Ilustração: Isadora Caldas

Coluna da Claudia Regina Nichnig

Maternidades em tempos de pandemia: a menina ao punho

Postado em 12/07/2020, 11:16

Nesta semana, trazemos o texto das pesquisadoras Mirella Alves de Brito e Patrícia de Moraes Lima, o qual discute a infância em tempos de pandemia, através da cena emblemática vivida pela filha do presidente e seu pai. Ao lado do pai, a menina de nove anos participa, aparentemente forçada e contrariada, da cerimônia do Dia do Trabalhador. “A MENINA ‘AO PUNHO’: POLÍTICA E RE(EXISTÊNCIAS) NO BRASIL DA COVID-19” compara a cena da menina, conduzida por seu pai pelo punho, aos punhos cerrados e erguidos das manifestações feministas, em que as meninas e mulheres reivindicam equidade de gênero, uma sociedade mais livre, sem violências e discriminações.

 

A MENINA “AO PUNHO”: POLÍTICA E RE(EXISTÊNCIAS) NO BRASIL DA COVID-19

A entrada do outono não poupou o país de uma grande tragédia. Diferente dos desastres “comuns” nos meses de dezembro e janeiro no Brasil, onde as chuvas arrastam as casas sobrepostas nas encostas do um precário processo de urbanização e acúmulo de êxodos que deflagram a “ordem social” em um país que tem sua memória fundada na escravidão dos povos indígenas e negros, o desastre agora é viral. O vírus traz essa imagem em devir (Deleuze e Guattari, 1996) como aquilo que causa disjunções e nos coloca a frente de “programas” que não estão suficientemente seguros.

O aparelho de Estado que se mantém por fundamentalismos perenes e uma moral estatizadora enfrenta o inimigo invisível – o vírus/Sars Cov2 – que nos oferece a modalidade da contínua diferenciação em cada organismo que o hospeda. Desde a morte iminente de um corpo que poderá não abrigar suficientemente tudo que o Sars Cov2 mutila (a miséria, a precarização de um sistema de saúde, a obesidade, os mais velhos, os diabéticos, etc.).

Sem máscara e acompanhado da filha Laura, Bolsonaro desceu a rampa do Planalto e cumprimentou apoiadores/Foto: AP Photo/Eraldo Peres

Até mesmo, a salvação depois de alguns dias em UTIs ou a sorte de sair ileso e assintomático no ciclo dos quatorze dias de circulação em nosso organismo. É fato que estamos vivendo um tempo em que o pano de fundo enuncia uma subjetividade que precisará ser decifrada pela preponderância do discurso médico-científico que se atualiza sobre o horizonte “tele” produzindo uma permanente atenção às formas de contato e contágio. Viver sobre o perigo, o medo e a finitude têm um preço! O sintoma é uma sociedade viral que põe uma pergunta: Onde estão as crianças?

Era 3 de maio, dois dias após as comemorações quase silenciosas pela passagem do 1º de maio em meio a pandemia pelo vírus Sars Cov2. Às portas do Palácio da Alvorada em Brasília, uma criança é carregada pelo pai, que segura seu punho e desfila com ela diante de um pequeno aglomerado de pessoas que descumpriam todas as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o isolamento social. A criança e seu pai, representavam a família do então cargo máximo do país.

Foi essa cena que nos remeteu ao complexo ocultamento das crianças em tempos de crise. Aqui o ocultamento diz respeito, não ao oposto de uma aparição, mas aquilo que a aparição esconde e/ou revela. Aquilo que se apresenta aos olhos de um país que está diante de uma psiquê fundada sobre o fascismo, sobre a crença de que se é um “mito “, traz ao punho a criança, filha e mulher. Essa mesma imagem oculta, em um só tempo, o lugar das crianças em um cenário político brasileiro em pandemia: o fato de serem assintomáticas sobre o horizonte da ignorância, vulnerabiliza ainda mais a criança menina, mulher que se apresenta “ao punho” do mito. O que podemos pensar sobre a imagem? O que ela nos diz? Quem são as crianças em contexto de pandemia?

