A ofensiva antitrans não está restrita a um único campo. Ela aparece no Legislativo, no Judiciário, na geopolítica global, nas universidades, nas políticas públicas, nas disputas sobre infância, saúde, esporte, educação e direitos. Também se manifesta na tentativa de substituir o reconhecimento das identidades por marcadores biológicos cada vez mais restritivos.

São estratégias diferentes, mas que se encontram em um mesmo movimento: limitar o reconhecimento das pessoas trans, enfraquecer nossas proteções e reorganizar direitos a partir da negação da nossa existência.

É nesse cenário que a retomada da publicação e circulação de livros antitrans precisa ser compreendida. A chegada ao Brasil de obras como Trans: When Ideology Meets Reality, de Helen Joyce, pode parecer uma novidade editorial, mas, para quem acompanha essa ofensiva, seus argumentos não trazem absolutamente nada de novo.

O que muda é o formato e o alcance: ideias que já circulam em campanhas, projetos de lei, ações judiciais, debates acadêmicos e disputas sobre políticas públicas passam a ganhar as páginas de um livro, uma tradução, um selo editorial e uma nova porta de entrada para o debate público.

É a partir desse lugar que vale a pena colocar o livro de Helen Joyce em diálogo com Enemy Feminisms: TERFs, Policewomen, and Girlbosses Against Liberation, de Sophie Lewis. Porque, se uma obra chega ao Brasil reivindicando autoridade para falar sobre pessoas trans, mulheres, feminismo e políticas públicas, precisamos perguntar não apenas o que ela diz, mas que projeto político suas ideias ajudam a construir, quais fronteiras produzem e a serviço de quem elas operam.

Feminismo trans-excludente e a disputa sobre direitos trans 

Há livros que chegam para confirmar aquilo que já pensamos. Outros nos obrigam a reorganizar as perguntas. A obra  de Sophie Lewis pertence à segunda categoria. O livro parte de uma provocação que deveria ser simples, mas ainda incomoda parte do movimento feminista: nem todo feminismo é necessariamente emancipatório. 

Ao recuperar diferentes momentos da história, Lewis mostra como determinadas correntes feministas estiveram (e seguem) associadas ao colonialismo, ao racismo, ao nacionalismo, ao punitivismo, ao capitalismo e, mais recentemente, à exclusão de pessoas trans.

O que torna a obra especialmente interessante é que Lewis não se limita a afirmar que essas posições não são “feminismo de verdade”. Ela faz uma pergunta mais incômoda: o que esses feminismos produzem na prática? Quem protegem? Quem excluem? Que estruturas de poder fortalecem? Que formas de violência conseguem justificar quando passam a falar em nome das mulheres? 

Essa chave de leitura é fundamental para compreender o debate atual sobre os feminismos trans excludentes e também para olhar criticamente para as obras que têm chegado ao Brasil com a pretensão de explicar a chamada “questão trans”.

É impossível ler Enemy Feminisms sem pensar em Trans: When Ideology Meets Reality, obra que apresenta uma crítica ao ativismo trans e que busca circular no Brasil com apoio e articulação de setores e entidades antitrans. Ambos os livros, de autoras britânicas, fornecem bons exemplos de como a literatura também se constitui como um campo onde as políticas antitrans têm disputado espaço para produzir e disseminar suas narrativas.

Como discursos antitrans transformam pessoas trans em ameaça 

O livro de Joyce se apresenta como uma investigação sobre os efeitos do já conhecido espantalho da “ideologia de gênero” e sobre supostos conflitos entre direitos trans e direitos das mulheres. O problema é que essa construção parte justamente daquilo que deveria estar em disputa: a ideia de que reconhecer a existência, a identidade e os direitos das pessoas trans necessariamente ameaça as mulheres cisgêneras.

Essa inversão, além de perversa, é politicamente importante. Em vez de partir das experiências concretas das pessoas trans, Joyce, assim como Janice Raymond, constrói uma narrativa na qual somos frequentemente apresentadas como um problema, risco ou ameaça. Nossa autodeterminação é tratada como ideologia, o reconhecimento da identidade é transformado em ameaça e políticas de proteção passam a ser pensadas a partir da exclusão. 

Como travesti e ativista, não me interessa responder a esse tipo de obra apenas com indignação. Ela é legítima, sobretudo quando nossas vidas são transformadas em objeto de suspeita, mas não é suficiente. É preciso disputar o terreno político e intelectual no qual essas narrativas pretendem se estabelecer como “bom senso”.

É justamente aí que Sophie Lewis se mostra mais interessante e atual. Sua pergunta poderia ser obrigatória diante de qualquer discurso apresentado como defesa das mulheres: proteção para quem, contra quem e através de quais mecanismos de poder? A história apresentada por Lewis demonstra que não basta reivindicar a proteção das mulheres para produzir uma política feminista emancipatória. 

Mulheres brancas já reivindicaram direitos enquanto defendiam a supremacia racial. Feminismos já foram mobilizados para justificar políticas coloniais. A defesa das mulheres também já esteve associada ao encarceramento, ao controle da sexualidade, ao nacionalismo e ao capitalismo. O problema, portanto, não está apenas na intenção de quem fala, mas também nos efeitos políticos daquilo que se defende.

