Imagem: Coletivo Valente

Coluna da Coletivo Valente

O quanto é difícil ser mãe, mas mais difícil ser mãe de menina, ser mãe de Maria

Postado em 21/10/2020, 10:45

Por Danielle Burigo

 

Quando você descobre que virou mulher? Já parou e perguntou isso a si mesma? Esta resposta nunca será igual de uma para outra, mas eu me senti verdadeiramente mulher quando pude experimentar a sensação de ser mãe, e ainda, mãe de menina.

Ser mãe pra mim era um ideal que não estava entre os principais planos de vida, isso por questões de saúde. Dos 10 aos 21 anos de idade vivi muitas entradas e saídas de centros cirúrgicos devido a tumores nos ovários e nas trompas e endometriose, o que tornava minha chance de engravidar mínima. Eu pensava em adotar, mas nunca efetivamente parei e decretei: – Ah um dia vou ser mãe!

Mas de repente, entre os vários sonhos planejados, pensei que talvez depois de terminada a faculdade eu poderia me dedicar a este tema tão sonhado por muitas mulheres. Resolvi dar início a um tratamento para quem sabe ser mãe. O que eu não sabia é que antes mesmo do resultado dos exames chegarem para começar o tratamento eu já estaria grávida!

Estava com 27 anos, nem tão jovem, nem tão madura, e daí para a frente tudo mudaria. Foram inúmeras sensações, da felicidade ao medo, da alegria ao desespero. Definitivamente tudo mudou.

Entre a gravidez de risco, a depressão pós-parto, as madrugadas acordadas e, às vezes, a vontade de sair gritando por ter que dar conta de tudo que uma criança necessita, eu ainda pensava: meu bebê é uma menina, linda, mas nem sempre estará comigo para protegê-la. E isto o que me faz perder algumas noites de sono ainda hoje, mesmo tendo 16 anos tendo se passado e eu já sendo uma mulher madura aos 43 anos.

Penso também em quantas mulheres já não passaram por isso em suas gestações e depois ao verem suas filhas crescerem. Verem suas filhas sofreram nas mãos de seus maridos com violência doméstica, sendo estupradas por um violador maldito, sofrendo na carne e na pele todo o tipo de violência possível – violência física e psicológica que muitas mulheres jovens, filhas como a minha, sofrem dentro de seus lares.

Minha filha hoje tem 16 anos. É minha parceira de vida, minha parceira de luta. Somos muito mais que mãe e filha que trocam ensinamentos. Somos confidentes uma da outra. Somos mulheres que lutam todos os dias contra todo a forma de violência contra a mulher, contra toda forma de preconceito racial e de gênero e assim estamos crescendo juntas e aprendendo uma com a outra.

Ela com 16 anos hoje me ensina tanto que as vezes paro e penso: é minha mesmo??? Sim, porque ela sabe o que quer, sabe porque quer, e corre atrás. Sabe que é uma menina/moça/mulher que o lugar dela é onde ela quiser, com quem ela quiser e da melhor forma que achar ser. Ninguém tira o lugar de fala que é dela. Sabe lutar pelos seus diretos e de suas manas, não aceita nenhum tipo de preconceito – e eu, como mãe, fico muito, muito, orgulhosa disto.

Contudo, ao mesmo tempo os sentimentos se misturam ainda. Aquela mesma mistura de quando descobri que iria ser mãe, e ainda mãe de menina. Entre a euforia, o desespero e os medos eu me pergunto todos os dias desde que ela nasceu, o por quê é tão difícil ser mãe de menina?

Desde seu nascimento todos os dias e a cada dia é uma luta diária e incansável para lhe explicar – e ela entendeu – que nossa sociedade é patriarcal e precisamos desconstruí-la. Que nossa luta por direitos iguais começa dentro de casa. Em uma família com vários filhos em que os meninos jogam bola e as meninas lavavam a louça eu a ensinei justamente o contrário: as meninas jogam bola e os meninos lavam a louça, pois não é a bola ou a louça que fará o caráter, ou a orientação sexual de uma pessoa. Expliquei ainda que para o amor não existe gênero, apenas se ama.

Desta forma descobri que ser mãe de menina é difícil, sim. Dá medo. Mas é ao mesmo tempo a melhor forma de amor que existe. Forma de seguirmos nossa luta enquanto mulheres, pois aquele serzinho tão pequeno, indefeso, hoje com 16 anos se tornou a pessoa mais linda, por fora e por dentro, que eu conheço. Uma mulher que chora por “Marieles” e por “Georges Floyd”, mas que também luta por “Maris Ferrers”. Que luta por todas nós.

Como diz Dandara Manuela na sua linda melodia “Maria mulher de luta, mulher de luta sim senhor!” Isso é ser mãe de menina, isso é ser mãe de Maria!




O coletivo Valente nasceu em 2018 da vontade de um grupo de trabalhadoras do judiciário catarinense de Santa Catarina de unirem esforços não apenas em torno do debate das nossas especificidades, mas também da luta por vida digna e livre para todas as mulheres, a partir de uma perspectiva emancipacionista, antirracista e classista.
Veja a coluna da Coletivo Valente