Na madrugada de 28 de outubro de 2025, as favelas do Complexo do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, amanheceram sitiadas. O governo estadual chamou o que aconteceu de “a maior operação da história do Rio”; mas a história, que não se curva à propaganda, já registrou o evento como a maior chacina policial do país — mais de 130 vidas interrompidas em um único dia, todas sob os mesmos signos marcadores: negras, pobres, periféricas.

O país acordou diante do horror — da necropolítica pública. Pegando emprestado o conceito formulado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, trata-se do poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer.

Mbembe argumenta que o exercício da soberania moderna não se limita ao controle sobre a vida, mas que ele se realiza, acima de tudo, na administração da morte. Ou seja, o Estado exerce seu domínio criando zonas de morte — espaços onde certas populações são expostas sistematicamente à violência, à precariedade e ao extermínio.

O país e o mundo assistiram, nestes tristes dias, imagens de corpos estendidos nas ruas da sua capital mais simbólica, helicópteros atirando sobre telhados, mães gritando por filhos desaparecidos. A carnificina — ocorrida às vésperas da COP30 e do Mês da Consciência Negra — inscreveu o Brasil nas manchetes internacionais, e o olhar estrangeiro, ainda que atravessado por exotismo, traduziu a barbárie com precisão.

O mundo narrou o Brasil como o país que atira contra si mesmo

O The Guardian afirmou: “Isto foi um massacre, não uma operação: a favela em choque após a operação policial mais letal do Rio”; o New York Times escreveu: “Dezenas de mortos na operação policial mais letal do Brasil em décadas”; a BBC News chamou de “a operação policial mais letal do Brasil”; o El País afirmou que a ação “semeia cadáveres no Rio de Janeiro”; e a La Repubblica descreveu “cadáveres alinhados nas ruas das vítimas da megaoperação antidrogas”. 

A Reuters resumiu, em seu podcast global: “Cadáveres em fila nas ruas do Rio de Janeiro após a operação policial mais letal da história do Brasil” . Na Argentina, El Clarín levantou: “No es Gaza, es Brasil”: los videos y las fotos más impactantes en enfrentamientos narcos-policías en Río de Janeiro” .

Em nota, a Anistia Internacional Brasil descreveu o óbvio — e, ao fazê-lo, nomeou o que o Estado insiste em disfarçar:

“Sob o discurso da ‘segurança pública’, instala-se o terror, o medo e a perda — tudo em nome de uma política que escolhe quem vive e quem morre. A morte não pode ser tratada como política pública. Segurança se constrói com direitos, dignidade e compromisso com a vida e não com sangue derramado.” 

A ONU Brasil, em sintonia diplomática, alertou: “O uso da força em operações policiais deve respeitar as leis e normas internacionais de direitos humanos”. Mas as instituições internacionais ainda falam de fora do corpo — e é nas vozes das mulheres negras brasileiras que o horror encontra tradução afetiva e política.

Uma expressão do terror racial

O Geledés — Instituto da Mulher Negra não hesitou ao descrever que  “o massacre no Rio de Janeiro é expressão de um terror racial”. A Coalizão Nacional de Mulheres sintetizou o que está em jogo, como  “a operação escancara a urgência de um novo pacto ético com a vida”. Enquanto a Marcha Mundial das Mulheres publicou uma nota de repúdio à necropolítica e à militarização da segurança. 

No portal Terra, uma  frase captura a dimenesão desse  luto: “Há mães que não aguentam a dor e morrem também”. Já no Puta Peita, destaca-se o luto ativo das mães negras — esse gesto paradoxal de seguir vivendo como resistência: “As mães negras que enterram filhos assassinados pelo Estado transformam o luto em política, e o amor em forma de revolta.” 

Essas perspectivas, costuradas na urgência, endossam a genealogia da recusa, tradição tipicamente feminista — e fazem bem o que o Estado faz mal: equalizar o valor das vidas.

Juliana Borges condensou a verdade que a política insiste em negar:

“O Estado é a própria ameaça e administra a vida e a morte segundo critérios raciais, econômicos e territoriais. Quando envia milhares de agentes fortemente armados para invadir comunidades, busca reafirmar uma ‘ordem clara’: a democracia existe apenas para alguns e é preciso matar muitos para continuar parecendo possível.” 

E de dentro das favelas, MC Martina pediu o que o país lhe deve há séculos: “Peço a vocês, enquanto sociedade civil, que olhem para nós, moradores do Complexo do Alemão e Penha, com cuidado e atenção.” 

O governo federal demonstrou maturidade

Enquanto o governador do Rio, Cláudio Castro, chamava a operação de “sucesso”, o presidente Lula enquadrava o desastre dentro da gramática institucional, afirmando que  “Não podemos aceitar que o crime organizado continue destruindo famílias, oprimindo moradores e espalhando drogas e violência pelas cidades. Precisamos de um trabalho coordenado que atinja a espinha dorsal do tráfico sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco.” 

