Fotos da exposição “Um clique, muitas histórias” que retratou mulheres da Companhia Melhoramentos da Capital (Comcap), Florianópolis/Fotos: Maristela Giassi

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (47) – ou o trabalho das ‘margaridas’ e as resistências

Postado em 31/01/2021, 10:46

Domingo, trinta e um de janeiro de dois mil e vinte e um. E lá se foi o mês de janeiro… Lembro de um tempo em que – parece tão distante! –  em janeiro eu entrava no mar, andava na areia, sambava e tangava por aí, festejava com amigas e amigos. Neste ano, nem vi o mar…  Voltei de Turvo para minha casa em um bairro de Florianópolis e aqui me detenho por uns dias. Preciso deste espaço para revisitar guardados e alimentar ideias – um teto todo meu, parafraseando Virgínia Woolf.

Em Florianópolis vivemos um caos urbano e sanitário. A chuva do início desta semana inundou bairros, tombou moradias, pessoas e sonhos. O rompimento de uma estação de tratamento de águas na Lagoa da Conceição mostra que, se a natureza é presidente, obras da engenharia a subestimam.  A água, o fogo, o vento e a terra chegaram antes de nós, humanos destruidores deste ambiente que nos alimenta e nos provê do oxigênio.

Não bastasse o estrago com as chuvas e o vírus se multiplicando, o prefeito da cidade decide cometer crimes contra trabalhadoras/es da Companhia de Melhoramentos da Capital, a Comcap. Um pacote de medidas prevê o desmantelamento da empresa, demissões, cortes de direitos e benefícios com um projeto de entrega da coleta de lixo aos tubarões do capital, privatizando a Companhia. Infernal. Necropolítica na veia. O que querem é matar os pobres trabalhadoras/es para enriquecer uns gananciosos usurpadores, os mesmos produtores de lixo… É desumano. É muita cara-de-pau de um prefeito romper com o acordo coletivo da categoria e maltratá-la à exaustão.

A autora em seu processo de escrita/Foto: Paula Guimarães

E o que dizer dos vereadores e vereadoras que votaram a favor do desmonte de uma empresa pública que é referência no país? Não sentem vergonha de usurpar direitos da população mais vulnerável?  Quem os elegeu concorda com isso? A grande imprensa faz eco ao discurso do prefeito municipal de que, com a privatização, o município economizará cerca de 20 milhões por ano… E o custo social?

Quem mesmo tem privilégios? É o neoliberalismo trucidando uma classe de trabalhadoras/es que sofreu, e sofre, estigmas, socialmente inferiorizada. É a crônica do neoliberalismo triturando direitos da categoria, desvalorizando-a, desrespeitando-a, invisibilizando-a.  Pense: se o seu lixo não for recolhido, como ficará a cidade?

Em Florianópolis, como se lê no site da PMF, a Comcap é responsável pela coleta domiciliar de resíduos, remoção e coleta de resíduos volumosos e de lixo pesado, coleta seletiva de materiais recicláveis, remoção de entulho e pela varrição com caixas estacionárias e caminhões-caçamba, além da capina mecanizada, capina manual, roçagem, limpeza de canais e valas a céu aberto, varrição da ruas, administração de estacionamentos e sanitários públicos,  limpeza em eventos como festas populares e religiosas, e outros promovidos pela Prefeitura Municipal, bem como pelos programas de mutirões. No ano de 2019, o total de resíduos recolhidos pelos serviços de limpeza urbana em Florianópolis foi de 212 mil toneladas, o que corresponde à média de 18 mil toneladas por mês ou 700 toneladas por dia. Imagine o estado caótico sem esses serviços!

Neste domingo, dia de publicação desta crônica, acontece uma grande manifestação em defesa da Comcap/Foto: divulgação

A Comcap é imprescindível na organização dos espaços e na promoção do bem-estar dos citadinos e dos turistas. Sabemos que o que é considerado lixo varia de uma cultura para outra e revela um indicador de valores de como cada sociedade lida com sua higiene, consumo e desperdício, ensina o historiador Peter Burke, em A história social do lixo.

