Obra “Costureiras” (1936) de Tarsila do Amaral.

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (4) – “É, eu nunca tive descanso”

Postado em 02/05/2021, 10:10

Domingo, dois de maio de dois mil e vinte e um. Hoje, faz 410 dias que virei refém deste vírus medonho, haja resiliência! A vacina chega em conta gotas, já que o inepto governo deste país negou, e continua negando com atitudes mórbidas, os efeitos do vírus – passam de 400 mil pessoas mortas por terem contraído a Covid-19, configurando um genocídio. Covardia e canalhice lhe sobram.

Minha mãe recebeu a primeira dose da Astrazênica, o que me conforta sobremaneira. Eu aguardo minha vez, paciente, mas nem tanto. Ando com um cansaço deste medo de ser contaminada, de comedir os abraços, das ausências e não encontros, do corpo que pede movimento no coletivo, das reuniões presenciais, das passeatas, de dançar a dois bem abraçados, festejar, passear.

Nesta semana, em Turvo, trabalhei na horta, carreguei pedras para o jardim, cuidei da casa – as mulheres sabem bem o que isso significa, ou tudo o que é necessário para que uma casa funcione – e também zelei pela minha mãe que precisa de atenção, medicamentos e cuidados especiais. Me enterneci com os pintinhos que a penosa cuida como se fossem seus! A enganamos porque os ovos que chocou durante 21 dias goraram. Meu irmão então comprou pintinhos e ela os adotou e se esmera nos cuidados!  Todas as manhãs os alimento e fico observando como ela os protege das investidas dos marmanjos que teimam em bicar os pequerruchos. Lindo de ver!

Continuo em estadias entre Florianópolis e Turvo, revezando nos cuidados com minha mãe. Aqui na sua casa de manhã calço as botas e me dedico aos arredores, enquanto Rita administra os remédios e faz o almoço. Nas tardes dedico-me à mãe até que ela durma, sempre pelas 22 horas. Depois leio e escrevo, mesmo cansada, porque se não escrever não relaxo.

Therezinha Nazarena Zanelato de Fáveri, mãe da autora, em sua rotina no quintal da casa/Foto: arquivo pessoal

Ontem foi sábado, 1º de maio. Me dei conta quando minha mãe falou “Marlene, entra em casa que tu ficas muito cansada porque trabalhas demais!”. Retruquei: “Mãe, a senhora fez isso a vida inteira, deixa eu fazer as coisas aqui fora! E hoje é o Dia da Trabalhadora e Trabalhador! A senhora descansava nesse dia?”. Seu olhar pousou longe, num cantinho da memória:

“É, eu nunca tive descanso, nem feriado, nem dia santo, nem nas quarentenas, muito menos no dia Dia do [a] Trabalhador [a], passei a vida trabalhando muito. Quando menina eu tinha uma enxada e acompanhava os grandes. Depois casei e nunca tive descanso, nem de dia nem até tarde da noite”.

Eu sei que é verdade o que ela disse. Larguei a enxada e a abracei com ternura.

Minha mãe foi educada para a cultura do labor como uma missão, e a carteira de trabalho como condição para a aposentadoria e segurança no futuro. Sempre perguntava se nós, seus filhos, tínhamos emprego com carteira assinada e tudo certinho. Ela se aposentou em 2004, aos 66 anos, após 30 anos de trabalho como agente dos serviços gerais numa escola estadual em Turvo. Alquebrada pelo esforço físico, um ano depois começou a ter os primeiros sinais do mal de Parkinson e sofreu muito com a perda de sua filha mais nova. Me vertem lágrimas de agradecimento por tudo o que ela fez pelos filhos e, se pudesse, tiraria suas dores. Faço o que está a meu alcance para lhe dar conforto e qualidade de vida na sua velhice.

“Mas por que ontem foi Dia do [a] Trabalhador [a]?”, perguntou. Então eu expliquei que o dia 1º de maio foi estabelecido como o Dia do Trabalhador em 1889, num congresso em Paris, realizado pela Internacional Socialista que reuniu partidos e sindicatos de trabalhadores da Europa. A data foi criada como homenagem aos operários que fizeram uma greve uns anos antes em Chicago, nos Estados Unidos. Eles reivindicavam a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias.