Primeiro podemos pensar o que é um mito em uma cultura ocidentalizada e quais relações tem com a infância. Um mito na leitura ocidental é uma narrativa coletiva sobre o passado onde são incluídos elementos religiosos e fantásticos, de maneira metafórica para explicar determinado acontecimento ou sentido sobre determinado fenômeno, servem prioritariamente para explicar o mundo.

Entretanto, o modelo ocidental não resume o que as populações ameríndias expressam em seus mitos, tampouco às sociedade de tradição yorubá, uma vez que o mito nessas sociedades é vivo, recuperado frequentemente como meio de introduzir seus membros no universo simbólico que dá sentido ao mundo e as coisas, e como forma de resistências de suas origens. Um mito pode enunciar elementos que se referem às formas como a sociedade se organiza, como os membros expressam seus sentimentos e como se relacionam entre si, conforme podemos ver nos textos de Claude Lévi-Strauss.

Punhos cerrados em o espetáculo “Lugar de Escuta”/Foto: Stephan Solon

Nas sociedades ocidentalizadas, os mitos muitas vezes servem para tornar intocável um conhecimento ou uma personagem da história, como são os mitos que envolvem a figura do Papai Noel, ou as metáforas oferecidas pelos livros religiosos, como a história de Cristo, de Moisés e outros. Ter um chefe de Estado que se auto nomeia “Messias”, aquele que foi enviado para salvar seu povo, atua diretamente no universo simbólico de quem compartilha desse mito como resposta ao entendimento sobre a origem do mundo.

A criança “ao punho” carrega a noção do assujeitamento ao Estado representado pelo seu patriarca. Bell Hooks (2017) ao narrar sua infância nos apresenta imagens de uma cultura onde obedecer é a marca inaugural de uma educação ocidentalizada que se normatiza reiterando uma sociedade que tem como centralidade a supremacia branca, o patriarcado e as desigualdades sociais.

A produção de um mito, de um messias, carrega essa representação. Um homem branco que governa declaradamente para os ricos. Uma criança (filha-mulher) que é ensinada a obedecer! O punho que carrega a filha à nação nos diz sobre a obediência civil que é endereçada por essa imagem. A menina “ao punho” traz em sua infância o avesso do punho que se levanta pelas meninas-mulheres negras das favelas – que cerram seu punho em nome da luta antirracista e pela justiça social. O punho cerrado representa também a luta constante para saber: QUEM MATOU MARIELLE?

Não temos uma única representação da infância! O que o messias tonaliza pelas redes sociais é uma imagem que tem historicidade. Carregamos uma história de luta pela democracia e o punho representa nossa desobediência. Nossa memória!

Hannah Arendt (2002) nos fala sobre o totalitarismo como uma das piores faces do governo, no entanto, nos alerta para a capacidade humana de agir. A capacidade humana de agir no mundo pela política. A criança-menina que vem “ao punho” põe em cena o pensamento sobre a infância e seu assujeitamento, mas isso está sobre um horizonte de memória que o patriarca jamais alcançará – infância e nascimento! A natalidade e a infância para Arendt (2002) trazem a possibilidade para humanidade de sempre se inventar.

Nascemos quando agimos em conjunto! O punho que nasce de um comum que segrega e discrimina é por nossa capacidade de pensar e por nossa memória de luta pela democracia, o punho de um corpo político que clama por justiça social.

E do presente, com nossos punhos cerrados que clamam por democracia e memória, vamos ao ano de 1998, quando acontecia em Brasília, coordenado Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, o V Encontro do Movimento Nacional de Meninos e Meninas. Com o slogan Queremos Viver e não Sobreviver, meninos e meninas de todos os cantos do país se reuniram para protagonizar o que seria mais um apelo pela implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente, publicado em 1990. Vale dizer, que após muita luta, o Brasil se tornou referência mundial no campo dos direitos de crianças e adolescentes, por ter publicado uma lei especial que garante a proteção integral às pessoas com idade de zero a 18 anos, reconhecendo que essas pessoas eram tão sujeitos quanto todas as outras.

