Estamos no mês do orgulho e talvez seja um bom momento para refletirmos sobre o perigo que as pessoas trans supostamente representam para a sociedade. Afinal, há anos ouvimos que somos uma doença, um desvio moral, um crime contra a humanidade, uma ameaça. Uma ameaça às crianças, à família, à moral, à ciência, à religião, ao esporte, à segurança das mulheres, à ordem social e, mais recentemente, à própria democracia. A lista de espantalhos muda conforme os interesses de quem a produz, mas a acusação permanece a mesma: existimos como um problema a ser enfrentado.

Mas e se a pergunta estiver errada? E se o verdadeiro incômodo não estiver nas pessoas trans, mas naquilo que a nossa existência expõe?

Vivemos em sociedades ocidentais construídas sobre estruturas coloniais, binárias e profundamente influenciadas por concepções criacionistas que se apresentam como naturais, imutáveis e universais. Durante séculos, aprendemos que existem apenas dois sexos, dois gêneros, dois destinos possíveis e duas formas legítimas de ocupar o mundo. Aprendemos que a biologia determina quem somos, que a identidade deve corresponder perfeitamente ao corpo e que qualquer experiência que escape a essa lógica representa uma falha, um erro ou uma ameaça à ordem natural das coisas.

Para sustentar essa visão, selecionam-se cuidadosamente argumentos científicos, religiosos, filosóficos ou morais que confirmem esses essencialismos e crenças já estabelecidas. Não se trata necessariamente de uma busca pela verdade, mas pela manutenção de uma determinada ordem. Uma ordem que oferece conforto e até segurança para alguns porque organiza o mundo em categorias aparentemente estáveis, mesmo que a realidade humana seja muito mais complexa do que esses esquemas permitem admitir.

Talvez seja justamente aí que resida o desconforto. Nossa existência se torna uma ameaça porque desafia a ideia de que identidade, corpo, desejo, pertencimento e experiência humana podem ser reduzidos a fórmulas imutáveis e engessadas.

Ela revela que muitas das certezas que aprendemos a tratar como naturais são, na verdade, construções sociais, culturais e históricas que vão sendo moldadas pelo contexto e tempos em que passam a existir e serem pensadas. 

E poucas coisas são mais perturbadoras para uma sociedade do que alguém que demonstra, simplesmente vivendo, que aquilo que parecia inevitável trata-se de  uma construção histórica. Ganharam voz junto à ascensão da extrema direita e de um contexto em que as pessoas têm se tornado mais conservadoras, aqueles que insistem em apresentar pessoas trans como uma ameaça. A narrativa disseminada massivamente por campanhas de desinformação se repete em discursos políticos, púlpitos, grupos de whatsapp, campanhas morais, programas de televisão e publicações nas redes sociais. 

Em geral, as ideias são as mesmas, com algumas modulações e ajustes sobre os argumentos, e há uma constância entre os porta-vozes, e até os contextos históricos, mas permanece a tentativa de associar a nossa existência a algum tipo de perigo social. Depois de anos convivendo com pessoas trans, ouvindo suas histórias, compartilhando suas dores, sonhos e estratégias de sobrevivência, cheguei a conclusão de que o único risco que elas  oferecem é o de existir e viver.

Mas não qualquer vida. Não uma vida moldada para atender expectativas alheias. Não uma vida condicionada à autorização do Estado, da religião, da família ou dos costumes. O risco que assumimos é o de viver a nossa verdade, mesmo quando o preço dessa decisão é alto. E frequentemente ele é.

Aprendemos  muito cedo que a autenticidade pode custar afeto, oportunidades, segurança e pertencimento. Muitas enfrentam rejeição familiar, evasão escolar, exclusão do mercado de trabalho, violência institucional e dificuldades de acesso a direitos básicos. Outras convivem diariamente com o medo da agressão, do constrangimento público, da humilhação ou da simples impossibilidade de existir em paz. E tantas sequer ousam assumir suas verdade por estarem com medo. 

Em muitos lugares do mundo, a própria identidade trans segue sendo crime e tornou-se alvo de perseguições organizadas, legislações restritivas e campanhas políticas construídas sobre o pânico moral. E essas estratégias têm como alvo impedir que essas pessoas vivam livremente em seus próprios corpos e que possam ter voz a ponto de promover, a partir de suas existências, a prova inconteste de que vale a pena viver a própria  verdade.

Vivemos um momento histórico em que setores conservadores internacionais transformaram essa identidade  em um dos principais alvos de mobilização geopolítica, com investimentos milionários e estruturas internacionais de financiamento voltadas à promoção de campanhas antitrans, propagandas pautadas em pseudo ciência, narrativas falsas ou manipulação da realidade, com o objetivo de construir um inimigo que deve ser neutralizado a todo custo. 

Do Reino Unido aos Estados Unidos, da Europa à América Latina e a outras regiões do planeta, temos assistido com completo horror ao crescimento de agendas restritivas e iniciativas políticas que buscam restringir direitos, limitar o reconhecimento jurídico das identidades trans, censurar debates sobre diversidade e reforçar visões rígidas sobre gênero e sexualidade. Não se trata de um fenômeno isolado. É parte de uma disputa mais ampla sobre liberdade, democracia e pluralidade que pretende erradicar a diversidade do campo público.