O presidente também citou a PEC da Segurança Pública (PEC 18/2025), proposta pelo governo federal como instrumento de coordenação das polícias — que, como lembrou o colunista Bernardo Mello Franco no podcast O Assunto, foi rejeitada por Castro em nome da “autonomia estadual”. Quando a crise veio, o governador passou a culpar Brasília. 

Na mesma edição do podcast, Ricardo Balestreri, coordenador do Núcleo de Urbanismo Social e Segurança Pública do Insper Cidades, reiterou: “O senso comum acredita em bravata (…) as pessoas estão há quarenta anos ouvindo isso e votando nessa gente incompetente, perversa, e de má-fé. O Brasil tem que aprender a não fazer mais isso, a gente tem que aprender a votar melhor também no campo da segurança pública”. 

Parafraseando a pesquisadora Eliara Santana, o governo federal demonstrou maturidade institucional ao não responder às provocações do governador do Rio de Janeiro nem se deixar arrastar para uma disputa retórica.

Optou por uma postura de coordenação e diálogo: convocou reunião, na qual o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, assumiu a condução política da crise e instituiu o Escritório de Combate ao Crime. Diante disso, Cláudio Castro foi constrangido a participar de forma civilizada das discussões. 

Na sequência, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), exigiu do governador explicações formais sobre a operação. Todo esse processo transcorreu dentro dos marcos institucionais, frustrando a tentativa do governador de tensionar o ambiente, criar espetáculo e se afirmar pela retórica do confronto e da virilidade política. Um padrão de narrativa que, como analisa Eliara Santana, transforma o medo e o caos em capital político.

A necropolítica é a nossa estrutura de governo

 Fora da corrida eleitoral entre homens, nas estruturas da institucionalidade, é onde emerge o pensamento mais profundo sobre o que se passou. As mulheres negras brasileiras há décadas denunciam que a necropolítica é a nossa estrutura de governo. 

De acordo com preceitos do feminismo negro sobre o assassinato de homens negros pelo Estado e com a sempre útil proposição de Raewyn Connell sobre a ordem de gênero — neste caso específico, das masculinidades subordinadas à masculinidade hegemônica —, essa estrutura não é neutra: ela produz hierarquias e destrói a vida de homens negros para manter o poder dos brancos.

Essa leitura se evidencia nas palavras de Thiago Pirajira: “Mais de 120 homens negros assassinados pelo Estado por serem homens negros. O racismo através do Estado, das instituições, da escola educou e segue educando todos a odiar homens negros. A desconfiar de homens negros. A subjugar homens negros. A descredibilizar homens negros. A inferiorizar homens negros. A deslegitimar homens negros. A encrudescer homens negros. A dessensibilizar homens negros. A desintelectualizar homens negros. A hipervigiar homens negros. A desmoralizar homens negros. A criminalizar homens negros. A monstrualizar homens negros. A desumanizar homens negros. A explorar homens negros. A matar homens negros.” 

O enunciado é simples e devastador: somos educados para sentir medo  e ódio aos homens negros. E é por isso que, quando as feministas negras afirmam que “a morte não pode ser política pública”, falam também deles. Um feminismo que não se opõe às violências cometidas contra masculinidades subordinadas pela masculinidade hegemônica não compreende o mundo de forma realista.

Sueli Carneiro advertiu, em tom que mistura dor e lucidez:

“As cenas dantescas do massacre de ontem no Rio de Janeiro não são um episódio isolado. É a continuidade de uma guerra declarada do Estado contra o povo negro. Uma guerra legitimada por uma lógica perversa, ditada pelo racismo, que insiste em associar pobreza com perigo, e negritude com inimigo interno. (…) Não há democracia possível sobre os escombros das vidas negras.”

E Benedita da Silva, da tribuna da Câmara, lembrou o que o discurso policial tenta apagar: “Dói o meu coração ouvir que aquelas pessoas são todas bandidas, aquelas pessoas que suam, que vão vender seus caixotes, que vão vender a sua bebida na rua, que vão pegar cafezinho de madrugada, servindo no ônibus, lá no ponto de ônibus. Essas são as pessoas consideradas marginais por esta Casa. […] Aos meus 83 anos de idade, eu continuo sofrendo pelo meu povo. Não moro mais no morro, mas eu sinto a dor. Eu saí da favela, mas ela não saiu de mim. Eu conheço a dor daquela gente.”

O que se escancara,  nesse cenário, é a disputa entre duas pedagogias: a do patriarcado, que ensina a matar, e a das mulheres negras, que insistem em ensinar a viver. A primeira governa com narrativas, tiro, porrada e bomba; a segunda luta com História, memória, cuidado e palavra. 

As mulheres que nomeiam o horror sustentam o país onde o Estado desaba. Elas são o centro da vida pública, ainda que a República não as reconheça como tal. E é por isso que, diante da maior chacina policial da história, a frase que resiste não é a de nenhum governador ou ministro, mas da Anistia Internacional Brasil, ONG presidida por uma mulher negra, Jurema Werneck: “O Estado não tem licença para matar”. 

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  • Joanna Burigo

    Joanna Burigo é natural de Criciúma, SC e autora de "Patriarcado Gênero Feminismo" (Editora Zouk, 2022). Formada pela PU...

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