Era um tempo em que o capitalismo passava a dominar as relações de trabalho e a exploração da mão de obra das trabalhadoras e trabalhadores sustentava a acumulação de capital. Os sindicatos denunciavam os danos físicos e psicológicos, os salários de fome, a ausência de direitos trabalhistas. As mulheres não tinham licença para terem os filhos, além de receberem metade dos salários dos homens.

Disse a ela que, no Brasil, a data foi consolidada em 1924 como um dia “consagrado à confraternidade universal das classes operárias e a comemoração dos mártires do trabalho”, tornando o dia feriado nacional. Mas, no decreto assinado pelo presidente Arthur Bernardes, não há nenhuma palavra sobre leis trabalhistas, ignorando a exploração absoluta em que vivia a população trabalhadora. Nem referência sobre o trabalho escravo que, embora já legalmente abolido, continuava presente nas relações de servidão da Velha República.

No governo Getúlio Vargas (1930-1945) foi criado um conjunto de regras para proteger os trabalhadores e, em 1º de maio de 1943, houve a Consolidação das Leis do Trabalho, garantindo o salário mínimo, a carteira assinada, a jornada de oito horas, as férias remuneradas, a previdência social e o descanso semanal. Também regulamentava o trabalho da mulher e do menor de idade, e estabeleceu a obrigatoriedade do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Todavia, não significou que estas garantias fossem iguais para todas as pessoas: as injustiças sociais perduram até hoje.

Minha mãe ouviu, atenta, depois perguntou: “E para as mulheres, era igual?” Não, mãezinha, as mulheres tiveram que lutar muito por direitos, e ainda hoje a maioria delas tem salários diferentes dos homens para fazer o mesmo trabalho. Expliquei que o atual governo acabou com o Ministério do Trabalho e que hoje as trabalhadoras e os trabalhadores estão à mercê do capital com as medidas para concentração de riqueza do Guedes.

“Ah, eu vi na TV que a carteira de trabalho não vale mais, então vão matar os pobres de vez com esse governo, muito triste, muito mesmo! Minhas netas e netos não vão poder se aposentar, que tristeza!”, lamenta.

Minha mãe expressa seu feminismo por outras palavras e sentidos calcados na experiência de uma vida de muito trabalho e grandes dificuldades. Ela entende bem o que é ter necessidades e se desdobrar para que tivéssemos comida, agasalho e escola.

É verdade, mãezinha. Se a reforma no governo Temer fez piorar a vida das trabalhadoras e  trabalhadoras, este presidente sem caráter e sem noção do que significa trabalho digno – porque nunca trabalhou – vem destruindo os nossos direitos desde 2019. É um conjunto de medidas como trabalho intermitente, precarização dos contratos, mais tempo de serviço para a aposentadoria, redução proporcional de jornada e de salário, dentre outros retrocessos.

As mulheres da classe trabalhadora assumem dupla e tripla jornada. O trabalho da casa e cuidados com seus idosos e filhos, por exemplo, continua sendo desvalorizado, e a divisão do trabalho não é estabelecida em igualdade. A PEC das Domésticas vem sendo desmontada com o aumento da informalidade no trabalho e a redução do número de contribuintes ao INSS, fazendo com que milhões de brasileiras, e brasileiros, fiquem sem nenhuma proteção social, aposentadorias e pensões.

Estas medidas, que sufocam a população trabalhadora, agravam-se com a pandemia. O auxílio emergencial, além de insuficiente, sofreu cortes significativos neste ano, num país desamparado onde 117 milhões estão em insegurança alimentar e 19 milhões em situação de fome. As mulheres sofrem com a falta de perspectivas para si e seus filhos. “Quando a comida sai pela porta, a desesperança entra pela janela”, resumiu Paola Carvalho a partir da escuta destas mulheres. Será que ainda teremos um 1º de maio com esperanças?

Minha mãe se ressente destas tragédias. Sempre que ouve uma notícia sobre a pandemia, ela diz “Quanto sofrimento! Por que isso né?” É, estamos vivendo um tempo de liberalismo selvagem, de necropolítica nas veias, de exploração absoluta do trabalho e cooptação de mentes.

As mulheres são 52% da população brasileira. Urge consciência de classe, de empoderamento e escolhas de representantes que as valorizem como sujeitos do direito e cidadãs com dignidade. Se a revolução não vier pelas vozes e mãos das mulheres, não haverá revolução. Sigamos, na resistência!

“É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta”. Simone de Beauvoir

Marlene de Fáveri, 02 de maio de 2021. Turvo, SC.

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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