Monica Cunha é coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da ALERJ e fundadora do Movimento Moleque/Foto: arquivo pessoal

A luta das mães que perderam seus filhos para o racismo de Estado

Postado em 10/05/2020, 12:28

Escrevo este texto com a dura missão de ser publicado no dia das mães, data esta que, para a maioria de nós, é de alegria e celebração. Mas infelizmente, para muitas, entre elas, eu, é uma data de tristeza e dor, por não podermos estar com os filhos que tanto amamos e que nos foram ceifados por este Estado racista.

Me chamo Monica Cunha, coordeno, hoje, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ). Mas, antes de chegar neste lugar, fui obrigada a me reinventar, renascer, me recriar. E para isso acontecer, fundei, junto a outras mulheres, o Movimento Moleque, com o intuito de nos tornar visíveis numa sociedade que teima em nos ignorar e violar nossos direitos. Uma sociedade racista!

Este racismo se manifesta de diversas formas. A precarização das políticas públicas de acesso universal, como saúde e educação, a inexistência de políticas efetivas de moradia digna, a falta de oportunidade de trabalho formal, são algumas expressões da desigualdade racial brasileira. Mas a face mais perversa de todas, sem dúvidas, é a desumanização e criminalização da juventude negra, favelada e periférica, que permite a ocorrência de um verdadeiro genocídio de nosso povo.

Sou vítima direta deste genocídio. Meu filho do meio, Rafael da Silva Cunha, foi executado por policiais no Rio de Janeiro, em novembro de 2006. Levou um tiro de fuzil no peito, a queima roupa, quando estava ajoelhado na rua, em plena luz do dia, na frente de várias testemunhas.

Essas circunstâncias só evidenciam como a vida da nossa juventude negra não vale nada e pode ser eliminada, sem nenhum pudor. E as consequências são enfrentadas por nós mães, em especial, e demais familiares. Uma dor enorme, destrutiva e eterna.

Engana-se quem pensa que a dor passa com o tempo. Ela permanece com a mesma intensidade. A minha já dura 13 anos e não diminuiu em nada. O que o tempo nos ajuda a fazer é a conviver com ela e a decidir o que fazer com ela para continuar. Porque precisamos seguir em frente. Com o tempo, percebemos que a convivência e troca de afeto com outras mulheres na mesma situação nos ajuda nessa difícil tarefa.

A sororidade entre mães das vítimas deste Estado é o que nos permite a dororidade, como nos ensina Vilma Piedade, que nada mais é do que fazer do luto a nossa luta, a luta das mulheres negras. E sabemos que a luta de uma não pode ser vitoriosa sem que a da outra também seja, pois é contra a estrutura desta sociedade e deste Estado que lutamos.

Por isso, neste dia das mães em que mães e filhos estarão distantes entre si em razão da quarentena, peço que se lembrem que esta é a realidade de milhares de mulheres, que se repete anualmente. Para nós, a saudade é eterna e a luta, diária.

Juntas, podemos parir um outro país!