Marlene De Fáveri e Andrea Benghi / Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Feminismo nosso de cada dia (1) – “Eu me descobri feminista ontem!”

Postado em 11/04/2021, 10:00

Domingo, onze de abril de dois mil e vinte e um. Esta crônica marca um tempo em que, se ainda não é pós-claustro, ansiamos por vacina para todas as pessoas e pelo fim desta longa intempérie que nos consome de medos, saudades, angústias e perdas humanas. A pandemia se avoluma e continuamos reféns da rotina de ausências, solidões e distanciamento social. Em tempo de genocídio orquestrado por um governo nefasto e fascista, é preciso reagir e continuar vivendo. Viver e continuar reagindo. Sobreviver a esta moléstia torpe e engajarmos para que voltem os tempos democráticos, inclusivos e de justiça social real, é urgente.

No último ano, entre março de 2020 e março de 2021, escrevi cinquenta e quatro textos com denúncias viscerais sobre o descaso e a desumanidade de quem nos governa e sobre as violências que as mulheres sofrem. Tudo isso foi entremeado por acontecimentos do meu cotidiano na pandemia, vivido entre Turvo e Florianópolis. Aquelas crônicas, ou pelo menos metade delas, estão agora no livro Crônicas da Incontingência da Clausura – cotidianos na pandemia. No domingo passado foi feito o lançamento por via digital desde a casa da minha mãe. Claro que me emocionei e por vezes engasguei nos verbos, mas já aprendi a me perdoar por não ter dito tudo o que gostaria ou ter dito com a voz embargada. Ali, perto da horta, ao lado do jardim, espalhei aos quatro ventos meus escritos que agora pertencem às leitoras e aos leitores. Sim, escrevo para que pessoas possam refletir sobre si e, quiçá, ressignificar as lutas e as buscas por um mundo sem violências.

Backstage – Lançamento do Livro em Turvo, na casa de sua mãe, Therezinha / Foto: arquivo pessoal

Reunir estes textos foi um desafio, maior ainda numa crise econômica advinda da pandemia que afetou as editoras. Mas, como gosto de ousar, logo estará disponível o segundo volume que completa a série. Aguardem!

Escrever me liberta, e preciso das palavras neste ofício de expor ideias e criar textos. Não me permito parar. Inicio esta nova série de crônicas transversalizando-as pelos feminismos do cotidiano que me movem na experiência de ouvir sentidos e resistências de pessoas comuns que têm enfrentado o machismo estrutural que violenta mulheres e meninas. E alguns homens, também machucados pela masculinidade tóxica com que são educados.

Afinal, o que é o feminismo mesmo? Para quê, e para quem, serve? A feminista negra bell hooks – ela se assina com minúsculas –  afirma que o feminismo é para todo mundo, com o que concordo. Sendo uma forma de luta contra opressões, desqualificações e preconceitos, é emancipatório e generoso. O feminismo tem sua história enraizada na árdua resistência das mulheres que, através de muita luta, conquistaram direitos como o de votar, o de estudar, o direito ao corpo e a fazer escolhas, à saúde reprodutiva, a salários justos e equitativos, a participar da esfera pública política, dentre outros.  Isso significou e significa o usufruto do exercício da democracia e da liberdade. Se hoje enfrentamos uma guerra cultural contra o feminismo e, por consequência, contra os estudos de gênero, é porque grande parte da sociedade não reconhece os direitos das mulheres. Mas o feminismo incomoda a quem?

Incomoda ao modelo conservador de sociedade, não só aos homens, mas também a algumas conservadoras oportunistas que tentam tirar vantagem das estruturas patriarcais. Boa parte dessas pessoas apoia-se na moral e na defesa do modelo de família que entendem ser o único possível. Fascistas e neofascistas é o que são. Meu repúdio para todo o sempre!

