Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (51) – ou as mãos que seguram lápis

Postado em 28/02/2021, 9:30

Domingo, vinte e oito de fevereiro de dois mil e vinte e um. Nesta semana voltei a Florianópolis e foi a décima viagem a Turvo no contexto da pandemia. Chegar em casa tem sido um suspirar de outros cheiros, outros sentidos, encontrar as coisas exatamente nos lugares onde as deixei, os livros amontoados pela sala e o degustar de folheá-los. Logo estarão entre estes os livros de Viegas Fernandes da Costa, Coliseu Tropical, e de Sandro Silva, Pergaminhos Digitais, leituras quentes como ventania e levezas, lançados nesta semana. Sucesso aos amigos! “Me armo de livros, me livro de armas”, escreveu a atriz mineira Cida Mendes, e postou no Facebook. Pasmem, está sendo agredida com piadas ácidas e ameaçada de morte. Terá cérebro quem prefira armas a livros?? Satânicos e pútridos negacionistas.

Minha mãe sempre gostou de livros. Ela não pôde estudar porque, filha de camponeses, seus braços eram para a roça e os trabalhos do entorno da casa, os animais, as plantas, a limpeza, a costura, os irmãos mais novos e assim. Ela se ressente por isso. Ela foi faxineira de uma escola estadual em Turvo até se aposentar e quando havia descarte de livros didáticos usados, ela os apanhava e em casa os folheava. Na minha casa sempre tivemos esses livros, mapas geográficos, atlas envelhecidos e cadernos onde ela escrevia o que queria lembrar depois.

Numa arrumação, encontrei pilhas desses cadernos recheados de bilhetes onde estão escritos os nomes de países e capitais, de flores, curiosidades históricas, poemas e algumas frases filosóficas copiadas de algum lugar. Houve uma época em que eu ficava incomodada com tantos papéis velhos – hoje eu agradeço que ela os guardou! Me comovo e sempre penso: por que não percebi estas raridades antes? Por que não a olhei mais, ouvi mais e não a cuidei mais nos tempos mais sombrios? Como poderia sabê-lo se a educação nos moldava para funções pré-determinadas? Como poderia reclamar, trabalhar, parir e obedecer, naturalizando essas prescrições de gênero? A ela foi negada a escola, como puderam fazer isso??

Dias atrás procurava um documento e abri caixas… chorei lendo seus apontamentos em papéis dispersos e cadernos, mapas com anotações e rabiscos. Por que agora me tocam tanto??  Este isolamento na clausura com minha mãe proporcionou-me esse olhar e tenho que enxugar os olhos neste escrever… Ela sempre fez o que pôde para que nós, seus filhos e filhas, estudássemos: “Eu não pude, mas vocês vão estudar, aprender a ler e a escrever direito!” A escola sempre foi prioridade, tanto que, com a pandemia e o impedimento de as crianças saírem de casa, ela tem repetido “que piedade essas crianças sem irem à escola! Meu Deus, perder um ano de estudos, que atraso, né?”. Ela se condói que a pequena Laura está há um ano sem ir à escola. Em parte, ela entende que a neta estuda pelo computador, que não perdeu o ano… Mas não muito.

“Mas eu aprendi pouco na escola! Eu gostava de ler o que tinha em casa, e assim aprendi a escrever também”, me conta, orgulhosa por ter sido uma autodidata. Com ela assim, pertinho, fui abrindo frestas de como valorizar essa sabedoria: “Mãe, escreve neste bilhete umas coisas que preciso comprar?” enquanto alcanço-lhe papel e caneta. Faceira, ela escreve com letra miudinha, linhas coordenadas, alguns erros na grafia, mas inteligível… ah, que coisa! Vou ao mercado com o bilhete escrito por ela!!

Foto: arquivo pessoal

Ela me contou que sua mãe, minha nona Henriqueta, também autodidata, colocava os pequenos na mesa aos domingos e ensinava as primeiras letras. “Minha mãe treinou um monte a escrita porque ela queria muito ir votar. Acho que foi em 1945… eu tinha uns sete anos, acho. Aprendeu a assinar o nome para votar e ficou contente! Ela lia, meio devagar, mas lia, nunca foi à escola, aprendeu sozinha, e nos ensinou o abecedário…”, lembrou minha mãe. O local de votação era longe, e a família foi numa carroça depositar esperanças numa urna… A eleição presidencial de 1945 é considerada a primeira verdadeiramente democrática da História do país e pôs fim à ditadura de Getúlio Vargas.

A data de 24 de fevereiro marca as lutas das mulheres pela garantia do voto feminino no Brasil, e fazem 89 anos. Mais tarde, a ditadura militar castrou novamente o voto e a cidadania de todos, homens e mulheres… Hoje, votamos e somos eleitas, mas ainda reféns de ondas conservadoras que, em nome de um deus e do machismo, apagam vozes violentamente como fizeram com Marielle Franco. Quem a matou? Impunes estão os crápulas com seus cheiros bafientos de veneno.

Com esses esforços e vontades minha mãe lê, embora se atrapalhe “com as vistas”, como diz.  Então eu ofereço coisas que sei que interessam a ela, com letras maiores, e ele se concentra… amo, amo e amo esta mulher!!!!

