Marlene de Fáveri nos fala sobre como a escrita pode ser revolucionária/Foto: Carolina Maingué

Coluna da Marlene de Fáveri

A escrita é revolucionária – O feminismo nosso de cada dia 

Postado em 21/12/2019, 9:36

O filho que suga teu
peito, mulher,
não sabe do horror que
tu sentes quando
aquele que chega, travado
da pinga, te bate, te chuta,
te chama de  puta,
te rasga e te fode,
tomba de lado, e dorme,
babado.
E tu, mulher,  a
Alma em bagaço,
A carne em trapos, entregas
Teu peito ao pequeno
Que chora.
Tua única lágrima, rola,
E cai…

Escrevi este poema em meados da década de 1980. Minhas angústias, eu as deslizava em papéis em branco, e ali depositava minhas percepções do cotidiano que me cercava; do que via, e lia, e me significava. Eu me indignava com os assédios, os que eu sofrera antes, e ainda sofria; com aqueles que me eram contados em voz baixa, quase como confissão de culpa. Eram tantas as violências psicológicas, físicas, patrimoniais, de gênero, de classe, de raça, étnicas percebidas nas relações de convívio, nas memórias que trazia da vivência no meio rural, de algumas notícias (poucas, por que era tempo que não havia denúncias; quando havia, as mulheres eram as culpadas, e ficava por isso) que me davam repulsa.

Eu ficava muito irada, mas eu não tinha voz; por isso eu escrevia. Queria um mundo sem violências, e pensava em equidade (eu não sabia o significado dessa palavra, ainda); então eu brigava através de versos com fúria. As mulheres não eram ouvidas naquela década; suas vozes eram quase sempre ignoradas, assim como seus direitos mais elementares. Dentre eles, o direito de viver sem medo.

No início da década de 1980, eu era uma estudante e iniciava o curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina (ingresso em agosto de 1979). Recém vinda do interior, filha de camponeses, carregava uma educação para as prendas do lar e a submissão. Na mala, bem me lembro, poucas roupas e muitos sonhos de liberdade! Eu tinha, e tenho, o exemplo de minha mãe, que me disse: “Vai estudar, filha, eu não pude estudar, não tive oportunidade… vai, faz tua vida, estude!”; e eu fui. Adentrei nessa década com voracidade. Em meus guardados, do ano de 1987, encontrei uma frase que sintetiza o que eu pensava: “Teus caminhos, mulher, não são curtos nem leves; são de lutas e disputas”.

Do Feminismo acadêmico, eu nada sabia; durante os quatro anos do curso, não lembro de ter ouvido uma única vez a palavra “feminismo”. Eu passei a ler avidamente o Cadernos do Terceiro Mundo, e foi ali que me dei conta da miséria e das violências às mulheres latino-americanas. E, que eram as mesmas violências que sofriam as mulheres do meu cotidiano, das minhas relações. “Não te escondas, mulher, por detrás das cortinas, lavando latrinas e dizendo amém”, escrevi por essa época. Trabalhava oito horas diárias num trabalho burocrático e me inviabilizava outras relações. Queria protestar, mas não havia espaços, debates. Das lutas políticas, eu acompanhava as manifestações, os discursos dos colegas de classe, e ainda era tempo de Ditadura – meu aprendizado mais potente foi enfrentar baionetas na Novembrada. Nos anos de curso, eu passei e escrever avidamente poemas políticos, de classe, trabalho, imbuída das leituras e discussões; e neles, eu registrava as inquietações sobre as mulheres.

A partir de 1985, formada e trabalhando numa estatal rural de atenção às famílias camponesas (Acaresc), me coube ali, ouvir as mulheres… seus gritos, suas mágoas, seus medos, suas vergonhas, suas marcas de violências. Ouvia, e me indignava; precisava falar, mas não havia escuta; então, escrevia. Em 1988, matriculei-me no curso de especialização em Didática do Ensino Superior (Univali), que previa uma monografia. Ousada, mas ávida de saber (fui a primeira a levantar a mão quando a professora de Metodologia, na disciplina de projetos, perguntou o que tínhamos em mente), disse que eu já tinha tema e queria pesquisar a sexualidade da mulher camponesa de Navegantes, Santa Catarina, onde eu trabalhava. Senti o olhar gélido de espanto e incredibilidade de colegas, seus risos baixos… A professora Salete Mocelin me olhou firme, e disse: “Acho muito bom, eu topo orientar”. Me deu a liberdade de pensar e me ensinou sobre os instrumentos de pesquisa, e lá fui eu entrevistar mulheres. Foi uma catarse; o gravador de fitas grandes ia comigo; e, como me confiavam, pude gravar suas narrativas. Saí impregnada de um feminismo reafirmado pela escuta, nos enfrentamentos com a realidade; com voracidade e furor uterino.  Lembro ainda das expressões na face e no corpo das mulheres, suas frases, cor de seus vestidos, lágrimas ao falarem de si, suas mãos calejadas… Dentre os dilemas, algumas se diziam felizes com o que tinham; falavam das violências, quando não as omitiam nas palavras ou não se permitiam a fala, das de ontem, das de agora, das de sempre. Mulheres jovens, mulheres idosas que carregavam fardos e culpas que não existiam, mas ainda assim as sentiam. Era como se ser mulher já fosse uma predestinação a uma série de violências. Essa monografia nunca foi publicada; hoje, folheando, ainda me embaça o olhar.

