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Coluna da Claudia Regina Nichnig

Se Damares Alves é contra, nos feministas precisamos olhar com mais atenção

Postado em 24/09/2020, 17:05

Por Claudia Regina Nichnig e Ana Cláudia Taú.

As impressões sobre o longa-metragem francês “Mignonnes”, traduzido para o inglês como “Cuties” e para o português como “Lindinhas”, de duas professoras feministas, da área de Humanas e com formação nos Estudos de Gênero e Feministas, se aproximaram.

As duas assistiram ao filme procurando analisar as críticas recebidas, não só em terras europeias, mas também aqui no Brasil. Críticas que resultaram no pedido de investigação à Coordenação da Comissão Permanente da Infância e Juventude encaminhada pela ministra Damares Alves. “Quero deixar claro que não faremos concessões a nada que erotize ou normalize a pedofilia!”, esbravejou a ministra, que busca a censura do filme, requerendo a investigação da Netflix por pornografia infantil.

Mas é evidente que a ministra entendeu tudo errado, pois o filme busca exatamente o oposto: problematizar o uso da mídia social pelas crianças e como a descoberta da sexualidade é atravessada por questões religiosas, sociais e morais.

Nossa sugestão é que assistam ao filme com suas lentes feministas, pois é daqueles que termina e você fica horas pensando no que viu. De antemão, é possível afirmar que não é um filme para crianças e nem para as/os conservadores de plantão, pois esses são incapazes de analisá-lo com os olhos críticos necessários para uma boa reflexão. O filme, apesar de usar uma linguagem midiática convencional, apresenta um tema  nada comum, pois nos mostra uma sociedade  despreparada para os dilemas que envolvem  a relação entre três fatores:  o universo das crianças/adolescentes, o mundo virtual das redes sociais e a descoberta da sexualidade. No filme essas questões são discutidas no contexto social das periferias de Paris e se mesclam com questões religiosas e morais.

A produção dirigida pela francesa-senegalesa Maïmouna Doucouré, vencedora do prêmio Sundance, traz  à tona temas sensíveis que os defensores do Escola sem Partido se recusam a enfrentar sob pena de incentivar a sexualidade adolescente. Mas na verdade, o que o filme busca problematizar é como as crianças e adolescentes não têm noção da dimensão da repercussão de uma postagem na internet, e como a linguagem dinâmica espetacularizada, cheia de glamour, fakes e likes, encanta esse público. Público formado principalmente por meninas, não só as da periferia das grandes cidades, mas todas aquelas que estão crescendo em um cultura que prioriza padrões de beleza e beleza, consumo e a espetacularização dos corpos e da sexualidade.

O pano de fundo do filme centra-se na história de Amy, uma menina negra de 11 anos, filha de imigrantes senegaleses que vivencia o choque cultural ao conviver com outras meninas (Angelica, Coumba e Jess) de sua idade na cidade de Paris. Buscando se enturmar, Amy cria uma estratégia para entrar num grupo de street dance formado pelas meninas da sua turma de escola. A polêmica inicia quando Amy, junto com as outras integrantes do grupo aparecem dançando de forma sensual, como se fossem a Cardi B, ritimadas por  muito glamour, glitter, brilho e roupas provocantes.

Sem um olhar mais antropológico sobre as questões sociais que envolvem o contexto do filme, fica difícil compreender a crítica profunda direcionada à cultura do estupro e à sociedade patriarcal. É um filme que, apesar de usar uma linguagem glamourizada, busca ser coerente com a realidade e tem um efeito parecido com o do filme Cidade de Deus, quando mostrou uma favela fashion para tratar do problema do envolvimento das crianças no tráfico de drogas, conforme críticas ao filme em 2002.

A forma como as meninas do grupo formado por Amy e suas amigas dançam nada é mais de uma forma de resistência encontrada pelas meninas. Elas querem chamar atenção porque não são as mais populares e consideradas “bonitas”, e pensam que ganhar um prêmio de dança é uma forma de conquistar esses lugares sociais. E quem não quer ser popular na adolescência? Amy traz novos passos de dança para o grupo para se sentir acolhida. Os passos ela descobre em sites de pornografia, mas sem saber a dimensão e pensar que teria a mesma a conotação sexual das dançarinas que encontrou na internet.

