A atriz e pesquisadora Barbara Biscaro reflete sobre a inanição da esquerda brasileira frente ao autoritarismo/Foto: reprodução

Coluna da Barbara Biscaro

A incapacidade de ousar nas narrativas políticas deu lugar ao horror

Postado em 11/05/2020, 16:48

O artigo recente de Vladimir Safatle é primoroso, coloco aqui para que todas/os tenham acesso. Neste texto ele anuncia o já sabido, que a esquerda como a conhecíamos no Brasil morreu, e é confirmado pelos próprios representantes da esquerda no Congresso, que estão igualmente de olho nas eleições de 2022, e por isso não têm brio de encampar uma luta pelo impeachment já.

A MOROsidade da oposição só demonstra que absolutamente todos ali agem pelo jogo político de manutenção dos seus poderes (menores ou maiores) e não por uma real preocupação do que o país está se tornando ou virá a ser tornar em termos de mortes, caos social e claros indícios de um governo autoritário e violento em curso. A oposição apaga fogo e impede o inominável de forma paliativa, sem perceber que sua omissão por uma postura mais séria e combativa, de união entre os diferentes para afastar o NEFASTO presidente é se tornar cúmplice das loucuras do Bozo e seus seguidores.

Quando vejo figuras como Lima Duarte, Moro, Dória ou Witzel serem celebradas nas redes sociais por colegas que sei que se opõe ao horror que está instalado na nação, eu só lamento o quanto nos faz falta figuras ativas as quais podemos realmente nos orgulhar. A imprensa e os políticos reiteram o cacoete da corrida eleitoral, dando espaço e visibilidade sem fim para nomes que deveriam já ter sido afastadas de seus cargos por quebra de decoro e ingerência de suas pastas há muitos meses.

A oposição dança conforme a música ditada pelo presidente e seu Gabinete do Ódio, apenas reagindo e nunca ditando o compasso.

Um dos erros que deverá ser cobrado da esquerda e da imprensa, no futuro, é de ser tão machista, misógina, homofóbica e gananciosa quanto o Bozo, pois são incapazes de deixar mulheres, homossexuais e negros tomarem-se protagonistas de uma narrativa política de união em pautas realmente revolucionárias no Brasil. Sua incapacidade de ousar em novas narrativas (insistindo em figuras como Lula e Haddad, por exemplo) só evidencia uma perspectiva eleitoreira e demonstra o quanto eles também são atores da necropolítica que tanto se vomita na oposição letrada de hoje.

Um dos exemplos é o quão fácil foi para o Partido dos Trabalhadores queimar Dilma Roussef em praça pública, praticamente escondendo a única mulher presidente que já tivemos, eleita duas vezes.

Investiram na figura de Lula pelo seu carisma, pelo seu potencial messiânico e pela busca das urnas, uma estratégia que conseguiu ser inoculada pela ação de Moro e da própria rede Globo, que agora ironicamente se torna um arauto nacional (apenas porque se viu ameaçada).

Dilma era uma mulher intolerável pelos seus aliados e pelos seus detratores: uma mulher que resistiu à tortura, não carregava o estereótipo de feminilidade, mantinha sua vida pessoal preservada. O machismo se move em meandros quase imperceptíveis: nas marchas das mulheres do ano de 2018, não era a foto de Dilma e a celebração de ter eleito a primeira presidente mulher no país que as militantes do PT empunhavam nas marchas, mas sim a cantilena do “Lula Livre”. A Velha Política necrosou, e como aponta Safatle em seu texto, foi o “estúpido” Bozo que conseguiu impor uma pauta antissistema.

Não entendemos nada. Os movimentos sociais das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos agricultores familiares continuam sendo tratados como narrativas periféricas por uma oposição míope. A incapacidade de dar visibilidade e construir um projeto de país, uma narrativa alternativa a esse horror posto, se deve sim a uma incapacidade de ousar nas narrativas políticas.

Medo de romper a lógica de manutenção dos poderes da velha política, pavor de dar espaço às novas gerações e as novas narrativas que já existem, mas são continuamente abafadas.

Que o coronavírus impôs uma necessidade de refletirmos sobre os modos como produzimos, como nos relacionamos e como construímos as estruturas econômicas e sociais historicamente, isso é óbvio. Mas o machismo, a homofobia e o preconceito racial das nossas classes elitistas se refletem também nos modos como a esquerda vem respondendo a essa crise sanitária e institucional.

Bozo, em sua prática assassina, ousou primeiro. O que essa elite condenava como violência das manifestações de esquerda, revirando os olhinhos (destruir lixeiras, pixar fachadas do comércio, destruir vidraças de bancos privados), agora vê de forma bastante condescendente representantes políticos tirando fotos empunhando armas, promovendo aglomeração social e relativizando as mortes da pandemia de Covid-19. As mudanças radicais as quais ansiávamos estão ocorrendo, porém em uma direção que nunca se poderia imaginar para a nação do carnaval e da alegria.




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
Veja a coluna da Barbara Biscaro