ao desenvolvimento da história do personagem, não ao seu arco e flecha — objeto cênico crucial de um enredo repleto de foreshadowing, sendo o mais dilacerante de todos o do cão Argos.) Burro esse Odisseu não é, mas não é tão esperto quanto o do poema — e sua teimosia resulta em uma série de decisões estúpidas, cujo preço não é ele quem paga com a própria vida, mas seus subordinados. Aliás, o filme é uma ótima ilustração dos conceitos de “masculinidade hegemônica” e “masculinidade subordinada”, da ordem de gênero de Raewyn Connell, embora a única “feminilidade enfatizada” apareça em Melanto, interpretada por Mia Goth– a ama traiçoeira de Penélope e baba-ovo do amante maligno Antínoo, – que sofre consequências específicas justamente por ser joguete do machismo social. 

  • A diversidade do elenco é também uma alegria, e embora os guerreiros marinheiros do capitão Odisseu sejam todos homens, a variedade de etnias é alvissareira para quem trabalha com DEI [Diversidade, equidade e inclusão]. O Euríloco do belíssimo Himesh Patel é todos nós: completamente exasperado com as atitudes do homem cis branco a quem ele precisa responder, mas tendo que remar pra sobreviver (sem sucesso) à arrogância do mestre.

  • Nessa nota, Elliott Page está resplandecente como Sinon, e o roteiro dá mais um olé nos preconceituosos ao fazer Odisseu descrevê-lo como “o homem mais corajoso que já conheci”. (Eu cheguei a bater palmas no cinema nesse momento emocionante, que foi uma flechada certeira na transfobia.)

  • Por falar em flechada, nas vezes em que Odisseu aparece encordoando seu arco, a edição faz com que cada momento coincida com o som de um instrumento de cordas diferente. Pequenos detalhes assim regozijam os fãs do cinema-arte.

  • A edição de som é eletrizante. A fotografia estonteante. O figurino, maquiagem e direção de arte são encantadores. O filme com certeza vai receber muitas indicações nas categorias técnicas no  Oscar de 2027. E a linda trilha original paga tributo à lira de Orfeu, exultando sem nomear o poder lendário deste mito grego, cujo talento com as notas enfeitiça a natureza, os animais e até os deuses do submundo.

  • Falando em submundo, no Hades Odisseu encontra seus soldados e marujos caídos, entre eles Sinon e o rei Agamemnon (Bennie Safdie), mais Tirésias (James Remar), o profeta cego que avisa do destino trágico da tripulação da Odisseia (e confesso que essa nota somente existe porque achei o Tirésias deste filme muito parecido com o Palpatine, vilão da saga Star Wars).

  • Por fim, as duas únicas coisas de que não gostei foram: (1) a última cena de batalha de Odisseu, para a qual Matt Damon canalizou Jason Bourne além da conta; e (2) me dar conta de que o lábio superior da Charlize Theron, que interpreta Calipso, não se mexe mais de tantas intervenções estéticas – o que me entristece, mas de forma alguma macula sua beleza e atuação de tirarem o fôlego.

É claro que esta é mais uma história sobre um homem cis branco no cinema, e o que não falta são filmes sobre essa identidade. Não deveria surpreender ninguém, no entanto, que em uma história cujo título reflete o nome de seu protagonista, caiba a todo o restante do elenco apenas papéis coadjuvantes.

Neste longa, as mulheres roubam a cena por terem mais inteligência, tenacidade, fibra e sagacidade do que todos os homens da trama combinados. E foi aí que o filme me ganhou. Nolan usa um dos maiores heróis da literatura ocidental para zombar do tipo de masculinidade que a cultura insiste em glorificar. Como disse Circe, os homens são movidos pelos próprios apetites — e é exatamente isso que vemos em cena. 

Não há grandeza onde falta empatia. Não há inteligência capaz de compensar a arrogância. Não há liderança sem responsabilidade pelas vidas que se decide colocar em risco. A força que move a maioria dos homens não é coragem, mas impulso; não é razão, mas emoção; não é cuidado, mas ego.

Enquanto isso, as vozes da sensatez vêm das margens: as mulheres, um homem cego, um homem não-branco, um homem trans – e um Espírito Santo personificado por uma mulher negra, que olha com desdém para seu devoto, enchendo-o da vergonha que precisa mudar de lado. Difícil acreditar que seja coincidência. Mais difícil ainda não rir da possibilidade de que um dos filmes mais caros do ano esconda, sob a armadura clássica, um deboche deliciosamente woke.

Eu gostaria muito que existissem mais produções literárias e audiovisuais sobre as mulheres da Odisseia, pois em Atena, Calipso, Circe, Helena de Troia, Penélope e as Sereias estão contidas muitas histórias relevantes para a contemporaneidade. Isso também vale para habitués de maior ou menor divindade no Olimpo, como Afrodite, Hera, Hermafrodito, Métis, Perséfone,  Têmis – e minha personagem favorita do universo grego, Cassandra, que nunca foi deusa, mas cujo dom profético sublinha uma das histórias mais relevantes para o feminismo (talvez mais até do que a de Antígona).

Para isso acontecer, no entanto, antes será preciso mais mulheres escritoras, produtoras e diretoras. Enquanto esse momento não chega (e ele há de chegar, mas não será por Zeus nem outros homens, e sim por nós) vale assistir esse filmaço. 

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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