Coletivo Pretas em Desterro. Foto: Priscila dos Anjos

Coluna da Cristiane Mare

O movimento das pretas: a nova face da luta antirracista em Santa Catarina

Postado em 21/08/2016, 12:44

Após uma semana do III Afro Divas e do lançamento do Coletivo Pretas em Desterro, por volta das 5:00 da manhã, quando as crias dormem em sono profundo e uma mãe tem tempo para si, fui tomada pela ânsia de escrever  sobre a poética política experimentada  por nós mulheres negras,  em  13 de agosto de 2016, na Ilha de Santa Catarina.

Assalta-me a memória, este ponto de encontro entre a história e a literatura, minha fonte e tormento na qual exercito ofício de escrever. Nos meus ouvidos pousam Lilis, Thatys, Cintias, Ericas,Carols, Carinas, Evitas,  Silvanas, Giseles,Eloisas, Grazis e muitas Marias. Mas por uma Claudia, a Prado da Rosa, integrante do Coletivo Pretas em Desterro, e uma das debatedoras  do Papo das Pretas, que iniciarei essa prosa, nela a lembrança da participação  na sua primeira mesa redonda,

embora tenha participado dos outros eventos, este teve um sabor especial, onde pude externar um pouco do meu conhecimento e da minha experiência profissional na área da saúde, onde atendo usuários do SUS. Ainda lembro que há alguns meses atrás, quando empunhei o microfone pela primeira vez, a emoção e o choro correu fácil, pois pela primeira vez, em meus 25 anos de formada, me foi dada a possibilidade da fala diante de uma plateia. Foi um momento em que uma mulher negra, enfermeira, percebeu a capacidade que tinha em ser referência e empoderar outras mulheres negras, informar a nossa população sobre a existência  da lei 12.288 que trata da Saúde Integral da população negra, e as doenças, que, associada ao racismo institucional, acabam nos exterminando. Me senti gigante, e estimulada, pois sei que tenho muito o que aprender, e principalmente passar adiante.“Uma sobe e puxa a outra”.

“Me senti gigante  e estimulada”, pois o ato de sonhar é uma rebeldia. Se este espaço causa tamanho impacto em nossas mulheres, as decisões tomadas em 2015, parecem apontar por um caminho sem volta.

A primeira edição do Afro-Divas ocorreu em julho de 2015 e a  segunda realizada em outubro do mesmo ano, ambas organizadas pelo Comitê Impulsor Estadual da Marcha das Mulheres Negras: Contra o Racismo, Sexismo e pelo bem Viver.

Catarina Marcha, preparatória para a Marcha da Mulher Negra - Foto: Paula Guimarães.

Catarina Marcha, preparatória para a Marcha da Mulher Negra – Foto: Paula Guimarães.

Marcha de Mulheres Negras de Florianópolis. Foto: Ana Paula Soukef

Marcha de Mulheres Negras de Florianópolis. Foto: Ana Paula Soukef.

Assim, Pretas em Prosa, da cidade de Criciúma; Divas Day, em Joinville; Afro-EJA, no Núcleo de Educação de Jovens e Adultos – Centro da Rede Municipal de Florianópolis; debates nas cidades de Tubarão e Chapecó; Liderança da Mulher no século XXI, em Siderópolis. Atividades, que pautaram no estado de Santa Catarina, as mobilizações para a Marcha das Mulheres Negras. Portanto, o Afro-Divas, foi uma das inúmeras atividades realizadas por mulheres afrodescendentes, que acreditaram em sua capacidade de elaboração e na oportunidade de fazer história a partir da ressignificação de valores e tradições. A palavra Preta, positivada e rememorada em todos os encontros, quando não ritualizada, o reforço daquilo que precisamos construir desde crianças, para não sucumbirmos ao racismo e ao sexismo: Poder.

A cada mobilização fomos construindo  um encontro político,  traduções de nossos anseios e de nossas vidas.  A resistência como enfrentamento a uma hegemonia cultural, monocultural,  que despreza o  corpo feminino, que o reduz a mão que trabalha ou objeto de desejo, pouco se interessa pela produção cultural e o conhecimento por nós elaborado. Saiam da penumbra mulheres brancas,  sem nossos corpos não existe decolonialidade, não existe feminismo, tampouco revolução. Pois para falar de si, é preciso denunciar esse um que enuncia, deixar de ser o outro e reconhecer-se em sua diferença e humanidade.

Tarefa nada fácil, pois é um movimento de fora para dentro e de dentro para fora, em uma ciranda sem fim, politizando o privado, retirando de nossas entranhas toda a dor de corpos assimilados, dos quais nos ensinam desde a nossa tenra infância, que o negro é um corpo desumanizado, que permite esse limbo entre o não ser e o não existir, pois crescemos em escolas e em sociedade, em que as palavras chave são: sujeição e obediência, sujeição para o embranquecimento e obediência para que não ousemos nos manifestar contra o racismo de nossos colegas, professores, vizinhos. Aprendemos desde criança, que ao reclamarmos,  contra  racistas, iremos pagar o preço de advertências constantes, deste modo, a  escola atua como espaço de assimilação e de aprendizado do lugar da negra e do negro nesta sociedade.

