Registro do Encontro Latino-americano de Mulheres (Ella), na Colômbia, em dezembro/Foto: Cobertura Colaborativa Ella

Coluna da Samantha Buglione

Para não dizer que não falei de nós

Postado em 08/03/2018, 12:22

8 de março é uma data que lembra, comemora e/ou luta por uma obviedade: a de que a humanidade é plural, de que a diversidade é nossa marca, de que somos homens e mulheres e entre um lado e outro dessa fronteira somos muitos e muitas e entre um jeito e outro de ser somos infinito. O próprio 08 de março é plural e não foi feito de uma vez só, ele é histórico.

No século 18, por exemplo, à sombra da Declaração Universal dos Direitos do Homem, em dias posteriores à sangrenta revolução francesa, mulheres eram decapitadas por defenderem a igualdade. O status de humanidade abarcou uns e ignorou outras. Desde então fica evidente a plasticidade com a qual criamos e recriamos a nossa comunidade moral. A todo o tempo redefinimos o conceito de pessoa a nosso bel prazer e cuidamos de uns a revelia de outros. Enquanto não tomarmos consciência dessa gestão seletiva de cuidado, não vamos avançar e a violência seguirá sendo nossa marca. Inclusive entre nós, mulheres.

Nos séculos 19 e 20 foram várias as manifestações das mulheres pelo reconhecimento da própria dignidade e liberdade. Em maio de 1908, nos Estados Unidos, cerca de 1500 mulheres aderiram a uma manifestação em prol da igualdade econômica e política no país. Em 25 de março de 1911, em Nova York, cerca de 130 operárias morreram carbonizadas em uma fábrica pelos desmandos do patrão. Em 08 de março de 1917 aproximadamente 90 mil operárias manifestaram-se contra o Czar Nicolau II e as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra — em um protesto conhecido como “Pão e Paz”. Mas, foi somente em 1921 que o 08 de março começou a ser comemorado e só adquiriu o status oficial de representar a memória e a luta das mulheres em 1977, quando oficialmente foi reconhecido pelas Nações Unidas. E apenas em 1993 foi que os direitos das mulheres foram considerados direitos humanos. Isso no ocidente. Em diferentes culturas, como a Bwiti, do Gabão, a comunidade moral sempre abarcou todos os seres vivos e era mais coerente. Por isso homens e mulheres, humanos e não humanos, eram igualmente respeitados na sua vontade e na sua possibilidade de viver a vida. Sem falar em outros povos tidos “primitivos” pelo nosso olhar arrogante. Um olhar que segue teimoso em fazer estragos pela sua ignorância.

Se somos plural dentro dos nossos discursos hegemônicos, também somos, infelizmente, incoerência, quando contribuímos para criar e recriar esse cerco moral de uns contra outros.

Mas, o ponto mais relevante é que além de plural, somos o desejo (que nasce da falta) de poder ser o quisermos ser. Por isso, se pudermos resumir em uma palavra o intento radical do que chamamos ser o 08 de março, teremos que falar em liberdade. E falar do ato subversivo que é o de dar a si mesmo a própria lei moral. Trata-se de um gesto corajoso o de responder pelo próprio desejo e ser o que se é. Ou “tornar-se quem se é” como diria o pai de Lou Andreas-Salomé. E quando percebemos que a nós cabe ser o que somos, nos tornamos, quase que por consequência, cuidadores do outro para que ela ou ele se torne não o que eu sou ou o que eu gostaria que esse outro de mim se tornasse, mas para que ele possa ser o que é mesmo à revelia da minha ideia. Defender a liberdade não é defender meus gostos ou impô-los ao mundo. É dizer que não me cabe gerenciar o mundo, mas apenas a mim mesma. E, ao fazer isso, quem sabe o mundo adquira alguma harmonia. E quando todos experimentam o trabalho que é ser livre, percebem que não faz sentido se meter no conteúdo da vontade do outro, mas apenas auxiliá-lo quando se é demandando. Esse é o sentido de cuidado que falo aqui. Um cuidado entre adultos há muito libertos pela natureza.

Esse feminino via de regra gravado num corpo de mulher, mas nunca exclusivamente na sua biologia, circula entre deusas e demônios. Somos a chance de ser a santa herdada de uma Eva acolhedora ou de Maria que doa a alma. Mas somos também aquelas que optaram por acolher exclusivamente a si mesmas e a partir disso cuidar do mundo à sua maneira, sem diretrizes de outros, somos a Lilith, que segundo o Zoha (coleção de comentários sobre a Torat), é a metade feminina de Adão, a igual. E não foge à regra sermos as duas forças: ora nos doando para alguém, a exemplo de um filho, ora exigindo paridade nos nossos próprios parâmetros. E também não é raro quando estamos Maria sermos condenadas por Lilith e quando estamos Lilith sermos condenadas por Maria, padecendo, assim, do mal de não aceitarmos a diversidade visceral que existe em nós.

Vivi por anos numa das muitas perspectivas do que chamamos de movimento feminista. Na perspectiva que conheci, vi o quanto a diversidade e o respeito a essa pluralidade é incômoda, mesmo junto daquelas que a defendem. Vi mulheres outorgando a si o título de feministas à revelia daquelas que quiseram a revolução sem holofotes de ser dona de casa. Vi a violência de se reconhecer emancipatória apenas a ação de mulheres que ocupavam cargos num contexto público burocrático de Estado, negando como igualmente emancipatório o ato de escolher o próprio alimento, de produzi-lo e de educar filhos à sua maneira.

Vi também mulheres acolhedores capazes de se abraçarem para além de suas crenças ideológicas ou religiosas. Vi cristãs, muçulmanas, de religião afro ou de religião alguma, liberais, conservadoras e comunistas, novas e velhas e trans, de mãos dadas contra o tráfico de meninas, de meninos e de mulheres, contra o abuso e pelo direito de gerenciar o próprio corpo.

Vi mulheres ainda brigando pelo óbvio de poder andar com os peitos à mostra na praia e poder amamentar quando for necessário, sem despudores ou à mercê de mentes doentes. Vi mulheres incansáveis lutando pelo direito de outras mulheres poderem parir sem a gerência de um terceiro. Vi mulheres amamentando o filho de outras mulheres e acolhendo suas dores. Vi mulheres trançando cabelos de meninas que iam enfrentar um mundo hostil e cuidando de meninos que escolheram ter tranças. Vi mulheres que tiveram que brigar para poderem ser mulheres cuidando de mulheres que não conseguiam mais se cuidar. Vi muita beleza e vi muita gente incomodada com a beleza.

E, agora já velha, vejo meninas se tornando mulheres e temo por elas em um mundo que não aprendeu a ver o quanto o óbvio da liberdade é a nossa única chance de amar. E o quanto o ato amoroso é a única forma de nos libertar.




Filosofa, doutora em Ciências Humanas, mãe de uma dupla que me colocou numa nova rota do existir. Participei por anos de organizações feministas de direitos humanos. Atualmente uso a arte como ferramenta emancipatória e estudo temas como o amor, o perdão, o mal e a liberdade. Trabalho com orientação biográfica e pedagógica, com diferentes consultorias, com abelhas e com a escrita.
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