Ilustração: Marta Moura

Coluna da Respeito em Cena

Quem mata uma mulher, mata a humanidade

Postado em 25/03/2021, 9:00

*Por Luciana Sérvulo da Cunha

Você que desvaloriza, ridiculariza, ofende, maltrata, ataca, fere e mata uma mulher, desvaloriza, ofende, maltrata, ataca, fere e mata toda a humanidade!

“Querer ser livre é também querer livres os outros”, Simone de Beauvoir.

Quem vos fala é uma detentora do poder do corpo da mãe. Eu alimento, protejo, crio e dou início à vida! Nasci com esse poder e estou aqui para anunciar a verdade: você e nenhum Homem, nenhuma Instituição, nenhum Rei, nenhum Soldado, nenhum Juiz, General ou Capitão pode destruir a minha maternidade. Eu já nasci com o poder da empatia, da resiliência, do amor e da compaixão. Eu sou aquela que nino meninos e meninas, que balanço os berços segurando a lâmpada lançando luz sobre o mundo. Sou aquela capaz de provocar transformações e realizações que você não poderia nem sonhar.

Toda e qualquer limitação que você, homem, possa pensar que eu tenha pelo fato de ser mulher, não é real. Ela é imaginada. Você é possuidor de dominância. Uma dominância conquistada pela força bruta ao longo dos séculos na tentativa de usurpação e apropriação do meu poder inato. Isso que você tentou e insiste cegamente em tentar matar a cada 2 horas não morre e nunca morrerá.

A vida foi, é e sempre será advinda de mim. Eu sou o início da vida e sempre serei.

Eu influencio meus filhos e filhas, eu influencio o futuro do mundo. Eu sou a encarnação que contém os três poderes da Mãe Divina: o poder da vontade, o poder do conhecimento e o poder da ação. Eu trago o céu à terra onde quer que esteja.

Agora venha cá um bocadinho, homi, olha bem nos meus olhos e escuta. Caso você não tenha compreendido o significado da maternidade, te sopro: a maternidade é um direito de nascença da mulher, um estado de “amor e compaixão sentidos não apenas para os nossos próprios filhos e filhas, mas para todas as pessoas, animais e plantas, rochas e rios — um amor estendido a toda a natureza e a todos os seres sem exceção” (Amma).

Um estado que, de tão potente, transcende o próprio corpo de mulher, se espelhando e habitando em tudo e toda a humanidade. E nesse exato momento, estou bem aqui ao seu lado para te confidenciar: nesse seu tempo bicudo daí, eu sou a chave da sobrevivência da espécie humana.

Nos tempos longos de lá, as mulheres eram as líderes das famílias e transmitiam o poder tribal para todo o grupo. Esse poder era traduzido por potência. O matriarcado se revelava como o significado da palavra grega “arché” sendo “a origem, o início” da vida e era pleno em sua manifestação.

Até quando você, homem, chegou desafinado invadindo e inventando uma mudança nesse significado, interligando os conceitos de pai e patriarcado com os conceitos de hierarquia, mando e dominação, provocando o nascimento artificial do mito de que homens tem “poder de mando” e seriam os supostos sujeitos criadores da vida.

A sua obsessão tragada por inveja desde lá era e continua sendo “a transformação do corpo feminino gerador da vida em uma coisa produtora e reprodutora”, tentando substituir o corpo gerador de vida por um “não-corpo, maquinário não-fêmea” e reivindicando esse maquinário como a meta e o fim da história humana. A mesma coisa é verdade para a Mãe natureza e para a própria terra” (MMies).

Agora escute, criatura, que o tempo dessa confusão entre poder e dominação se foi e um outro já começou. Abaixe o queixo, dobre ligeiramente os joelhos, respire fundo e abra bem os olhos para se encontrar com o horizonte: veja e perceba como ele desponta real e bonito se sabendo que quem desvaloriza, ridiculariza, ofende, maltrata, ataca, fere e mata uma mulher, desvaloriza, ofende, maltrata, ataca, fere e mata toda a humanidade!

Eu pergunto para você, mortal, qual dos seus olhos é mais importante, o esquerdo ou o direito?

Desenhe duas colunas lado a lado. Na da direita anote “Ser mulher” e na da esquerda “Ser homem” e escreva sobre essas bem suas definições e significados.

Se imagine chegando em casa depois de um dia exaustivo de trabalho e faça uma lista do que e de como espera encontrar a sua casa. Anote ao lado o nome de quem é ou você pensa que deveria ser responsável pelas obrigações apontadas. Pense e escreva sobre a sua provável reação quando uma dessas obrigações não tiver sido feita a seu contento e como a sua própria reação afetaria o entorno. A sua reação traria algum desconforto, causaria sofrimento ou prejudicaria alguém?

Agora vamos mais fundo. Reconheça uma tristeza, um medo e uma frustração. Encontre para cada um desses reconhecimentos uma forma saudável de expressá-los e o faça, construindo para você um espaço de autocuidado. Submeta essas listas a outros homens e converse com eles sobre o que fazer para que mulheres não sofram mais, para que mulheres não sejam assassinadas.

Você vai aprender que o poder de um verdadeiro líder não é dominar ou controlar. Irá descobrir que você leva consigo atributos que são elementos-chave para a compreensão das relações sociais. E que sua verdadeira humanidade só virá à tona quando as qualidades femininas e masculinas em você forem equilibradas, te permitindo trocar e servir os outros com amor e compaixão, inspirando mulheres e homens através do exemplo da sua própria vida.

Quando isso acontecer, você finalmente terá paz e experimentará o poder como eu o experimento: uma força natural que impulsiona a vida. Sentirá na carne, homem, a própria vontade de poder, não no sentido político, de simples dominação, mas no sentido de querer e de se fazer viver!

* Luciana Sérvulo da Cunha é documentarista, diretora artística, terapeuta holística e ativista. Diretora e produtora dos filmes “A Rua dos Meninos” e “Hijos de la Revolucion”, foi assessora especial da presidência da República e diretora de patrocínios da SECOM no governo Lula. Trabalhou na Itália com o prêmio Nobel Dario Fo, foi executiva do projeto WE de Empoderamento de Mulheres na Índia em parceria com a ONU, assessora da EBC /TV Brasil e diretora artística da TV INES, televisão pioneira para deficientes auditivos no Brasil. Atualmente é parceira do #MeTooBrasil e acaba de fundar a ONG Respeito Em Cena onde coordena a primeira Campanha Latinoamericana de Combate a Violência Psicológica contra a Mulher no Meio Artístico e atua também como uma das Embaixadoras junto com a cantora e compositora baiana Mariene de Castro.

 




Idealizada pela documentarista, diretora artística e ativista brasileira Luciana Sérvulo da Cunha, a ONG “RESPEITO EM CENA” abre as cortinas e coloca sob holofotes a violência psicológica que ocorre de maneira sutil, disfarçada e mascarada no meio artístico. Junto nesse desafio, contamos com as expertises de parceiras como o Tamo Juntas!, o Me Too Brasil, o projeto Justiceiras e o Instituto Dona de Si que se somam possibilitando que as sobreviventes de abusos e assédios no meio artístico possam receber apoio, consultorias e direcionamentos para a tomada de decisões e encaminhamentos necessários rumo à saídas, reparações e resoluções, botando um fim em episódios de violência em nosso meio.
Veja a coluna da Respeito em Cena