Na década de 1980, eram raras as notícias de morte de mulheres na imprensa, embora no ano de 1980, 1.353 mulheres foram mortas no Brasil (dados da Flacso). Mais raras ainda notícias de violência doméstica e sexual; havia um pacto do machismo estrutural de que o privado não era político; ali, ninguém metia a colher. Os crimes dessa natureza, ou saiam exaustivamente na imprensa, como os casos de Araceli, Ângela Diniz, Ana Lídia, Claudia; ou, uma nota policial num jornal qualquer em alguns casos. Estávamos na década da mulher (1975-1985), e as denúncias começavam a fazer parte nos noticiários. Começavam.

Na década anterior, com o fortalecimento dos movimentos sociais e os embates contra a ditadura, ensaiavam-se políticas públicas que favoreciam as mulheres. Pautas específicas sobre a condição da mulher – direitos trabalhistas, à creche, à saúde, sexualidade, contracepção e violência contra a mulher – ensaiavam o que seriam propostas de leis que viriam a ser elaboradas e aprovadas décadas depois. Lembro da polêmica no ano de 1977, quando do atenuante de culpa a Doca Street, o assassino de Ângela Diniz, com o argumento da defesa da honra; sim, ainda era aceito nos tribunais. As lutas das mulheres e a campanha “Quem ama, não mata” levaram à condenação do feminicida (palavra atual), o que veio a constituir-se num marco à reação da sociedade diante dos crimes contra mulheres. A mesma campanha foi levada para a Constituinte de 1988, quando os grupos organizados aprovaram artigos importantes em defesa dos direitos das mulheres.

O assassinato por honra ainda era algo aceitável juridicamente até pouco tempo, mesmo que no código penal estivesse previsto o excludente de ilicitude (que tentam retomar agora, querendo autorizar a morte de homens e mulheres em defesa de alguma honra…). Na década de 1970, matar uma mulher por ser mulher era aceito como crime de honra (e ainda o é, em alguns lugares e culturas). Sendo que “quem ama não mata”, acrescento que quem ama não estupra, não assedia, não machuca, não bate, não desqualifica, não constrange. Quem ama, respeita, considera, cuida, valoriza.

Na defesa e memória de Ângela Diniz, a feminista e colunista da revista Manchete, Heloneida Studart, da data de 26 de fevereiro de 1977, escreveu assim:

Morreu não por ser uma enlouquecedora de homens, pois só enlouquecem os homens que estão em disponibilidade pare endoidecer. Morreu à bala não por ser vestal – pois as vestais acabaram há muito – nem por ser infiel. A fidelidade é um valor discutido e discutível em todos os níveis, como os homens – que jamais a praticaram – estão cansados de saber. Ângela Diniz morreu por ser mulher – e mineira. Na concepção do machismo não acabou o direito medieval de homem matar a mulher quando esta rompe os códigos. A emoção do ciúme e da revolta podem ser naturais e Doca Street – como eu, como o vizinho do lado, como o porteiro da esquina – bem que poderia senti-los. Mas quando a emoção do afeto ferido se reúne a certeza do dogma e a sensação de poder, aí é o fascismo (…). E isto só mudará quando as Ângelas não forem mais condicionadas para ser panteras – e virarem pessoas humanas. Iguais aos homens. (MANCHETE, 26/02/1977, nº 1297, p. 22).

Me perdoem a citação longa; mas ela merece atenção, é datada. Na década de 1970, os temas mais caros ao Feminismo se faziam presentes nas narrativas e denúncias, e que adentram na década seguinte com força e vigor.

