Coluna da Barbara Bíscaro

Generalizar é preciso, pensar não é preciso

Postado em 10/04/2017, 22:44

Hanna Arendt, filósofa alemã que viveu entre 1906 e 1975, já nos avisou que o matemático Pascal estava certo quando disse: “nada é mais difícil que pensar”. Nada é mais difícil do que se informar e tentar compreender a realidade que nos cerca, as pessoas e os acontecimentos através das suas próprias lentes. Generalizar, por outro lado, é simples, rápido e indolor. Não gasta tempo nem franquia da internet, é só conhecer algo superficialmente, juntar dois ou três lugares comuns que se leu em algum lugar, uma colher de sopa reforçada de preconceitos e, pronto, você está apto a emitir uma opinião publicamente.  No país que vivemos hoje então, você está apto a tomar uma decisão importante que vai impactar a saúde, a educação ou o transporte público de sua cidade através de simples generalizações. Nenhum conhecimento de causa. Nenhuma análise mais profunda dos fatos. Nenhum estudo de impacto. Apenas um achismo e pronto.

Confesso que o me moveu a pensar nas generalizações como esse mal devastador foi o episódio do processo de uma aluna contra sua orientadora na Universidade na qual trabalho temporariamente. O que me chocou não foi apenas o fato em si, porém os comentários utilizados nas redes sociais para justificar e apoiar um lado ou outro. Uma pessoa comentou em uma publicação minha algo do tipo “xs professorxs são todos blabláblá”. Eu, como professora e feminista, me senti particularmente incomodada. Porque tem sido muito fácil criar lugares-comuns nas redes sociais sobre uma profissão ou outra, sobre um grupo social ou outro. Esses lugares-comuns se espalham mais do rastilho de pólvora, criando às vezes danos mais amplos do que podemos imaginar. Fale todos os dias uma mentira e ela se tornará uma verdade, dizia minha avó. Generalizar tem sido a única forma de discussão de 80% dos diálogos que tenho observado ao meu redor. Generalizar é fácil porque é simples, não demanda esforço em isolar cada situação e tentar entender a sua complexidade.

Afinal, vamos combinar, pensar realmente não é preciso (no quesito precisão mesmo, pontaria). Quando eu penso me deparo com contradições. Quando penso, vejo a complexidade da vida. Humanizo o outro, questiono a realidade. Me assombro. Pensar nos coloca em sérias dificuldades porque podemos estar erradxs. Podemos perceber que nossa lógica de mundo é realmente meio torta, meio cruel, meio mesquinha. Quando pensamos já não conseguimos mais separar o mundo entre certo e errado, bom e mal, deus e o demônio, civilizados e animais, comunistas e capitalistas, flamenguistas e botafoguenses. Vemos nuances de coisas que antes pareciam muito certeiras. Daí, perdemos a pontaria, ganhamos a imprecisão. A cômoda e permanente sensação de instabilidade que a vida adulta nos causa.

Pensar acaba com a possibilidade de continuar colocando pessoas, coisas e fatos em duas ou três caixinhas únicas e bem definidas. Feminista igual a puta, porque quer dar para qualquer um e fazer aborto todo dia. Professorx igual a comunista, porque quer ensinar a ideologia de esquerda às pobres criancinhas e passar o dia inteiro doutrinando pobres seres sem capacidade de pensar por si próprios. Funcionárix público igual a vadix, porque ganha todas as regalias possíveis e um mega salário para ficar o dia inteiro sem fazer nada em um escritório.  Evangélicx igual a fanáticx, que cospe lugares comuns da Bíblia para justificar suas posições agressivas e apoia o Bolsonaro.  A dimensão do humano se perde no mar das generalizações. Tenho amigxs professorxs, feministas, funcionárixs públicxs e evangélicxs… e elxs não se resumem a esses dois ou três comentários infelizes e cruéis. Porque não conseguimos estender esse pensamento do humano às pessoas que não conhecemos?

Nossa amiga Hanna Arendt nos apresentou também um conceito batizado por ela como a “banalidade do mal”. A grossissimo modo, ela explica que os atos de maldade não são somente aqueles atos hediondos, perpetrados por bandidxs, estupradorxs e assassinxs com a faca na mão e a cara de vilãx de filme. O mal pode ser executado por umx simples funcionárix, que, ao cumprir ordens, carimba papéis em um escritório limpo e organizado, completamente consciente de que tais ordens carimbadas e despachadas servirão para assassinar milhares de pessoas. Porém, elx não é “responsável” por matar essas pessoas, só carimba os papéis. Elx está com a consciência limpa. Organizadamente se mata, sem sangue das mãos e sem risada de bruxa malévola ecoando no fundo. O carimbo de uma pessoa que não pensa ou questiona os seus atos mata tanto quanto o gatilho. O silêncio que mata tanto quanto a explosão.

Nossas atitudes individuais podem fazer a diferença sim. Posso, no silêncio do meu quarto, ao consumir pornografia, matar mulheres escravizadas sexualmente em algum rincão do planeta. Posso, na tranqüilidade da minha sacada, bater panelas e comemorar que milhares de brasileiros retornarão a viver abaixo da linha da miséria. Posso, na minha reunião a portas fechadas, decidir quebrar um programa público que atende a milhões de pessoas para beneficiar alguns poucos que apoiaram a minha candidatura. Posso ser monstruosa sim, sem cometer nenhum “crime”. Afinal, pensar não é necessário. Obedecer, sim.

 




Barbara Biscaro é atriz/cantora e pesquisadora nas áreas do teatro e da música. É Doutora em Teatro pela UDESC e coordena, conjuntamente com outras atrizes, o projeto Vértice Brasil, voltado para a discussão e visibilidade do trabalho de mulheres criadoras no teatro.
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