A música Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, é uma das mais contundentes críticas sociais da Música Popular Brasileira. Escrita em 1978 para a peça Ópera do Malandro, ela retrata a hipocrisia de uma sociedade que marginaliza uma mulher porque “dá para qualquer um”, mas recorre a ela quando precisa ser salva.

Na canção, Geni é uma prostituta desprezada por todos na cidade fictícia. Ela é alvo de insultos, rejeição e preconceito, mas quando surge a ameaça de destruição – representada pelo imenso zepelim – apenas ela pode evitar a tragédia. 

A cidade que a humilha e a rejeita é a mesma que implora por sua ajuda. Geni aceita, salva todos, mas logo volta a ser alvo de desprezo.

Na nossa sociedade patriarcal, capitalista e racista, os homens valem pelo dinheiro que acumulam, pelos cargos que ocupam e bens que consomem e ostentam. 

Nas apresentações, vomitam seus currículos como medalhas, tentando impressionar as mulheres com títulos e status. E funciona, pois a posição feminina, estruturalmente em desvantagem, nos ensinou a ver nos homens o poder, o dinheiro e a profissão – sempre mais elevada que a nossa. 

Milhares de mulheres ainda reivindicam um provedor, que pague a conta do jantar, o passeio e as despesas pessoais. E, que fique claro, não se trata de um fenômeno individual, onde o coro misógino as chamam de “interesseiras”. As mulheres representam o grande contingente subjulgado, dependente economicamente e  que ganha menos que os homens. 

Mas Geni rompe com isso. Ela não se deixa seduzir pelo prestígio, pelo dinheiro, pelo jantar regado de vinho caro, nem pelo brilho falso das hierarquias. Sua entrega não se curva ao poder, mas se abre ao humano. 

Nos dias de hoje, Geni daria para o produtor cultural, para o artista de rua que vive de criar mundos, para o homem comum que chega com simplicidade. Mas não daria para o grande empresário, o advogado de renome, o desembargador com contatos, o empresário de terno e gravada na sua lamborghini, nem para o magnata que acredita que o mundo é dele só porque tem dinheiro e fama.

Geni dá para qualquer um, menos para aqueles que confundem desejo com posse, e acreditam que o corpo pode ser comprado e exibido como mais um troféu. 

Geni dá para o homem liso, sim. Desses que saem de casa e se sentam num parque, com seu pão com mortadela e sua farofa. Geni seria esculachada até mesmo pelas feministas: “Joguem pedra na Geni, ela dá para o Jurandir”. 

Geni dá para qualquer um. Dá porque quer, porque escolhe, porque sua liberdade não cabe em cofres nem em cargos. Dá ao homem simples, ao que chega sem títulos, ao que não veste medalhas. Dá porque reconhece humanidade, não hierarquia. 

Mas não dá ao que acredita que o poder compra tudo, a compra. Não dá ao que confunde prestígio com valor. Não dá ao que pensa que o “não” é impossível diante de sua posição. Esse, Geni recusa. Recusa porque sua entrega é escolha, não obrigação. Recusa porque sua dignidade não está à venda.

E, quando o poderoso descobre que ela se deu a outro, de “menor prestígio”, sua fúria revela o ridículo: que ele foi rejeitado apesar do cargo, da conta no banco, do nome, da profissão. Geni riu de tudo. 

Que fique claro, o “qualquer um” que a Geni dá, não é o gigolô, não é o malandro, não é o preguiçoso. Ele é o fracassado do capitalismo, o que não enfiou a cara na corrida predatória por sucesso e reconhecimento. Não é o homem que apresenta com aquilo que possui, não o que é. 

Ele não tem carrão, não usa roupa de marca, não conhece Nova York. Prefere festa popular, feira de bairro, roda de samba. É meio solitário, como Cartola, porque o mundo é um moinho para quem escolhe viver com alma. E é exatamente esse homem para quem a Geni dá, com quem ela goza, grita, se deleita. 

Geni é livre. Livre para dar a quem quer, menos a quem acredita que pode comprá-la.

Sua ode é um canto contra a arrogância, um hino à autonomia, um poema que lembra: o corpo é território de escolha, e a escolha é sempre dela.

Única e exclusivamente, baseada no seu desejo de relações autênticas, sem mediação do dinheiro. 

APOIE O JORNALISMO INDEPENDENTE


Fazer uma matéria como essa exige muito tempo e dinheiro, por isso precisamos da sua contribuição para continuar oferecendo serviço de informação de acesso aberto e gratuito. Apoie o Catarinas hoje a realizar o que fazemos todos os dias!

CONTRIBUA COM QUALQUER VALOR NO PIX
  • Fabiane-Albuquerque

    Feminista negra, escritora e doutora em sociologia. Autora dos livros Cartas a um homem negro que amei (Editora Malê) e...

Últimas