Na última sexta-feira, dia 28 de novembro, todas nos chocamos com mais um caso de extrema violência de gênero. No Cefet Maracanã, centro de referência no ensino público do Rio de Janeiro, duas servidoras foram vítimas de feminicídio. 

Apesar da dificuldade da grande imprensa em nomear corretamente o episódio, foi isso que aconteceu: feminicídios. 

Allane de Souza Pedrotti Mattos e Layse Costa Pinheiro foram covardemente assassinadas por João Antonio Miranda Tello Ramos Gonçalves. E considero fundamental identificá-lo dessa forma, justamente para que seu nome permaneça registrado pelo que é: um assassino, um feminicida. 

Algo que me chamou a atenção, ao ver as primeiras informações sobre o crime sendo transmitidas em um canal de notícias, foi o jornalista dizer que os assassinatos foram cometidos porque João Antônio “não aceitava ser chefiado por mulheres”. A misoginia desenhada para todos verem. Ainda assim, curiosamente, a palavra “feminicídio” não foi usada naquele momento para nomear o crime para os telespectadores.

A dificuldade com essa palavra não é de hoje. A imprensa, assim como as polícias e como a Justiça, parecem possuir uma barreira linguística quase inquebrável, que as impede, muitas vezes, de definir como feminicídios os assassinatos de mulheres apenas pelo fato delas serem mulheres. 

No sábado, dia 29, a jovem Jhessilane Silva foi morta a facadas na loja em que trabalhava, em Maranguape, região metropolitana de Fortaleza. O assassino era um ex-namorado que “não aceitava o fim da relação”.

Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Em 2024, segundo o Mapa da Segurança Pública, foram 1.459 vítimas. 

É um cenário desolador, onde não vemos mudanças significativas na preservação da vida das mulheres e meninas. Os números seguem altos, e números são vidas. São histórias e trajetórias interrompidas. Precisamos de mudanças que ultrapassem o âmbito  legislativo e que mudem a estrutura patriarcal do nosso país. Mudanças na mentalidade de uma nação. E a linguagem é uma importante ferramenta nesse processo.

É preciso chamar de feminicídio um feminicídio. Nomear aquilo que ainda, tantas vezes, não é dito. Dar gravidade ao que é grave. Saber que nesse mundo as palavras possuem peso e importam. 

A violência contra as mulheres existe e segue presente no nosso cotidiano, portanto, é nossa tarefa denunciá-la incansavelmente. E o vocabulário precisa ser nosso aliado.

Nada de “crimes passionais”, nada de “defesa da honra” ou “agiu sob forte emoção”. O ódio e a violência contra as mulheres, enraizados na nossa sociedade, não podem continuar sendo amenizados ou silenciados. Feminicídio. Esse é o termo. Esse é o problema. E é esse o nosso maior desafio. 

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  • Lana de Holanda

    Mulher trans/travesti, escritora e comunicadora, com enfoque em gênero, direito à cidade e política internacional. Estud...

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