Entre uma população afro, que a história inicia com a escravidão e finaliza  no pós-abolição, e para uma mídia que nos invisibiliza, erotizando os corpos de homens e mulheres negras como símbolo da sexualidade, para nós mulheres é permitido sermos a mulata exportação, da poetisa Elisa Lucinda e da performance de Gisele Marques, mas daí almejarmos o alcance de mulheres como a repórter Glória Maria e a Maju, é um desafio para a maioria dos brasileiros e brasileiras, que escolhem cotidianamente a opressão racial, ao não colocar em xeque os privilégios da branquitude, e para a manutenção destes privilégios, ludibriam as categorias racismo  e classe, esquecendo que no Brasil ambos estão em constante diálogo.

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Marcha das Mulheres Negras 2015, encontro entre a Marcha das Mulheres Negras de Floripa e Marcha do Empoderamento de Salvador.

Falamos de 50 mil mães Pretas, que perdem seus filhos durante o decorrer de um ano,  como apontou Cintia Cardoso no III Afro Divas, “balas perdidas que sempre encontram um alvo certeiro”, da morte materna, que nos assombra, dos abortos clandestinos, que coincidemente leva a óbito um maior número de mulheres Pretas, a precária condição de trabalho de nossas mulheres e o aumento do feminicídio. Ao mesmo tempo em que milhões de Pretas, estão  prontas para assumir, a gestão pública,  o controle social, e lugares de prestígio. Falamos das mesmas mulheres? Sim, discutimos os desafios e a pluralidade de pensá-las sem sujeitá-las em um retrato fixo.

É dessas vidas, que estamos a falar e se vamos refletir sobre Raça e Gênero, se vamos conversar sobre feminismo negro, precisamos falar a partir dos nossos corpos e experiências, que traduzem e contam histórias, em que as memórias de dor mas igualmente da superação, que designa a sobrevivência da cultura e da felicidade de Ser, entre a sua comunidade e este mundo branco e sexista é o foco. A tradução de nossas angústias e opressão no desenvolvimento de políticas públicas, com orçamento, agendas transversais e comprometimento de gestores e gestoras públicas, que insistem em racializar “Somos todas iguais”, ao cobrarmos a interseccionalidade para o desenvolvimento da democracia.

Para nós, as tranças, turbantes, cabelos crespos, dizem que é preciso resistir, como afirma Stuart Hall, “Toda representação é política”, uma geração de militantes que vem afirmando-se, usando seu corpo como arma, assim como na década de 1970, com Black is beuatiful, longe de poderes econômicos, o corpo é tudo que temos. Pretas, amando-se e ensinando seus descendentes a não se odiarem. Essa narrativa, bem nos lembra as nossas manas, da Marcha do Empoderamento Crespo: Mulheres Negras na luta pelo direito do cabelo encrespar. Mulheres, que desde a cidade de Salvador compartilham sonhos com as minas da cidade de Desterro. Com atitude, coragem e muita alegria essas mulheres ousaram dar um basta à imagem eurocêntrica de Ser e Existir e Resistiram, construindo caminhos para a liberdade. De acordo a Ivy Guedes, umas das organizadoras da Marcha do Empoderamento Crespo, afirma ao refletir sobre o significado desses movimentos, que ocorrem por todo país: “São movimentos estéticos que identificam os cabelos como fios condutores de novas identidades, verifico negras ousando assumir uma estética anteriormente negada”.

Quem conhece Salvador e compreende o fosso que vivem os soteropolitanos, a mesma cidade que mantém seu turismo da imagem e da cultura afro-brasileira como espetáculo, reforça a toda instante os privilégios de ser branco, nada diferente de qualquer outra capital brasileira.  Impactante é pensar, que 80%  de sua população se autodeclara preta. Deste modo, a discussão do direito de Ser Preta e de encrespar, seja em Salvador, em Florianópolis, ou em qualquer outra região do país e das Américas é pauta de nossas mulheres, com criatividade e emancipação política vão reinventando-se.

O III Afro- Divas, realizado pelo Coletivo Pretas em Desterro e entidades parceiras, consolida-se como espaço comunitário, de diálogo para a construção do nosso bem viver. Marcando, a existência de um grupo de mulheres, que se forjaram durante a organização da Marcha das Mulheres Negras, reconhecendo-se como:  Pretas em Desterro, em um esforço profundo para apreender o sentido comunitário e a organização da esfera pública, como ação emancipatória do grupo que representamos, a democracia como bem disse Marilena Chauí, como a luta constante por direitos. Nas palavras da filosofia africana Ubuntu, da qual  tornou-se uma referência, a construção, a partilha, e o fortalecimento de mulheres que se reconhecem dentro deste espaço comunitário, e compartilham sua humanidade e valores civilizatórios, em uma humanidade  realizável em soma. Recordando, que a escrita não é uma tentativa de esgotar o significado e importância de todas as mulheres envolvidas nesse processo histórico, mas de enfatizar o quanto somos importantes umas para as outras e para as histórias de novas gerações, que possamos representar para nossas crianças, a esperança e orgulho que nos causa uma Antonieta de Barros, Clotilde Lalau, Valdeonira Silva dos Anjos, Jeruse Romão, Estela Cardoso, Ana Lucia Martins, Eliana dos Santos, e tantas outras mulheres, que fazem e fizeram história no estado de Santa Catarina.

Cenas do II Afro/Divas. Foto: Clarissa Peixoto

Cenas do II Afro/Divas. Foto: Clarissa Peixoto.




Conselheira do Portal Catarinas, é mestra pela PUC/SP em História Social, atua como pesquisadora associada no Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UDESC e no grupo de estudos Cecafro da PUC/SP. É secretária de mulheres da União de Negras e Negros pela Igualdade (UNEGRO) e integrante do Coletivo de mulheres negras Pretas em Desterro.
Veja a coluna da Cristiane Mare