Se as meninas podem ser percebidas como hipersexualizadas, essas são representadas no filme como resultados da total ausência do cuidado dos pais e da sociedade como um todo, mediada pela visão mercadológica, hoje, expandida às redes sociais. No filme há uma crítica direcionada ao consumo baseado no glamour e na espetacularização das relações que acaba por desvirtuar o sentido da sensualidade, usando-a como uma forma de vender.

Essa linguagem frenética pode passar para nossas crianças a ideia de que para ser “alguém na vida”, para se sentir incluída e ser aceita, basta ganhar likes a qualquer preço. Nesse sentido, o filme traz um diagnóstico, apresentando como uma das possíveis causas dessa ausência de cuidado: o capitalismo cruel que leva famílias a dedicarem a maior parte do seu tempo ao trabalho, sem espaço para a atenção que as crianças necessitam.

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No filme essa questão é mostrada pela ótica de Angélica, a menina filha de migrantes latinos, líder do grupo, que ajuda Amy a entrar para o grupo de dança formado por ela e suas amigas. Os encontros das duas meninas acontecem na lavanderia compartilhada no prédio em que vivem nas periferias de Paris. Esse é momento em que as personagens acabam se reconhecendo, pois estão ali com a responsabilidade de lavar as roupas de suas famílias, mas no fundo gostariam de estar fazendo outra coisa: dançando!

A amizade se fortalece quando Amy salva Angélica de uma briga com o irmão, que não a pagou pela lavagem de suas roupas. Sim, Angélica acha injusto lavar as roupas do irmão de graça! Angélica é a personagem intrigante e central para entender a empatia do lugar de fala dessas meninas. Em um dos encontros, Angélica chora ao contar para Amy que seus pais trabalham a noite num restaurante e dormem o dia todo, sem que ela sequer os veja.

Fica evidenciado por meio dessa fala de Angélica que a busca do pão de cada dia pelos migrantes que habitam as periferias de Paris, não possibilita a essas famílias pobres estarem atentas ao que acontece com seus filhos e filhas diante das questões debatidas no filme, no caso o aflorar da sexualidade no contexto das redes sociais.

Essa crítica frente à desatenção das famílias devido a exigências do capital, fica evidente também na relação de Amy com sua mãe, em que as questões religiosas são o pano de fundo. Sua mãe, deixada pelo pai, devido à chegada de uma nova esposa mais jovem, (um costume da cultura muçulmana), precisa trabalhar muito e não consegue estar atenta as necessidades de Amy. Por conta disso, a mãe de Amy deixa sob sua responsabilidade duas crianças menores, um menino de aproximados quatro anos e um bebê de colo, sendo que a menina além de cuidar da casa, da comida, precisa alimentar, trocar e cuidar os dois irmãos mais novos.

Toda a relação de Amy com mãe e seus conflitos se originam principalmente em relação à não aceitação de Amy diante do abandono paterno. Se a mãe não se conforma e chora muitas vezes, o que a menina observa,  mesmo de forma escondida, é que ela também está sendo abandonada pelo pai. Ambas se veem deixadas e desamparadas com a escolha do pai por uma nova família.

É neste contexto que Amy encontra na dança uma  forma de resistência. Se inicialmente, Amy está deslocada do grupo e é a menina feia e magra, servindo de chacota para as outras meninas, posteriormente Amy encontra nos novos passos de dança descobertos num site pornô uma forma de ser acolhida no grupo e esquecer o sofrimento e o abandono sofrido pelos pais.

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O filme está cheio de facetas que reforçam a crítica ao capitalismo como também ao patriarcado, se é que dá para pensar numa coisa sem a outra. Mignonnes trata de temas árduos como  a questão opressiva da religiosidade sobre os corpos das meninas, os diferentes problemas sociais e conflitos culturais fruto das imigrações na França, como também  traz a questão da imposição do casamento infantil, a opressão e a naturalização do trabalho doméstico e de cuidado direcionados às meninas ainda crianças.

Das muitas cenas que chamam a atenção uma delas é de especial questionamento, quando Coumba, a outra menina negra do grupo de dança, encontra uma camisinha e brinca como se fosse um balão de festa de aniversário. Quando as meninas percebem o ocorrido se desesperam e gritam com Coumba, que responde com certa inocência: “Mas é rosa!”. Em seguida uma das meninas alerta: “Você vai pegar Aids.”