A historiadora Gloria Alejandra Guarnizo Luna, na tese de doutoramento intitulada O (não) lixo na era do consumo: museu, cidade, arte, concluída em 2018, mostra que “o lixo talvez seja, se não o maior, um dos maiores problemas que afetam todas as formas de vida do planeta. Ele torna-se problema quando perdemos o controle daquilo que é retirado do campo de visão, mas que continua presente em outros lugares, como lixões, aterros, terrenos, rios, mares e oceanos. É um problema que afeta homens e mulheres, dependendo  do lugar que ocupam numa   perspectiva econômica e social; nas periferias há maior influência, embora todo o sistema seja atingido”. (p. 71).

A cultura do consumismo, somada ao desperdício exorbitante de alimentos, à exploração de recursos naturais e o descarte inadequado de coisas usadas é um dos problemas mais complexos do nosso tempo. Políticas ambientais e sanitaristas devem ser pensadas em conformidade com políticas públicas que assegurem direitos da classe trabalhadora em todos as funções, com respeito, dignidade, cidadania e, neste caso, para uma classe que é submetida diariamente a uma carga de trabalho exaustiva e insalubre.

O Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal de Florianópolis – Sintrasem, resiste à privatização da Comcap, e é justo que esteja na defesas dos empregos e a manutenção deste serviço público. Estive na rua na terça-feira, dia da votação do ‘pacote de maldades’. Mulheres uniformizadas, as chamadas ‘margaridas’, empunhando braços e com a voz embagada estavam ali, lutando por dignidade, trabalho, alimento, segurança,  moradia, saúde e vida. Elas estão lutando por sobrevivência, a sua e a de seus filhos. É comum vê-las varrendo as ruas e não raro sofrem preconceitos de passantes.

“As pessoas nem nos olham, tropeçam na gente e nem se dão ao trabalho de pedir desculpas. A gente se acostuma…”, ouvi de Maria, uma ‘margarida’ com a qual conversei na rua.

A invisibilidade do trabalho das mulheres é cultural e, no caso desta mulher, soma-se à desqualificação do trabalho considerado menor e até desprezível: a limpeza e o trabalho com a recolha de lixo. Em Florianópolis, em maio de 2020, elas eram 20% do total de garis na cidade, ou seja, 157 ‘margaridas’.

Foto: divulgação Comcap

São mulheres que sonham, cuidam dos seus e dos espaços dos outros, têm histórias, sentimentos, família, e batalham na dureza de um trabalho árduo e insalubre. Em 2015, a Comcap promoveu uma ação intitulada “Um clique, muitas histórias”, fotografando estas mulheres garis: imagens selecionadas pela fotógrafa e artista plástica Maristela Giassi foram expostas para mostrar suas vidas e sentimentos, com o intuito de captar a alma dessas mulheres. Seus depoimentos foram relatados ao lado das fotografias. “As histórias são diferentes, variadas, mas todas remetem a um ganho em autoestima com esse trabalho”, observou Maristela Giassi. Há beleza sob o macacão alaranjado, seus uniformes de trabalho. Mesmo que invisíveis, elas têm vida que pulsa. Merecem nosso respeito.

Hoje, elas estão mais vulneráveis por conta da Covid-19 numa cidade onde o contágio está sem controle. Nem vou falar do escândalo da compra de R$ 15 milhões de reais em leite condensado pelo executivo federal, evidenciando fortes suspeitas de superfaturamento. O argumento é: enquanto uns nacionalicidas se empapuçam de caviar, carnes nobres, bebidas, leites e gomas de mascar superfaturadas, o fazem às custas de nossos impostos… e a população que lida e sua e sofre vive numa realidade dura e crua. Desprezada e aviltada.

Os trabalhadores e as trabalhadoras da limpeza urbana continuam no seu labor diário, cuidando do espaço onde eu passo, onde tu passas, onde nós passamos, e que muitas vezes não sobra um vintém para uma lata de leite condensado… Não, não podem tirar seus direitos de cidadãs e trabalhadoras. Como todas as mulheres, merecem dignidade e um lugar na sociedade sem violências.

Manifesto todo apoio e solidariedade à luta para barrar a privatização da Comcap e para e manter os sonhos das pessoas que cuidam de onde passamos.

A COMCAP É PÚBLICA E É NOSSA!

Marlene de Fáveri, 30 de janeiro de 2021. Florianópolis.

 

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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