Sim, o feminismo é libertador para todo mundo. Se serve para mim, serve para você, para os homens, para todas as mulheres que se insurgem, e para aquelas que ainda não tiveram oportunidade de verem-se como sujeitos de direito. Conheci Andrea Benghi dia desses, mulher no seu quase meio século, trabalhadora desde menina e mãe de dois filhos homens.  Enquanto almoçávamos, o assunto versou sobre o feminismo. Aproveitei para falar do meu livro de crônicas e das histórias de mulheres que nele conto…

Seus olhos brilharam! “Eu me descobri feminista ontem!! Foi por acaso, conversando com a Tashi (filha)! Eu achava que o feminismo era quase uma formação, um curso, uma coisa meio profissional, era a ideia que eu tinha, né”, disse ela, surpresa e encantada. Instigada por essa fala, perguntei como foi essa descoberta. “Ah, eu trabalhava numa empresa, e um colega que fazia o mesmo trabalho que eu, recebia 2.500 reais, e eu recebia 1.500. Eu não aceitava aquilo!! Por que ganho menos, se ele e eu temos a mesma função e mesmo tempo de empresa??”.

Ela contou que, durante meses, reivindicou a equidade do salário, mas o patrão desconversava. “Um dia enfrentei e disse: então me prove por que eu não posso receber o mesmo salário que ele? Me prove! Se a gente faz as mesmas tarefas, o que tem de diferença? Tem que ser equilibrado!”. Diante da justa reclamação da funcionária, o empresário acabou atendendo ao pedido. “Passei a receber o mesmo salário que meu colega!!! Foi uma batalha, mas eu consegui! E ao contar esse fato para a Tashi, descobri que isto é ser feminista!!!! Eu lutei por meus direitos!!! Me sinto forte agora, eu sou feminista!!!”. Não é para admirar e valorizar?

A fala de Andrea nos lembra a luta ao longo da história por equidade salarial. Os primeiros debates acerca das desigualdades entre homens e mulheres tiveram início faz menos de três séculos, oportunizados pelo processo de industrialização capitalista. Na época, Adam Smith, autor de A riqueza das nações, argumentava que a obrigação primeira das mulheres era a de ser boa mãe e esposa e de educar os filhos para serem trabalhadores produtivos que contribuíssem para a criação de riquezas. Isso dividia o mundo estre espaços público e privado, excluindo as mulheres dos empregos e, por conseguinte, forçando-as à dependência econômica de seus pais ou maridos. Nem se questionava o porquê de os salários das mulheres serem mais baixos, já que o emprego feminino era considerado complementar e circunstancial. Passaram-se séculos e, com os mesmos argumentos, até hoje mulheres recebem menos que os homens por igual trabalho.

No mercado de trabalho brasileiro, os homens, nas mesmas funções e com a mesma produtividade, chegam a ganhar até 25% a mais do que as mulheres, o que constitui uma discriminação inconstitucional, imoral e vergonhosa. Este debate está no Senado Federal que aprovou, dia 30 de março último, um Projeto de Lei para combater a desigualdade salarial entre homens e mulheres. Só falta o presidente assinar… Mas, o que esperar de um misógino machista???

Andrea conta que a sua igualdade salarial foi conquistada através da consciência gestada nas franjas do cotidiano, sendo que “é preciso matar um leão por dia e mesmo assim não nos ouvem. Esse teve que ouvir!!”.  Sim, Andrea, no feminismo nosso de cada dia há que ter força, coragem, resiliência e combater o patriarcado com as armas da consciência de classe.

Dei a ela um exemplar do livro de crônicas. Comovida, disse:  “Esta é a primeira vez que recebo um livro direto da autora, e ainda mais autografado!”. Então o folheou, depois leu pausadamente a dedicatória e sorriu. Nos emocionamos. O que dizer mais? Boa leitura, Andrea!

Andrea Benghi lendo o autógrafo/ Foto: arquivo pessoal

Desse fragmento da memória de Andrea, outras histórias merecem ouvidos atentos e são merecedoras de nosso respeito. A desigualdade entre homens e mulheres no mundo do trabalho está longe de terminar. Lutemos, pois!

Dedico esta crônica às mulheres que se insurgem e, a seu modo e sem que o saibam, estão afirmando o feminismo com outras palavras, ações e gestos.

“Toda vez que uma mulher se defende, sem nem perceber que isso é possível, sem qualquer pretensão, ela defende todas as mulheres.” – Maya Angelou.

Marlene de Fáveri, 11 de abril de 2021. Florianópolis.

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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