Arte: Camila Beque

Coluna da Louise da Campo

Quem tem direito ao nome? Precisamos falar em linguagem inclusiva de gênero no jornalismo

Postado em 30/07/2020, 10:53

Porto Rico. Fevereiro de 2020. Uma mulher transexual que vivia nas ruas da cidade de Toa Baja é assassinada brutalmente. Nas redes sociais, um vídeo circula mostrando várias pessoas provocando e ameaçando alguém, seguido pelo som de tiros. Estamos em julho e o vídeo continua sob investigação, mas se acredita que a vítima que aparece nas imagens é Alexa Negrón Luciano de 27 anos.

Poucas horas antes de seu assassinato, uma pessoa em um restaurante de fast food apresenta uma queixa contra Alexa por ter entrado no banheiro feminino do estabelecimento. Fotos que também circulam nas redes sociais mostram o momento em que Alexa é interrogada pelos policiais. Menos de 12 horas depois do ocorrido, Alexa está morta e sua vida exposta na Internet. As coisas a partir desse ponto só pioram. O departamento de polícia descreve Alexa como “um homem usando roupas de mulher” e a frase é republicada por diversos veículos midiáticos do país.

Em 27 de fevereiro, o cantor porto-riquenho Bad Bunny se apresenta no programa de televisão Estadunidense “The Tonight Show” apresentado por Jimmy Fallon. No meio de sua apresentação, é possível ver que ele usa uma camiseta estampando a frase: “Eles mataram Alexa, não um homem usando saias”, uma tentativa clara de chamar atenção para a morte chocante de Alexa. A repercussão do caso aumenta a partir da apresentação do cantor e uma nova discussão é colocada em pauta: o uso da linguagem.

 

Mas não precisamos pegar Porto Rico como contexto para refletir o uso discriminatório da linguagem no jornalismo. Para isso, vamos mais perto. Rio Grande do Sul, Brasil. Amanda Guimarães é Youtuber, empresária, autora e uma mulher transexual. No final de 2019, Amanda inaugura um salão de beleza na cidade de Porto Alegre, durante a divulgação de seu novo empreendimento ela afirma que o objetivo é criar um espaço que celebre a diversidade.

Em um jornal referência do Rio Grande do Sul, a primeira versão da manchete da reportagem sobre o acontecido diz “Transexual abre salão focado em pessoas LGBT, com deficiência, negras e gordas” e o subtítulo da reportagem traz: “Mandy Candy inaugurou espaço de beleza em Porto Alegre porque se sentia “julgada” em outros locais”.

São vários os problemas nessa manchete e nesse subtítulo.

Amanda, conhecida no Youtube como Mandy Candy, totaliza quase dois milhões de inscritos na plataforma, sendo reconhecida o bastante a ponto de ser chamada pelo seu próprio nome. Mas mesmo se não tivesse esse alcance, a questão que surge é: quem teria direito ao nome? Eu não consigo pensar em um momento da história do jornalismo brasileiro em que em uma reportagem se referiram a alguém como “mulher cisgênero (quem se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu)”.

A transexualidade aparece em diversas coberturas jornalísticas como se fosse um elemento fundamental para o entendimento da narrativa que se quer contar. Mas não é.

A pesquisadora e professora no Centro de Letras da Universidade Federal de Pelotas, Mônica Cassana, reflete em um de seus trabalhos a respeito do discurso jornalístico sobre pessoas transexuais, ela parte da ideia de que o corpo transexual é tratado na mídia como espetáculo. “A todo momento, os sujeitos precisam falar de seu corpo como se estivessem produzindo um efeito de explicação para aqueles que os ouvem/os leem”, escreve.

Em uma troca de e-mails com Mônica ela me fala sobre como os casos de Alexa e Mandy são exemplos da invisibilidade das pessoas transexuais em nossa sociedade e como os dois exemplos de cobertura jornalística percorrem um mesmo caminho: o de apagamento dos sujeitos e do que foi dito.

“Esse funcionamento de apagar o que está sendo dito me parece um recurso para seguir determinando lugares para os sujeitos, dizendo que eles estão apartados socialmente, e que não podem ser tratados de maneira igualitária em nossa sociedade. Então, eles não são chamados pelo nome, não usam sua profissão como referência. Ao contrário, os corpos seguem sendo marcados: homens de saia, transexuais”, diz.

Outra questão que chama a atenção no caso de Mandy Candy é o jornalista escrever que o salão teria um enfoque em “pessoas LGBT, com deficiência, negras e gordas”, mas se o salão celebra a diversidade, como a própria Amanda afirma, por que destacar pessoas específicas? E o uso da palavra julgada entre aspas?

Jaqueline Authier-Revuz é uma célebre linguista francesa, em uma de suas pesquisas ela estuda especificamente os usos das aspas e seus efeitos de sentido. Authier-Revuz explica que ao colocar aspas em uma palavra é como se ela fosse deslocada do conjunto do texto, ou seja, como se ela não pertencesse àquela frase. Quando a palavra julgada aparece no subtítulo da manchete com aspas ela perde o seu sentido inicial, é como se uma dúvida fosse plantada na mente do leitor: “será que ela realmente foi julgada?”

Amanda não se calou sobre a manchete e expôs a situação em uma de suas redes sociais, questionando o jornalista e a forma de abordagem. Após uma mobilização de alguns de seus seguidores, a manchete foi modificada para “Youtuber Mandy Candy abre salão onde a beleza é livre” e o subtítulo para “Influencer gaúcha inaugurou espaço de beleza em Porto Alegre porque se sentia julgada em outros locais” e o jornalista se desculpou.

Pesquisar temáticas, investigar, selecionar fontes e entrevistar não são apenas dinâmicas técnicas da produção jornalística, são também dimensões sociais. Representar uma pessoa em uma reportagem de forma discriminatória e estereotipada é um problema sério e que está estritamente ligado a invisibilização da população LGBTIQ+.

O jornalismo continua sendo o mesmo, mas a forma de fazer é que tem que ser diferente. Se tem algo que eu aprendi enquanto pesquisadora da linguagem é que a língua oferece inúmeras possibilidades e que a reflexão sobre o uso das palavras é essencial na cobertura jornalística.

Precisamos falar em um jornalismo que inclui e não que exclui. Um jornalismo que traz novos conhecimentos sobre temas antigos. Um jornalismo que pensa novas propostas, que traz novas interpretações sobre o mundo e investiga problemas sociais e, que, na hora de expor, o faz com respeito.

 




Louise da Campo é jornalista e pesquisadora em Texto, Discurso e Relações Sociais no Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) no Rio Grande do Sul.
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