É por isso que a disputa em torno das pessoas trans precisa ser analisada para além da ideia de que estamos diante de uma simples divergência teórica entre mulheres. Quando se tenta reorganizar políticas públicas exclusivamente a partir do “sexo” atribuído ao nascimento, quando se nega a identidade de pessoas trans ou se pretende restringir nosso acesso a direitos, espaços e políticas de proteção, não estamos diante de uma discussão meramente semântica. 

Estamos diante de uma disputa sobre políticas de eliminação tendo como alvo quem pode ser reconhecida pelo Estado, quem pode definir a própria identidade e quem terá sua existência considerada legítima.

Existe, inclusive, uma contradição importante no projeto de trazer Trans para o Brasil por entidades abertamente antitrans. A obra pretende se apresentar como defesa das mulheres e como crítica necessária ao ativismo trans, mas essa suposta defesa parte da construção artificial das pessoas trans como ameaça às próprias mulheres que o feminismo deveria proteger. 

É uma operação política conhecida: transformar um grupo minoritário em ameaça e, depois, apresentar sua exclusão como medida de proteção. A pergunta que permanece é simples: que tipo de feminismo precisa transformar mulheres trans em ameaça para reafirmar a existência das mulheres cis?

Durante o lançamento do livro Trans no Rio de Janeiro, Clarice Saadi, diretora da Mátria (entidade de lobby antitrans no Brasil), deixou claras suas intenções em resposta ao jornalista Jean-Mathieu Albertini, do jornal MEDIAPART: “Gostaríamos de ter outras prioridades, mas não podemos proteger as mulheres enquanto qualquer homem puder declarar-se mulher.”

Esse é um dos limites centrais da obra de Joyce. Ela não consegue escapar de uma lógica que busca controlar a narrativa e se apresentar como expressão de um “verdadeiro feminismo legítimo”, ao mesmo tempo em que dissemina a ideia de que a existência trans seria um problema a ser enfrentado. 

E isso produz outra contradição: ao afirmar que está defendendo as mulheres contra uma suposta “ideologia”, contribui para uma política que pretende limitar justamente aquilo que o feminismo historicamente reivindicou como fundamental: a autonomia sobre o próprio corpo, a possibilidade de nomear a própria experiência e o direito de não ter nossas vidas determinadas por instituições externas.

É aqui que Enemy Feminisms ganha força. Lewis não trata o feminismo trans-excludente (ou essencialista) como um fenômeno isolado, mas o coloca em uma história mais ampla de correntes que, em determinados contextos, transformaram a defesa das mulheres em instrumento de exclusão. 

Isso não significa dizer que todas as feministas trans-excludentes sejam racistas, fascistas, colonialistas ou nacionalistas. Significa reconhecer que determinados argumentos podem compartilhar estruturas, estratégias e formas de produzir fronteiras que em muitos momentos podem ser borradas, e em outros nem tanto.

Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes do livro para o debate brasileiro. Não precisamos aceitar que o feminismo seja uma espécie de certificado automático de legitimidade política. Uma pessoa pode se declarar feminista e ainda reproduzir racismo, colonialismo, punitivismo ou transfobia, e defender ideais que se aproximam da eugenia. 

Ser feminista não imuniza ninguém contra a reprodução de relações de poder. Por isso, a pergunta mais importante não é quem tem o direito de usar a palavra feminismo, mas qual projeto de sociedade está sendo construído em seu nome.

Livros também são instrumentos de disputa política 

Essa disputa também acontece nas estantes. Livros são instrumentos de disputa política. Eles produzem vocabulários, organizam argumentos, conferem aparência de legitimidade acadêmica ou intelectual a determinadas posições e podem contribuir para transformar preconceitos em políticas públicas. 

Temos visto um avanço também sobre essa produção vinda sob a perspectiva antitrans.  Por isso, precisamos prestar atenção não apenas ao conteúdo dessas obras, mas também às redes que as promovem, traduzem, publicizam e tentam inserir no debate brasileiro. 

Além da escolha dos selos editoriais, é preciso encarar a dimensão mercadológica e algorítmica dessa ofensiva. A chegada dessas obras não é fruto do mero interesse público espontâneo, mas de campanhas coordenadas de pré-venda, mobilizações em redes sociais e estratégias digitais que instrumentalizam os algoritmos de grandes plataformas de e-commerce

Ao inflar a visibilidade de um título antes mesmo do debate público se estabelecer, cria-se uma falsa sensação de consenso e uma autoridade de mercado artificial que passa a figurar nas estantes das livrarias como “leitura essencial”, naturalizando preconceitos antes mesmo que o leitor abra a primeira página.

Ideias transfóbicas precisam ser confrontadas

Mas existe um erro que não podemos cometer: imaginar que a melhor resposta seja impedir que essas ideias circulem. Ideias transfóbicas precisam ser confrontadas, não escondidas. E, para confrontá-las, precisamos conhecê-las. 

