Miss Espanha, Angela Ponce, a primeira concorrente trans do Miss Universo, na 67ª edição que aconteceu na Tailândia nesse domingo/Foto: FOX via Getty Images

Coluna da Naomi Neri

A mulher mais bonita da Espanha é tratada no masculino

Postado em 18/12/2018, 7:46

A coroa é nossa, apesar de não termos ganhado. Quando Angela Ponce subiu na passarela do Miss Universe 2018, ostentando a faixa da Espanha ela trazia muito mais consigo. Esse não era um concurso para mulheres trans – esse era um concurso de mulheres e Angela foi a primeira de nós a estar lá. Parece banal amigas, mas devo argumentar do quanto não é.

Como já escrevi em um outro texto para esse mesmo portal (confira esse também que está lindo Que Miss Sou Eu? Miss Escuta!) tentei mostrar um contexto de como a dimensão das coisas para nós, pessoas trans, é diferente. O Miss Universo é ápice da idealização feminina, é algo que dita a todas nós o que significa ser bonita. Porém, nós feministas sabemos que o “ser bonita” é algo que não será retificado pra qualquer concurso que seja. Entretanto, quantas representações de mulheres foram necessárias para que se reconhecesse socialmente alguma beleza nelas?

Certa ocasião, Whoopi Goldberg disse em uma entrevista que a primeira vez que viu uma mulher negra na televisão que não representava uma empregada, saiu correndo e gritando pela casa. Seu sonho era possível. Havia um alguém que foi além. O que significa mesmo o concurso Miss Universo para você? Vocês têm ideia que até 2012 nós trans não podíamos nem concorrer pois não éramos consideradas “mulheres de verdade”?

O que Angela fez foi conquistar equidade no concurso de beleza mais importante do mundo. Só isso. Dentro daquele espaço, ela estava representando as mulheres do seu país como todas as outras candidatas. Todas as mulheres espanholas, não só um grupo delas.

Mulheres como eu e ela não somos reconhecidas socialmente como do gênero feminino com mais frequências do que gostaríamos. Tenho certeza que ela já foi tratada no masculino no mais feminino dos seus dias. E que ainda hoje é. E mesmo assim ela esteve aonde nenhuma de nós chegou. Afinal, para nós um título não é melhor do que a oportunidade de poder concorrer a ele.

A coroa é nossa Angela, é de todas nós. Estivemos lá com você e estaremos juntas sempre que uma travesti conseguir o inimaginável espaço da equidade. Minha Miss. A mulher que Miss pelho. Obrigada por todas nós.

De todas as suas irmãs. Com carinho, as travestis.

“No necesito ganar Miss Universo, sólo necesito estar aquí”. Angela Ponce.




Bióloga, pedagoga e estudante de ciências sociais na UFSC, Naomi é pisciana querendo viver o melhor da última encarnação. Transfeminista e ativista LGBT tem um canal no YouTube "NaomiNamulher" pra discutir a demanda popular!
Veja a coluna da Naomi Neri