Marlene de Faveri
Foto: Laura Paulino de Fáveri

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (50) – ou além da pandemia, um olho machucado

Postado em 21/02/2021, 10:11

Domingo, vinte e um de fevereiro de dois mil e vinte e um. Esta semana foi corrida para dar conta de tudo por aqui na casa de minha mãe. Desdobrei-me dentre os tantos afazeres na horta, jardim, pomar, galinhas, o bom funcionamento da casa e os cuidados com ela. Para cada lado que se olha há o que fazer, mas tive a ajuda do senhor Deoclésio que podou árvores, roçou a grama e colocou moirões para pôr cercado com rede de modo a ampliar o espaço das penosas. Já sexagenário, consegue carregar moirões que nem consigo tirar do lugar, que coisa! Pedi que fizesse devagar para não se machucar, e ele me disse que fez isso a vida inteira e que eu não me preocupasse. Força, saúde e vida longa a seu Deoclésio!

Nesta semana resolvi colocar uma choca para esquentar os ovos até virarem pintinhos!!! A mãe me ensinou como fazer o ninho de samambaias: “Marlene, tem que colocar bastante folhas e fazer montinhos nos cantos do ninho para que os ovos não resvalem, e fiquem todos debaixo das asas da galinha em choco!” Sabedoria de mãe é rica! Também colhi a primeira abóbora que plantei em abril, e os pés de limões e abacates vergam os galhos, anunciando boa colheita. As flores de maracujá estão virando frutos, lindo de ver!! Tudo misturado com flores de todas as espécies que não sei como se chamam, mas a mãe sabe os nomes e sabe quando e como plantar. As goiabeiras parecem pinturas com pontos em amarelo-laranja entremeados às folhas e galhos: todos os dias colho goiabas deliciosas com cheiro de infância! Amo goiabas!

Marlene de Faveri

Foto: Laura Paulino de Fáveri

Diariamente levo a mãe para fazer fisioterapia onde aplicam um eletroestimulador. Em duas semanas ela já voltou a andar com mais regularidade e firma-se bem. Apoiada na bengala e vai pela casa, linda e feliz! Há dois meses eu não sabia o que fazer para a mãe voltar a andar, e a farmacêutica Jordana me indicou a fisioterapeuta Juliana Panato que, com destreza, conhecimento e simpatia, está sendo fundamental nesse tratamento. Obrigada, Juliana!

Minhas longas estadias em Turvo me levam a rever pessoas com quem convivi na adolescência. Não raro alguém pergunta: “Tu não és a Marlene?”, e assim nos reconhecemos, mesmo com máscaras! Sempre perguntam por minha mãe e enviam abraços. Aqui é outro mundo comparado com Floripa: nunca falta estacionamento, não há filas, os serviços de saúde são bons, os postos de saúde e o SUS sempre disponíveis – viva o SUS! – e as pessoas em geral são amáveis. Compramos com caderneta num mercado e podemos ligar que trazem as provisões, assim como os produtos agropecuários, medicamentos, etc. As facilidades e o conforto desta convivência numa cidade pequena são uma maravilha, e nem me lembro da tensão que é sair de casa em Floripa: requer planejamento, tempo, enfrentar engarrafamentos, custos, cuidados extremos com a pandemia, filas de espera, affff.

Nesta semana faleceu um irmão de minha mãe. Ele morava longe, no oeste do Paraná. Me tocou contar-lhe e ela se abalou, os tremores do Parkinson se avolumaram e foi quando seu olhar parou no nada: “Agora somos só cinco vivos dos doze irmãos. Ai, logo será minha vez…”, disse com a voz embargada. Respondi que ela vai viver muito ainda e que a cuidarei sempre. Para amainar seu sentimento de perda, perguntei do que lembrava dos irmãos, e durante horas fiquei ouvindo histórias de coisas do cotidiano, dos folguedos de infância, dos trabalhos árduos na roça, de sua mãe, dos casamentos, das doenças… A memória de longa duração lhe é nítida, cristalina, embora se embaralhe nas coisas do tempo imediato, de ontem e de hoje.