Foto: arquivo pessoal

Me desce uma onça raivosa contra esses idiotas que leem, escrevem, talvez alfabetizados em escolas públicas, que ameaçam e tripudiam a autora da frase que diz armar-se de livros e livrar-se de armas! São perversos em tudo o que pensam e fazem. São as mesmas pessoas que negam vacina, saem destilando ódios e se afobam para usar armas que o bizarro ‘donatário’ insiste em liberar geral. A elas, meu mais profundo desdém.

Estas mesmas pessoas se amontoaram no carnaval e agora vemos o preço da balbúrdia: morre-se à espera de leitos e respiradores. A distopia não era tão distópica, e muitas pessoas sem noção de realidade negam-se ao uso de máscara protetora, se amontoam nos bares e circulam por aí como se fossem imunes. Miseráveis de tudo. Passam de 255 mil óbitos no Brasil, uma tragédia anunciada pela falta de coordenação do governo federal para o gerenciamento da crise do coronavírus.  A pátria sangra e seus algozes comem picanha às gargalhadas, lambuzando-se de leite condensado. Me fazem esgar de escárnio. Florianópolis, assim como todo o estado se Santa Catarina, está em risco gravíssimo para o Covid-19.

Nesta semana, o neurocientista Miguel Nicolelis afirmou que hoje o Brasil é o “maior laboratório a céu aberto onde se pode observar a dinâmica natural do coronavírus sem qualquer medida eficaz de contenção“. Estamos sendo governados por um genocida, nacionalicida, ferrabrás das cavernas, patrioticida, num pandemônio assombrado pela necropolítica ferrenha: quem tem direito a continuar vivo, viva?  No estrondoso poema Os homens ocos, escrito em 1925, o poeta T. S. Eliot  dimensiona a catástrofe inevitável no seu tempo, os algozes e as angústias das pessoas “empalhadas” e “homens vazios”,  cujas escolhas livres são meras ilusões, prevendo o que aconteceria cem anos depois:  “E assim acaba o mundo. E assim acaba o mundo. E assim acaba o mundo. Não com uma explosão, mas com um gemido”.  O mundo de milhões de humanos está acabando  sem o zinudo de um respirador, em gemidos de dor e solidão. Uma verdadeira catástrofe.

A inequívoca disseminação do vírus nas escolas é fato, preocupação que levou, nesta semana, à formação da Jornada Nacional #VacinaParaTodosJá, com críticas contundentes ao atraso na compra dos imunizantes ou vacinas. Na live desta Jornada, a professora Rita de Cassia Gonçalves (UDESC), do Fórum Popular pela Educação, resumiu com propriedade: “Para educar é preciso estar vivo. Para educar é preciso estar vivo e com saúde!”. Estudantes querem voltar aos bancos escolares, fazer amizades, correr e abraçar colegas, como professoras e professores querem estar lá no mesmo chão da escola, colhendo sorrisos e ensinando as primeiras letras e as seguintes… Mas professores estão morrendo, crianças estão morrendo, famílias enlutadas, filhos órfãos, pais desesperados… Bom senso, governantes!!!

Não bastasse o caos sanitário, este governo pretende retirar recursos constitucionais obrigatórios da educação e da saúde (PEC 186), instalando a destruição dos serviços públicos com a infame reforma administrativa.  Tomo as palavras de Daniel Cara, professor e dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação: “As pessoas vão demorar para compreender o problema, porque é só a partir do ano que vem que vai começar a faltar recurso para pagar professores. Daí em diante é fechamento de escola e exclusão escolar. Em suma, essa PEC é a combinação da ignorância com a morte. A falta de políticas de Educação vai gerar ignorância. A falta de políticas de Saúde vai gerar mortes”.

Mas não esmoreçamos: estamos na resistência e, nos dias três e oito de março, faremos ainda mais barulho na defesa do Sistema Público de Saúde, dos recursos para a assistência social, para a educação, para ciência e tecnologia, por vacinação pública para toda a população, pelos direitos das mulheres e contra o genocida torvo e enojadiço.

Toda essa digressão a partir de minha mãe lendo e contando a história da sua mãe é para dizer que a escola é necessária com suas vozes e cores e etnias e sexualidades e raças e classes – mas com responsabilidade.  Minha mãe não nos deixaria ir para a escola nesse turbilhão de medos… nem eu deixaria se tivesse filhos em idade escolar.

Notícia boa é que minha filha Tashi voltou da Itália, agora também cidadã italiana. Não que isso nos importe como sentimento de pertencimento a uma nação europeia, mas do jeito que as coisas andam por esta província desgovernada e falindo dia após dia, talvez seja uma saída para sobreviver.  Não, não nos vimos: ela ficará quinze dias em isolamento em Curitiba e então nos abraçaremos!  Estamos bem, e estimo que todas as pessoas que aqui me leem e também todas as pessoas democráticas estejam bem de saúde nestes tempos furiosos.

O escritor anarquista Henry Thoreau, em 1849, disse que “Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro.”  Na paráfrase, incluo “muitas mulheres”, elas que seguram o lápis nas mãos dos pequenos…

Queremos livros, e não armas! Solidária com Cida Mendes, com professoras, professores e estudantes.

#VacinaParaTodosJá

Marlene de Fáveri, 28 de fevereiro de 2021. Florianópolis.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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