A cena tem um corte abrupto e vemos as meninas lavando as boca de Coumba com sabão. Podemos notar que a inocência dessas meninas é desvelada neste instante, uma vez que Coumba chora e se desculpa por não saber se tratar de uma camisinha. Vê-se neste momento uma intenção narrativa de mostrar ao espectador que toda aquela dança sensual, na visão dessas pequenas, não passa de uma brincadeira e de uma forma de empoderamento e reivindicação de espaço diante da opressão a qual elas estão destinadas.

O filme mostra, por meio das situações mais inusitadas, a resiliência de Amy e o seu amadurecimento diante dos percalços da vida. Amy, está profundamente aborrecida com o sofrimento da mãe diante do segundo casamento do pai que vem de uma cultura em que a mulher é posse e símbolo de poder (costume que muitas vezes entra em conflito com a cultura ocidental).

Amy é uma rebelde, que na sua pequena sabedoria se recusa aceitar o destino de vítima do patriarcado e de uma cultura religiosa que a mesma não compreende, e que visivelmente a aflige de forma diferente que nos meninos.

O trabalho naturalizado, imposto às meninas está em todo momento sendo mostrado pelo filme, mas há uma cena em que Amy precisa trabalhar horas descascando cebolas e manipulando alimentos a mando da tia de sua mãe, na preparação para o almoço do casamento de seu pai, algo que a menina não concorda e é contra. Sua tia e sua mãe impõem à menina o trabalho árduo ainda justamente quando ela  “torna-se mulher”, com a chegada da menarca. Isso ocorre justamente no dia em que a menina iria participar de uma etapa de seleção no concurso de dança. Nesse momento, ela foge daquela situação e corre pra tentar chegar a tempo pro concurso, e todas torcemos por ela.

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Todas acabam tendo empatia por Amy, mesmo quando ela toma atitudes não esperadas para uma criança, mas é possível perceber que ela o faz justamente por estar sozinha e desemparada pela família e sociedade e, portanto, muitos atos são formas de resistência. É visível no filme que a diretora negra francesa-senegalesa reconhece muito bem aquela cultura e suas mazelas, tornando quase um relato autobiográfico. Amy usa formas controversas de lutar, mas é o que lhe resta, diante de tudo que lhe é imposto, como o abandono, o não cuidado e a imposição do trabalho infantil.

Quem assiste ao filme só pensando na questão da erotização precoce dessas meninas, não entendeu que é justamente contra isso que a diretora está se opondo de forma incisiva, nua e crua. A cena final, em que a mãe de Amy compreende suas travessuras como resposta à experiência de abandono e autoriza a menina a não participar da cerimônia do casamento do pai, nos mostra como a mulher vê nas atitudes da filha um outro futuro possível.

Nesta cena final, vemos Amy recusar o vestido de festa, peça que para ela representa o aprisionamento a uma cultura a qual recusa: Amy se recusa a tornar-se mulher! Ela também não escolhe usar as roupas justas e curtas que usou para ser incluída no grupo das meninas dançarinas. Amy escolhe uma blusa larga e uma calça jeans, passa pelo local onde está sendo realizado o casamento do pai, em um salão no andar térreo do prédio onde residem e se junta a outras crianças para brincar do lado de fora do prédio, pulando corda, a brincadeira mais simbólica da infância.

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A cena final é um apelo para que deixemos nossas meninas brincarem e serem apenas meninas. O problema não é o filme em si, mas o que ele expõe e o que está nas entranhas da cultura do estupro e do patriarcado. E se doeu, e se foi polêmico é porque teve o efeito esperado. A autora deixa claro que o problema somos nós, principalmente esse patriarcado consumidor compulsivo de pornografia infantil que vive atrás das “novinhas”, condenando nossas meninas a não terem o direito de serem crianças, em toda sua essência, com proteção, atenção, participação e respeito.

No mais são apenas crianças descobrindo seus corpos, sua sexualidade através do que lhes é acessível diante da ausência da família e da sociedade: as redes sociais e através dela a cultura de massa que nos engole, nos chama para o consumo em busca de apenas um padrão de beleza e uma forma de ser menina e mulher (para ser consumida pelos homens como objeto).

Amy resiste! Amy consegue ao fim, chamar atenção de sua mãe para o que ela realmente busca e precisa: cuidado, amor, um abraço carinhoso, um pouco de atenção e um tempo para ser criança.

*Ana Cláudia Taú, convidada desta coluna, é socióloga com mestrado em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas.




Claudia Regina Nichnig é historiadora, advogada e doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, na área de Estudos de Gênero, e pós-doutora em História e Antropologia Social.
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