De repente, ela me olha: “A gente deveria ir ao enterro, é meu irmão…” Explico os porquês deste impedimento, de como a Covid-19 está mudando nossa cultura, de como agora cada família cuida de seus enterros, que não tem velório. Ela parece entender… Mas não muito. Vamos em frente, mãezinha!

Escrevo nesta sexta-feira, dia dezenove, depois que a mãe dorme. Com dificuldade, porque hoje fui podar uma árvore no jardim e, não sei como, algo bateu em meu olho direito que inchou, ficou vermelho e doeu muito, lacrimejando e prejudicando a visão. Me apavorei porque pensei que isso me impediria de escrever. Fui à farmácia e, com limpeza e um colírio cicatrizante, estou conseguindo digitar. Não há de ser nada e amanhã vai melhorar.

Dei-me conta de que esta é a crônica de número 50, em onze meses e vinte dias de pandemia. Entre espantos, sustos e medos cá estou escrevendo e ouvindo o som dos grilos na companhia de Guevara e Tchê, os pidões de comida, sentadinhos no chão da cozinha da casa de minha mãe. Ela dorme. Abri um vinho, mas quero comemorar, depois, com amigas, amigos e com Antonio. Queria mesmo dançar tango, ah como eu queria! Esta é uma das perdas que me desconsolam nesta pandemia… como também os abraços, os abraços e os abraços… Dançar com Evandro e abraçar Angelita, ai!

Desconsolo mesmo são os modos como está sendo tratada a pandemia no Brasil: chegamos a 247 mil óbitos, mergulhados numa crise sem precedentes na história deste país. O despreparo do mandatário sem noção no enfrentamento à crise sanitária que, diga-se, é criminoso, soma-se à estupidez extrema nas decisões políticas desastrosas, como o caso da Petrobrás, e que enterram de vez a credibilidade na condução econômica do Brasil. Quais as consequências? Todas as que massacram a população e a esmagam sob coturnos de malfeitores irresponsáveis.  Que engodo ardiloso armando golpes e mais golpes sobre a população que labuta miseravelmente, desassistida de tudo. Amaldiçoados sejam.

Alguém duvida que isso é fascismo? “A infâmia só é capital quando ela produz efeito de poder sobre as massas: um efeito estupefaciente, de droga pesada, de hipnose”, na análise pertinente da filósofa Marcia Tiburi, para quem “o Brasil caiu nas mãos do seu torturador e segue sendo torturado por ele. Todo o deboche, toda a maldade, todo o descaso e, agora a Covid19 fazem parte das técnicas de tortura em escala nacional”. Como podem pessoas ainda seguirem um nefasto Ubu Rei que as quer apodrecidas na terra de ninguém e, se não forem comidas pelas minhocas, viverão adoecidas, empobrecidas, desamparadas, humilhadas…

Pátria amada Brasil para quem???  Seus vendilhões a trocaram por dinheiros, conchavos, toma lá dá cá, armamentos, leite condensado, picanha e goma de mascar… A pátria, vilipendiada, sangra na carne dos excluídos. Não existe pátria sem uma Nação orgulhosa de si, como já fomos.

Sabemos que, nas crises econômicas, as mulheres sofrem mais. Numa crise sanitária como a do Covid-19, são elas que cuidam mais dos outros, por vezes adoecem e mesmo assim continuam sendo as responsáveis pela reprodução da vida nos afazeres, na alimentação, na saúde e na proteção dos filhos. Com que sentimentos vão colocar a lancheira na mochila das crianças, recomendando que não tirem a máscara na escola, nem na rua, nem com amigos? Essas mães estarão à espera, armadas de álcool70, na dúvida se voltam impunes do contágio? Qual mãe estará confortável ao pôr em risco suas crianças? Eu não estaria.

Hannah Arendt ensina que “A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos”. Vacina pública e gratuita para todas as pessoas, urgente! É um direito. Professores também devem ter prioridade!

Marlene de Faveri, 21 de fevereiro de 2021. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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