Coluna da Angelita Cardoso

O medo do gozo

Postado em 24/03/2017, 8:44

O corpo, “lugar de dissolução do eu”, “volume em perpétua pulverização”, traz consigo “em sua vida e em sua morte, em sua força e em sua fraqueza” a inscrição de todos os acontecimentos e conflitos, erros e desejos (Foucault – História da Sexualidade)

Atualmente, somos bombardeados pela mídia com imagens sexuais de mulheres, eróticas, que estimulam. Os sexy shops continuam investindo muito mais em brinquedos para mulheres do que para os homens. Mas, no entanto, sabemos que 1/4 das mulheres não chegam ao clímax  e que para alcançar o grau máximo do prazer é necessário conhecer o próprio corpo e a masturbação é a melhor maneira de obter esse conhecimento. Mesmo assim, ela é quase que completamente excluída do discurso sobre o gozo. Por quê?

O que conseguimos entender é que os discursos não são aniquiladores da prática, mas de algo mais perverso que perpassa vários aspectos da condição humana. A questão do prazer. Admitir o prazer na vida, no corpo. O prazer de si. O prazer de estar para o outro.

Para além do que já foi dito, ainda temos que falar de mais um ponto de desentendimento do sexo solitário em relação ao sexo acompanhado. O pensar do sexo solitário como sendo algo somente  para os solitários, o que é redundante, mas é um pensamento muito comum na sociedade. Pensa-se que a masturbação vem de uma pulsão sexual que é  dada quase exclusivamente aos homens, que as fantasias são também pertencentes ao mundo masculino e que somente as mulheres solitárias,  mal-amadas ou pervertidas, tem como hábito essa prática.

Assim, a prática  que é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) uma das formas saudáveis de expressar a sexualidade, se torna tabu para muitas mulheres. Elas escondem ou dizem que não fazem com o medo do julgamento, do enfraquecimento do sexo a dois.

Mas, tais práticas são completamente diferentes e podem ser complementares. A mulher que sabe dos seus desejos e limites, também ensina ao parceiro e tudo pode ficar muito mais interessante e completo.

Estudos atuais, firmam que mesmo quando a mulher tem um orgasmo com penetração esse vem da estimulação clitoriana. E, mais, que o gozo na mulher se dá pelo aprendizado, a mulher precisa aprender a gozar, a fazer a comunhão entre vagina e cérebro.

Se pensarmos  no gozo feminino, na sua força, entendemos também sobre o medo. O gozo feminino dura cerca 25 segundos. A mulher pode ter um orgasmo atrás do outro e existem também as poliorgásmicas, capazes de ter [vários] orgasmos, num mesmo ciclo de resposta sexual.

Quando pensamos na história e como ao longo de tantos séculos fomos oprimidas, reguladas, sufocadas conseguimos entender o porquê da manutenção do tabu. Muita coisa evolui, claro, mas a mudança de mentalidade é demorada e ainda estamos lutando com a mentalidade do século 19.

“Não se nasce uma mulher torna-se” a famosa frase de S. Beauvoir, explica quase tudo sobre o projeto “Conhece-te a ti mesma”. Ao propor uma prática de imagens sobre a masturbação feminina, o que se quer revelar é o aprendizado sobre si mesma. Como o feminino se forma, toma forma e ganha vida própria. A menina logo cedo aprende sobre si mesma com repressão.  E, ao envelhecer, sabe que o gozo é seu. O parceiro é bom, mas não responsável por ele. Ele acontece muito mais porque ela sabe aquilo que lhe faz bem. Conhece também o que não gosta. Troca, toma atitude e permite-se o gozo profundo. Mas, isso não é somente sobre o gozo, ou sobre o gozo sexual, isso é apenas o começo. A grande questão é o uso desse prazer para a vida. Ao se permitir transbordar para muitas áreas e com criatividade, o feminino está pronto para recobrar o seu poder na sociedade.

Esse texto integra a pesquisa que deu origem à exposição “Conhece-te a ti mesma” de Angelita Cardoso. 




Artista plástica, historiadora e pesquisadora de imagens. Em seu trabalho utiliza técnicas como gravura em metal, aquarela e pintura. Participou de diversas exposições coletivas em São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina. Trabalha a questão do feminino e da sexualidade como tema principal de sua obra há mais de 10 anos.
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