As campanhas antitrans raramente se sustentam em evidências concretas. A figura de um suposto homem cis agressor “disfarçado” de mulher é transformada em metáfora para todas as mulheres trans; procedimentos médicos amplamente regulados passam a ser descritos como experimentos e intervenções indiscriminadas em crianças; transição de gênero passa a ser vista como crime contra a humanidade; e situações excepcionais são utilizadas para justificar restrições generalizadas de direitos. 

O objetivo não é enfrentar problemas reais ou construir mecanismos eficazes de proteção às mulheres e às infâncias, mas produzir desconfiança sobre a legitimidade da existência trans. Não por acaso, o foco recai quase sempre sobre mulheres trans e travestis, retratadas como “homens infiltrados”, potenciais agressores ou ameaças permanentes às mulheres cis; enquanto homens trans são vistos como mulheres vítimas do patriarcado que desejam fugir da misoginia e ocupar um lugar de “conforto” (na masculinidade). 

Ao deslocar a discussão das políticas públicas com base em dados reais e a realidade concreta para o campo do medo e da suspeição, essas campanhas revelam seu verdadeiro propósito: não proteger pessoas, mas impedir o reconhecimento social, jurídico e político das identidades trans.

Nesse cenário, cada pessoa trans que decide existir publicamente realiza um ato que vai muito além da afirmação individual. Sua existência desafia a ideia de que algumas vidas precisam de permissão para serem vividas. Sua presença questiona sistemas construídos para transformar diferenças em desvios e identidades em ameaças. Sua trajetória expõe os limites de uma sociedade que muitas vezes prefere a conformidade à liberdade. Talvez seja justamente isso que provoque tanto desconforto, ao ponto de que tem se tornado aceitável atacar pessoas trans publicamente.

Por outro lado, a coragem de uma pessoa trans não reside apenas na transição de gênero. Ela está, sobretudo, na decisão cotidiana de negar o que lhe foi imposto e continuar existindo, apesar das tentativas de apagamento. Está em reivindicar dignidade quando a exclusão é apresentada como norma política. Está em ocupar com qualidade os espaços dos quais se esperava sua ausência e seu silêncio. Está em recusar uma conformidade confortável imposta pela cisgeneridade compulsória para abraçar uma verdade que pode ser difícil, mas que é genuína.

Por isso considero que o risco assumido pelas pessoas trans não é apenas uma condição de sobrevivência. É também uma potência política. É uma demonstração concreta de que a liberdade não nasce de concessões, da condescendência e aceitação dos outros, mas da capacidade de reivindicar quem somos mesmo diante da resistência.

É a prova de que a dignidade humana não pode depender de autorização. E talvez essa seja uma das maiores contribuições que a experiência trans oferece ao mundo.

Porque a vigilância sobre a liberdade não atinge apenas essa população. Mulheres cisgêneras enfrentam o controle sobre seus corpos. Pessoas negras enfrentam estereótipos que limitam suas possibilidades de existência. Pessoas com deficiência desafiam padrões de normalidade impostos socialmente. Jovens enfrentam expectativas rígidas sobre quem devem ser. Homens e mulheres, independentemente de sua identidade de gênero, muitas vezes passam a vida aprisionados por normas, medos e papéis que nunca escolheram. Em diferentes escalas, milhões de pessoas conhecem a sensação de serem observadas, julgadas ou policiadas por ousarem existir fora do esperado.

Talvez por isso a experiência trans vivida pública e abertamente dialogue com algo tão profundamente humano. Porque ela revela que a reivindicação de uma liberdade nunca foi condição dada, mas uma construção permanente que exige coragem para enfrentar a suspeição, o julgamento e as tentativas constantes de alijamento social. Em alguma medida, as pessoas conhecem a pressão de não corresponder a expectativas que não escolheram. 

A diferença é que pessoas trans tornam esse conflito visível e transformam essa busca por si mesmas em um ato público de resistência. E ao insistirem em existir apesar das normas que procuram delimitá-las, expõem o quanto a liberdade incomoda aqueles que aprenderam a confundir conformidade com ordem e obediência com pertencimento.

Assim, o verdadeiro perigo das pessoas trans não está em ameaçar a sociedade, mas em revelar que outra forma de viver é possível.

Em mostrar que a autenticidade pode ser mais poderosa que o medo e que nenhuma ordem social é tão inevitável quanto parece quando alguém decide deixar de pedir licença para existir. 

Talvez seja essa a contribuição mais profunda dessa experiência: não oferecer respostas prontas, e sim  despertar perguntas que muitas pessoas passaram a vida evitando. Quem eu seria se não tivesse medo? Quanto das minhas escolhas realmente me pertence? O que deixei de viver para corresponder às expectativas dos outros?

Por isso, quando uma pessoa trans decide existir em sua plenitude, ela faz mais do que reivindicar um direito individual. Sua trajetória amplia os horizontes do que a sociedade é capaz de imaginar para si mesma e nos lembra que a liberdade existe, ainda que tenha custos elevados. E pode ser  justamente esse o risco que representamos: mostrar que uma vida vivida com autenticidade pode ser mais forte do que as normas que tentam contê-la.

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  • Bruna G. Benevides

    Militar antifascista, sargenta da Marinha brasileira, Travesti, feminista afrodescendente. Presidenta da Associação Naci...

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