Há algum tempo ali atrás, dedilhei algumas palavras aqui pelo Catarinas. A vida e minha pouca disciplina se encarregaram de me afastar da coluna. Recentemente, fui convidada a reativar meus pensamentos e compartilhá-los por aqui. Fiquei reticente e até ensaiei uma “enrolação”, mas – diante dos últimos episódios que envolveram o assédio que sofri no exercício de minha atividade parlamentar – acredito ser bastante importante reafirmar, mais uma vez, o óbvio.

O ano era 1932 e, no Brasil, a concretização para o voto feminino começava a ganhar traços. Ano após ano alguns avanços e pouca efetividade sobre uma massiva ou equânime presença de mulheres na política, mais especificamente nos espaços legislativos. Constituinte, Lobby do Batom, Lei das Cotas e ainda um incômodo: por que tão poucas mulheres ocupam esses espaços?

As respostas podem ser muitas: as mulheres não se interessam por política; os partidos não incentivam as mulheres a participarem; falta tempo de TV para falarem; falta investimento nas campanhas de mulheres. A academia, o judiciário, a alteração de leis e estatutos, todos se debruçam em refletir e tentar solucionar este problema. Sim, a baixa representação de mulheres, de negras e negros, de LGBTI+, de indígenas, de jovens é um problema. Para democracia, inclusive.

Mas, na verdade, o mais óbvio e o mais repetido ainda é a única resposta para tudo. E compreender sua sutileza, seus meandros e reproduções para tentar contê-lo é a primeira tarefa. O que nos amedronta e afasta da política é o “machismo nosso de cada dia”. Ele, sim, está incrustado em práticas cotidianas, como mexilhão na pedra.

Contraditoriamente, ou não, em que pese os últimos anos no Brasil tenha sido de extremo recrudescimento dos valores conservadores – cujas violências contra as mulheres é um quadro exemplar de suas manifestações – estes foram também anos em que as candidaturas e eleições de mulheres (em sua pluralidade) também protagonizou algum sucesso. Embora, infelizmente, o sangue que nos levou Marielle tenha precisado vir ao chão para regar tantas sementes.

É verdade também que as institucionalidades – organizações, locais de trabalho, partidos, tribunais, órgãos executivos, parlamentos – assim como os indivíduos que as ocupam são reprodutores de valores, de posturas, de códigos tácitos da cultura de um povo. Ainda que não deliberadamente, existem muitas práticas que dizem às mulheres: “vocês não deveriam estar aqui!” Gritos, gestuais, silenciamentos, truculências, falsas denúncias, menosprezos, e até um “abraço, afetuoso, de brincadeira, por trás, segurando fortemente seus dois braços e a imobilizando para não resistir a um baforento beijo no cangote”.

Não, apenas não. Nossos corpos não são território público. Pelo contrário, público é – no meu caso, e tantas outras – o Plenário da Câmara, local de trabalho, onde uma cena indecorosa daquela jamais deveria ter existido. Uma cena que jamais deveria ter levado nossas famílias ao constrangimento público. Uma postura que certamente não é a que define os votos de nossos eleitores. Uma cena que não agride só a mim, mas a todas as mulheres que passam, já passaram ou passarão por situações semelhantes.

Busco ser educada com todas e todos os colegas de trabalho, simpática, até mesmo afetuosa. Mas não, apenas não. Não dou a ninguém a liberdade de abordar meu corpo desta forma, nem por brincadeira, nem por repúdio ao confronto de ideias cujo local para debate é o púlpito. Não sou, nunca fui, amiga de quem me tocou desta forma. E mesmo que fosse isso não o daria o direito de fazê-lo.

Sim, claro que sim. Tenho várias imagens públicas de descontração com diversos colegas. Antes, durante, depois da sessão. Dentro e fora da Câmara. Mas não, apenas não. Não são credenciais, e nunca foram para nenhum deles me abordar desta forma.

O que autorizou o vereador a agir daquela maneira diante das câmeras, ao vivo, no ambiente de trabalho, não foi um gesto meu. Foi a misoginia naturalizada na sociedade, que tem motivado opiniões sobre “que bobagem, só um abraço”, ou “não é coisa pra tanto”, ou ainda “se fosse uma mulher certamente ela não faria esse escândalo” – e neste ponto chegamos a uma outra camada deste episódio que podemos conversar num outro texto: a lesbofobia.

Não me silenciar diante deste fato e levá-lo à cabo até onde for possível, é necessário para tentar parar a roleta russa da violência contra as mulheres, da violência política de gênero, do assédio. É gritar por todas as mulheres que passam pelo mesmo, mas são anônimas, não possuem as câmeras e as imagens para referendar sua palavra e sentimentos. É ilustrar o que muitas de nós passamos em outros ambientes de trabalho, no ônibus, nos espaços públicos em geral, mas não têm como provar.

Não me silenciar é inclusive agir para alertar aos demais colegas. É confrontar discursos fáceis de tribuna que repudiam violências contra as mulheres. É desafiar a que todos saiam de sua zona de conforto e definitivamente se posicionem. É convocar a institucionalidade a agir.

Não me silenciar é prestar contas para todas as mulheres que já passaram por estes espaços, e dizer-lhes que não foi em vão; e para as que ainda virão sinalizar que estamos buscando melhorar este ambiente. É reafirmar que “não seremos interrompidas” e que não vamos retroceder um milímetro no objetivo de ocupar cada vez mais a política e por aqui lutar pelos nossos direitos, assim como por democratizar a democracia.

Carla Ayres

Carla Ayres é mestra em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos e doutora em Sociologia Política pela UFSC. Atua há anos nos movimentos feministas e LGBTI+ e também contribuiu para uma consultoria internacional do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) para construção, elaboração e monitoramento de Políticas Públicas no Brasil. Em 2020, Carla foi eleita a primeira vereadora lésbica de Florianópolis - onde cumpre mandato até 2024 - e em 2022 se tornou 1ª suplente de deputada federal da Federação Brasil da Esperança em Santa Catarina.

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