E no noticiário no ano de 2020, uma garota é levada por seu pai, carregada pelo punho para uma manifestação questionável, do ponto de vista dos direitos humanos, e sendo esse pai o chefe de Estado e também o maior empecilho para a manutenção do isolamento social necessário para a retração e prevenção de uma pandemia que assolou o planeta.

Desde então, a cena passou a fazer parte de nossos reflexões, dos debates online e de nossos pensamentos e nos levou a muitas outras, entre elas, a garota de vestido vermelho no filme A Lista de Schindler, cujo cartaz da película foi eternizado pela mão de um adulto, homem, no punho de uma criança, menina. Não por acaso estamos falando de um contexto em que o fascismo dizimou um número aproximado de 85 milhões de pessoas no mundo.

A história do obscurantismo das infâncias no mundo é recorrente e, em especial, no Brasil. Revisitamos o texto de Fábio Pestana Ramos (in PRIORI, 2000), no qual ele disserta sobre a chegada das primeiras navegações portuguesas em solo brasileiro e reconstrói a forma como eram escolhidas as tripulações ainda em Portugal. Conta ele que a Coroa Portuguesa recrutava meninos em idade de nove a 16 anos para serem grumetes nas embarcações. Esses meninos eram filhos de famílias pobres que ao enviarem seus filhos, recebiam um soldo e passavam a contar menos uma boca para comer. O fato é que suas sortes em mar ou em terra não se diferenciavam muito, porque sempre estariam em condições precárias diante dos adultos que não os consideravam humanos. (RAMOS, 2000).

Nessa linha da história como podemos pensar as infâncias atuais, como elas aparecem e como são impactadas pela pandemia do Sars Cov 2, compreendendo que são diversas e que foram construídas historicamente. Sobre essas diferenças, iremos conduzir o pensamento desde a noção de intersetorialidade, para considerarmos as desigualdades marcadas por questões de gênero, raça e classe e as urgências em políticas que venham ao encontro das necessidades para pensarmos sobre as crianças e as infâncias em tempos de pandemia.

Referências
ARENDT, Hanna. Entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Perspectiva, 2002.

BEll-Hooks. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade.2 ed, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estud. – CEBRAP, São Paulo, n. 79, p. 71- 94, Nov. 2007. Available from. access on 21 June 2020. https://doi.org/10.1590/S0101-33002007000300004.

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia vol.1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1996

LEVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado. Lisboa: Edições 70, 1978

LEVI-STRAUSS, Claude. O Cru e o Cozido (Mitológicas 1) São Paulo: Cosac Naify, 2004.

LEVI-STRAUSS, Claude. O suplício do Papai Noel. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

PROFICE, Christiana Cabicieri; SANTOS, Gabriel Henrique Moreira dos. DE GRUMETES A KUNUMYS – ESTILOS DE INFÂNCIAS BRASILEIRAS. Hist. Educ., Santa Maria, v. 21, n. 53, p. 307-325, Dec. 2017 Disponível em, acesso em 17 June 2020. https://doi.org/10.1590/2236-3459/61054.

RAMOS, Fábio Pestana. A história trágico-marítima das crianças nas embarcações portuguesas do século XVI, In.: PRIORI, Mary Del. (org.) História das Crianças no Brasil. (2ª ed.) São Paulo: Contexto, 2000.

Sobre as autoras
Mirella Alves de Brito é psicóloga clínica com experiência em atendimento infanto-juvenil; doutora em antropologia com pesquisa no campo da antropologia do sujeito e em saúde mental, membro do TRANSES – Núcleo de Pesquisa Antropologia do Contemporâneo.

Patrícia de Moraes Lima é professora da área Educação Infância no Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordenadora dos Grupos Pesquisa CNPq – NUVIC e GEPEI.




Claudia Regina Nichnig é historiadora, advogada e doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, na área de Estudos de Gênero, e pós-doutora em História e Antropologia Social.
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