Foto: Juliana Pereira

Coluna da Abrasabarca

Série Poéticas da Convivência: terra de dentro

Postado em 27/05/2020, 13:14

é como estar do avesso
as coisas da vida
seriam outras
se você tentar contar
a história
de novo

cuidar deve ser
verbo que amanhece
diferente pra cada
uma
da gente
todos os dias
respirar fundo como nunca
já faz não sei
quanto
tempo

já faz tempo
você vê
se fizer o caminho
de volta
que as terras estão nas mãos
erradas
e você concorda comigo
eu sonho
e a gente tem falado
pra deixar o corpo dizer
não ir longe
ir até onde
desenham mãos
que cuidam
pra onde levam essas linhas
se você me disser que também
quer justiça
me diga
e eu jamais lhe pedirei mais nada
além de, aliás, só mais uma coisa:
um pacto:
prestar atenção à respiração
e às palavras

e você concorda
as coisas da vida
seriam outras
e não faltaria alimento
e não haveria ninguém chorando a dor de uma vida
e não haveria ninguém tendo sua vida levada
porque tanto não haveria vírus
como também não estariam no poder
estes que hoje
ocupam os mais altos cargos
enquanto deveriam responder
por seus crimes
se o avesso do que é fossem
terras em mãos justas
se palavras fossem grãos

ninguém ninguém ninguém
podia ter feito estrada assim
não olhar pros lados
não pedir licença
a quem esteve aqui
antes
e ao solo
sobre o qual
se levanta

quais seriam
as palavras
nas notícias principais?

é preciso tentar voltar
também
o caminho de dentro
tatear
o ponto
comum
estaria ele onde
estão os sinais
de alerta?
todos os dias
respirar fundo
como nunca
já faz não sei
quanto tempo
mas sei
que ainda não
o suficiente
hoje ainda é sobre ontem
tantas e tantas outras
necessidades de atenção
tantas terras e corpos devastados
não dá
não dá
não dá
não cabe
o que se pode dizer
sobre a convivência
e mesmo assim eu preciso
nela confiar
você me diz que a gente deve abrir bem os olhos e sonhar
da janela
porque há janela
porque há uma casa
a gente imagina
a mesma coisa?
você pode imaginar o mar
o imenso que nos separa?
de dentro
você me diz que é importante ser alegre
eu sorrio
e imagino a surpresa
de quem jamais pensou
que olharia tanto tempo
pra este vaso de planta
que ninguém nunca soube
mas sempre foi um amor
antigo seu
agora você se pergunta
que história
ela carrega
como veio parar
em um vaso
e você faz um salto
em seu coração
se faz tanta vontade
de céu
todas as mãos
produzir o próprio
alimento
um sonho
o que se faz com ele?

como pronunciar qualquer palavra
se você lê as notícias?
e há outras e tantas outras ausências
das manchetes?
como é que a gente já deu conta
alguma vez?
nenhuma pessoa é uma ilha isolada

eu penso
se as palavras
fossem grãos
o que a gente toda podia sonhar?
se o básico
o básico
o básico
pra uma pessoa existir
não faltasse
mas pra isso antes é preciso
olha o absurdo! ter de dizer
que toda a gente deve ter
direito
à vida!
se a gente sonhar
qual poderia ser
a maior preocupação
da gente
qual seria?
caso cuidar
amanhecesse
acordar e fazer café?
tomar o café juntas?
dividir o prazer do pão quente?
indiscutível sinal de uma casa?
a vista pro céu?
o que se faz depois
do sonho?
com o corpo que não deveria
deixar de ser
o primeiro sinal
já faz tempo
prestar
atenção
à respiração
às palavras
um pacto

a gente sonha
palavras grãos
onde se faz sombra
do sol que pede
pra confiar
a gente aperta o olho
pro horizonte
que as palavras
ausentes das notícias
anunciam
já faz tempo
será que agora se pode
perceber?

*Juliana Pereira




ABRASABARCA se dedica à pesquisa, descoberta e (re)invenção poética. Somos um coletivo que se formou em encontros para ler poemas e falar de literatura em torno da mesa, da fogueira, do vinho, dos livros. A brincadeira de ler em conjunto o texto de outras e outros nos trouxe o desafio e o prazer da escrita autoral. Formado por Ariele Louise, Ana Araújo, Elisa Tonon, Ibriela Sevilla, Juliana Ben, Juliana Pereira e Luciana Tiscoski, realizou as publicações Abrasabarca (Medusa, 2018) e Revoluta (Caiaponte, 2019). Principais performances: Durar ou arder? (Quinta Maldita, 2018), Uma mulher o que é? (Sarau da Tainha, 2019), Como olhas? (FestiPoa Literária, 2019), Revoluta (Bienal Internacional de Curitiba/ Polo SC, 2019).
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