Na década de 1980, sob o impacto dos movimentos da década anterior, foram implantadas políticas públicas para favorecer as mulheres, como o primeiro Conselho Estadual da Condição Feminina, em 1983, e a primeira Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher, em 1985, ambos no Estado de São Paulo, conselhos e políticas que se disseminaram nas décadas seguintes por todo o país. Na constituição de 1988, a Carta das Mulheres Brasileiras estruturou propostas, incluindo temas relativos à saúde, família, trabalho, violência, discriminação, cultura e propriedade da terra – foram incorporadas. Também na década, a violência contra a mulher foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um problema de saúde pública.  Estas e outras ações e leis só foram possíveis por conta das lutas, resistências, teimosia, e fúria de mulheres que nos antecederam, e tiveram coragem.

O poema que abre este texto diz de meu jeito de denunciar as violências cotidianas; meus sentidos eram expressos em tintas e em qualquer papel que me caísse à mão. Eu lia sobre os acontecimentos, e os temas sobre violências ainda eram apêndices nas publicações em geral. Sim, havia já uma escrita acadêmica denunciativa, um feminismo furioso militante, um feminismo negro atuante, mas eu não tinha acesso.  Todavia, eu me afirmava feminista nas minhas convicções, na minha condição de mulher num lugar de relações patriarcais, violentas, castradoras de vontades e de opinião. Na década de 1980, não tínhamos palavras ou expressões específicas, como Feminicídio, Lei Maria da Penha, Estatuto da Criança e do Adolescente, nem outras leis específicas.

A palavra feminismo não era comum, e quando dita, vinha imbuída de preconceitos alvejados de desqualificação e ridicularizado pelo machismo estrutural de plantão, através das mídias e da religião, como sabemos. Gênero, à época, era uma palavra absolutamente ligada à gramática, e só. Hoje percebo que falávamos das mesmas coisas:  nos espaços acadêmicos, era o que se pode dizer do início das pesquisas mais consistentes, das denúncias com bases empíricas, e que não chegavam às pessoas fora da academia; eu, com minhas angústias, furiosa, me emborcava escrevendo poemas.

Eu não queria repetir os erros de minhas tias, de minha mãe, de minha avó, de mulheres que eu conhecia e viviam assim, quase se invisíveis, serviam para parir, e cuidar de um marido “na tristeza e na doença, até que a morte os separe”. Em meados da década de 1980, escrevi assim:

Ai de ti, mulher,
Se a voz te faltar
No exato momento
Em que calam tua boca!
Grite mais alto,
Suba no palco,
Tire a coleira
Segure a bandeira,
Empine teus seios
E marche, proteste!

E assim fui me afirmando feminista. Tive o privilégio de poder estudar, não sem dores na coluna, noites insones, poucos recursos, numa universidade pública. E, trago a cor das pessoas incluídas; posso afirmar que, se foi duro para mim, não se compara a outras tantas mulheres negras que sequer chegaram a um banco de escola. Nessa trajetória, em 1987, fui convidada a participar de um grupo de poetas, o Grupo de Poetas e Escritores Mario Quintana, outro privilégio. Ali, encontrei escuta, podia falar e era ouvida por meus pares, curiosamente todos homens – Orlando, Nassau, Júlio, Jean e Carlos. Ali, na Casa da Cultura de Itajaí, Toni Cunha nos acolheu. Passei a escrever compulsivamente, e um papel em branco era sempre um desafio! Dentre meus guardados são milhares de poemas; textos que denunciam as misérias do capitalismo, do machismo, das violências; eles ainda sangram. A arte a e cultura são libertadoras, dignificam o trabalho criativo, e eu pude expressar meus furores.  Eu os guardei,  levei de mudança em mudança (alguém me perguntou o que queria com tanto papel, numa das mudanças).

Na década seguinte, entrei para a graduação em História, e meus interesses e lutas  não mudaram de sentido, mas de forma: passei a escrita acadêmica, onde pude expressar meus argumentos, e a participação política. Mas nunca deixei de escrever poemas. Agora, me encontro com o passado, e encontro meus devires feministas de quando eu já o era, mas não sabia. Foi bom assim. Construí minhas paredes com tijolos de argamassa.

Que farpado muro
(estranho mundo)
É este que nos
Empurra e nos
Corta em sulcos
(à flor da pele)
Quando ousamos
Ultrapassar seus limites?

O que tenho em textos permeia a história de muitas mulheres; são muitas camadas, muitos feixes de violências de um passado que não passa. Hoje, continuo brigando contra os infortúnios vividos por mulheres; não queremos mais violadores, nem agressores, nem matadores. O que queria há quase quatro décadas, eu quero hoje, no tempo presente.

Obrigada! Falar de si é também uma catarse. O Feminismo não tem volta.

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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