Arte: Dani Acioli

Anos de silêncio: jovens denunciam dirigente sindical por estupro, em Aquidauana (MS)

Postado em 18/01/2021, 15:52

Investigado por estuprar a afilhada por dez anos e abusar da irmã dela, o professor de geografia e dirigente sindical foi denunciado novamente pelo estupro de uma jovem ocorrido há 22 anos.

O professor de geografia e dirigente partidário, sindical e de movimentos sociais, Florêncio Garcia Escobar, de 55 anos é investigado pela Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM) de Aquidauana (MS) por estuprar a afilhada, dos 8 aos 18 anos. A violência ocorreu por dez anos, mas só veio à tona em dezembro de 2020, quando a vítima, com 18 anos, relatou o ocorrido à mãe após se deparar com o abusador em uma reunião familiar. A irmã dela, de 15 anos, também relatou ter sido ‘tocada’ várias vezes pelo professor. A repercussão do caso motivou a denúncia de estupro de uma jovem ocorrido há 22 anos.

As jovens irmãs tiveram problemas de depressão, se mutilaram, e a mais velha tentou suicídio em razão da violência sexual, conforme informou a delegada Karen Viana de Queiroz, substituta da Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM) de Aquidauana. Segundo explica, as situações de estupro da jovem de 18 anos ocorreram mais frequentemente dos 8 as 12 anos, “mas ainda tinha abusos esporádicos até a maioridade da vítima”. A última violência aconteceu em outubro do ano passado, quando a vítima mudou de Aquidauana para a capital.

“De fato ele se aproveitava da proximidade e confiança dos pais das vítimas para intimidá-las e deixar claro que eles não acreditariam nelas. O que causaram traumas, inclusive tentativa de suicídio, automutilação e dificuldade em se relacionar”, explicou a delegada sobre a atuação do investigado.

De acordo com Karen, as providências estão sendo tomadas no sentido de realização de diligências, oitivas de vítimas e testemunhas, realização de exames de corpo de delito, além do encaminhamento das vítimas para tratamento psicológico.

“Sabemos que por vezes, após certo tempo, resta apenas a palavra da vítima contra a do autor, pelo fato do estupro ter acontecido há meses ou anos, mas estamos tomando todas as medidas possíveis para levantar os fatos ocorridos de forma mais verossímil”, explica.

A coragem de denunciar

Em 7 de dezembro de 2020, a jovem esteve em Aquidauana, distante 139 quilômetros da capital, junto com uma amiga. Por estar de folga do trabalho, a mãe dela decidiu promover um jantar e convidou amigos e familiares.

Segundo detalha o Portal de Aquidauana, ao ver um dos convidados, que era o padrinho da vítima, a jovem começou a se sentir mal, ficou assustada e se trancou no quarto, aos prantos. A amiga estava com ela e relatou o ocorrido à mãe, que até então não fazia ideia do abuso. Diante dos fatos, no dia seguinte a jovem foi levada de volta para Campo Grande.

A mobilização em torno do caso levou a mais uma denúncia, desta vez por uma mulher de 38 anos. A vítima alega que foi violentada pelo suspeito há cerca de 22 anos, quando tinha 16, durante uma viagem à praia. Como no caso das outras meninas, o professor também era amigo da família dela.

A mulher relatou que durante os anos de 1990, o pai dela integrou a direção de uma instituição na cidade, juntamente com o professor, que passou a se aproximar da família. Na época, logo após ela completar 15 anos, passou a ser assediada pelo educador, que se insinuava, a tocava e chegou até mesmo a se masturbar em frente a ela. 

A violência mais grave ocorreu, em 1998, quando a família fez uma viagem para a praia no Espírito Santo. Na ocasião, todos ficaram em uma casa alugada. Durante um passeio, o grupo foi para o mar, mas a jovem se deu conta de que havia esquecido o protetor solar na casa e retornou, imaginando que não haveria mais ninguém por lá. Contudo, se deparou com o professor.

Aproveitando a situação, já que estava sozinho com ela, o homem a segurou e a estuprou. A vítima conta que ficou sem reação e, logo após a violência sexual, sentiu-se constrangida e suja, motivo pelo qual foi tomar banho. Nesse momento, o professor saiu e a trancou. Só mais tarde foi que os pais dela chegaram. O professor alegou que a trancou porque ela estava ‘aprontando’ muito. 