É fundamental ler obras como Trans, identificar suas premissas, contradições, omissões e consequências políticas. Precisamos conhecer os argumentos mobilizados contra nossas existências para poder desmontá-los com evidências, memória, experiência e produção intelectual própria.

Ao mesmo tempo, precisamos fazer circular outras obras. Livros que produzam contranarrativas. Pesquisas que enfrentem o essencialismo biológico. Produções de pessoas trans. Feminismos antirracistas, transfeministas, anticoloniais, contracoloniais, e abolicionistas. Conhecimentos produzidos a partir das nossas próprias experiências, de olho no sul global. 

Não podemos deixar que uma obra transfóbica importada chegue às estantes e ocupe sozinha o lugar de “livro que explica a questão trans”. Se eles publicam, nós lemos. Se eles argumentam, nós respondemos. Se eles produzem narrativas sobre nós,  produzimos as nossas.

Para mim, Enemy Feminisms é uma leitura muito mais interessante para compreender o presente do que simplesmente importar para o Brasil uma obra como Trans. Não porque Lewis seja uma autora trans ou porque precisamos concordar integralmente com tudo o que ela escreve, mas porque ela oferece ferramentas para compreender criticamente aquilo que está acontecendo diante de nós. 

Enquanto Trans constrói grande parte de seu argumento a partir do que já tem sido denunciado como uma estratégia do campo antigênero assimilado pela ultra-direita: a suspeita sobre pessoas trans, Lewis desloca o foco para as estruturas de poder que permitem que determinados feminismos se tornem excludentes. Essa diferença é fundamental.

O debate brasileiro precisa de mais análise e menos pânico moral. Precisa compreender como discursos sobre “sexo”, gênero, segurança, proteção e direitos das mulheres vêm sendo mobilizados para produzir políticas de perseguição e exclusão. É preciso observar quem financia, organiza, traduz, publica e divulga essas narrativas, mas também quem se beneficia dessa nova ofensiva contra pessoas trans.

Transfeminismo e produção intelectual trans no Brasil 

Também precisamos reconhecer que a experiência brasileira não é uma simples extensão da disputa britânica. Temos uma história própria de travestilidade, resistência, violência, organização política e produção de conhecimento que não pode ser apagada pela importação de categorias produzidas no Norte Global. 

Em muitos aspectos, nossas conquistas estão à frente das de países que se apresentam como mais desenvolvidos, resultado de décadas de luta dos movimentos trans e da construção de mecanismos importantes de proteção e garantia de direitos. É justamente esse acúmulo que precisa ser compreendido, defendido e aprofundado. 

No fim, Sophie Lewis nos oferece uma provocação indispensável: não basta perguntar se uma política se apresenta como feminista. Precisamos perguntar se ela amplia ou restringe a liberdade, se rompe ou reforça hierarquias, se produz proteção ou controle, se amplia direitos ou cria novas fronteiras para decidir quem merece ser reconhecida.

Para responder a essa investida, é preciso visibilizar a robusta produção intelectual e política que já floresce no Brasil e no Sul Global. Obras e reflexões de pensadoras como Megg Rayara Gomes de Oliveira, Maria Clara Araújo, Letícia Nascimento e Luma Nogueira de Andrade, para citar apenas algumas, já oferecem formulações consistentes sobre transfeminismo, decolonialidade e interseccionalidade. 

São saberes produzidos na carne e na urgência da realidade brasileira, capazes de desmantelar o essencialismo biológico e demonstrar que a garantia da cidadania trans não retira direitos de ninguém, e sim  expande a própria democracia.

Um feminismo que precisa excluir mulheres trans para proteger mulheres cis não está apenas discutindo gênero (ou “sexo”). Está produzindo uma política excludente de fronteira. E talvez seja justamente por isso que a obra de Lewis seja tão importante agora. Ela nos lembra que o feminismo não deve ser avaliado apenas por quem fala em seu nome, mas pelo mundo que ajuda a construir.

Para nós, mulheres trans e nossas aliadas feministas negras e interseccionais, essa não é uma discussão abstrata. É uma disputa sobre existência, cidadania e futuro. Por isso, precisamos mapear e ler, inclusive aquilo que nos agride.

Precisamos conhecer os argumentos que pretendem nos excluir e compreender seus objetivos para poder enfrentá-los. E precisamos fazer com que outras obras também circulem, especialmente aquelas produzidas por pessoas trans e por feministas comprometidas com uma perspectiva verdadeiramente emancipatória.

Não basta denunciar ou mesmo ignorar a transfobia quando ela chega às livrarias. Precisamos disputar as estantes, as bibliotecas, as universidades, os espaços de formação e o imaginário social. Precisamos impedir que narrativas transfóbicas que promovem segregação e violência circulem sem resposta, sem crítica e sem contranarrativas. Porque também é pela produção e circulação do conhecimento que se disputa o direito de existir.

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    Militar antifascista, sargenta da Marinha brasileira, Travesti, feminista afrodescendente. Presidenta da Associação Naci...

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