A vítima tentou argumentar, mas diante da confiança que a família tinha no professor, ela viu que ninguém acreditaria na história dela. Após isso, os assédios continuaram, fazendo com que a jovem rapidamente conseguisse um namorado e se casasse, apenas para sair da casa dos pais e parar e de ver o agressor. Ela só o denunciou após tanto tempo, porque tomou coragem depois de ver que ele era investigado por estupro contra outras meninas.

Organizações feministas exigem ação

O modus operandi do homem que utilizava da amizade das famílias das vítimas para cometer as violências, foi denunciado em posicionamento da Marcha Mundial das Mulheres (MMM). “Sempre se utilizam do mesmo modus operandi: ganham a confiança da vítima, se aproximam das famílias, se tornam amigos e, aparentemente estão acima de qualquer suspeita’’, diz trecho da nota.

A Diversas Feministas de Mato Grosso do Sul, integrante da Rede Nacional de Saúde, também se manifestou em nota na última quinta-feira (14), apontando para o caráter de tortura das violências. “As violências narradas têm características de crueldade e opressão, envolvendo chantagem e cerceamento premeditado que impedia a autodefesa por medo e constrangimento. Tais atitudes vis podem ser caracterizadas como tortura, não somente pelo longo período de violência, mas pela sórdida atuação junto a familiares e sua rede primária impedindo que a violência pudesse chegar ao conhecimento da família, comunidade, sociedade em geral e do Estado, a fim de que pudesse ser garantido o direito absoluto de proteção integral, conforme preconizado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”, explicam no documento.

Leia o texto completo da nota.

Estela Scandola, assistente social e ativista da Diversas, enfatiza a necessidade de um comprometimento das organizações sociais nas quais o dirigente atuava em termos de ações que promovam mudanças culturais. “Simplesmente o desligamento dele das instâncias não é suficiente para reparar os danos causados do ponto de vista da sociedade. Quando a gente começa a nota dizendo ‘com bastante sofrimento’, ou seja, uma violência dessas causa um imenso sofrimento à sociedade, ainda mais porque ele é dirigente sindical, ele não é uma pessoa desconhecida, pelo contrário, e por isso há que ter um posicionamento de reparação de danos. É disso que estamos falando”, defende .

As feministas exigem que as denúncias sejam investigadas com rigor pelas autoridades. “É fundamental que não haja postergação das investigações e nem tampouco descrença no depoimento das meninas”, afirmam.

Entidades sindicais e partidárias se manifestam

Apesar da denúncia ter ocorrido em dezembro, as manifestações das entidades ocorreram somente no mês seguinte, após a repercussão do caso.

Em 13 de janeiro, o Partido dos Trabalhadores emitiu uma nota informando a expulsão do dirigente do quadro dos filiados. Florêncio, que até então era presidente do PT na cidade, foi expulso por ferir o Estatuto da entidade.

A Secretaria de Mulheres do PT/MS disse em nota que o caso já está sendo acompanhado pela justiça e que o órgão está atento a todo o processo. “Tenham a certeza que estamos tomando todos os encaminhamentos necessários internos sobre o referido caso porque não compactuamos com tais atitudes e não seremos cúmplices jamais do silêncio que oprime e mata nossas mulheres. A Secretaria de Mulheres do PT/MS se coloca à disposição para ser parceira em qualquer movimento que nossas companheiras de luta se dispuserem a fazer” diz a nota assinada pela secretária Cristiane Sant Anna.

Florêncio também era Secretário de Administração e Finanças da Central Única dos Trabalhadores do Mato Grosso do Sul (CUT-MS). A entidade comunicou o afastamento do suspeito em 5 de janeiro de 2021: “A CUT enfatiza que este tipo de situação não corresponde aos valores históricos defendidos pela central, de uma sociedade livre de violência contra as mulheres e pelo direito à infância e adolescência plena e segura”.

Em 4 de janeiro, o Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação de Aquidauana-MS (Simted), comunicou o afastamento do investigado, que era secretário de finanças da entidade. Ele é um dos principais líderes da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (Fetems). “Tal afastamento permanecerá enquanto as investigações e demais procedimentos judiciais não forem concluídos. E também manifesta solidariedade às vítimas e familiares de todas as envolvidas”, afirma o Simted.

Era também presidente do Conselho Estadual de Saúde, do qual pediu afastamento sem citar o motivo, apenas destacando se tratar de “interesses particulares inadiáveis”.

Entramos em contato com o investigado, que informou o contato do advogado, mas ainda não tivemos retorno da manifestação de defesa dele.




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