Frasco da Coronavac, vacina do Butantan Foto: Reprodução/Twitter @butantanoficial

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (46) – a vacina, o negacionismo e o cuidado no cotidiano

Postado em 24/01/2021, 13:39

Domingo, vinte e quatro de janeiro de dois mil e vinte e um. Passei esta última semana em Turvo. A cada retorno à casa de minha mãe mais sinto-me parte da terra, das árvores, das flores, dos animais domésticos. Diferentemente de outras estadias aqui, nesta semana choveu todos os dias e, em algumas ocasiões, caíram águas torrenciais que pareciam labaredas transparentes caindo das nuvens. As plantas agradecem, estão verdes e revigoradas. Como é bom colher as alfaces frescas, almeirões, vagens e toda sorte de temperos! Ah, os pimentões estão crescendo e logo os colheremos. Pés de limoeiro estão vergando de tantos limões ainda verdes, uma maravilha! Guevara e Tchê continuam se enrolando nas minhas pernas, como sempre. Felinos manhosos!

Minha mãe custa a se locomover e, com a ajuda de uma bengala, anda dentro de casa com passos curtos e calculados. Ela tem dores na lombar, mas não se queixa. “Vou melhorar logo e cuidar do jardim e da horta”, ela sempre diz. Falei que sim, que vai melhorar e que o importante é estar bem de saúde e, como todos da família, sem Covid-19. Ela pensou um pouco e respondeu: “Eu me sinto bem, não peguei essa doença e, desta dor, vou melhorar. Mas se vocês, filhos e netos, estão bem, eu me sinto ainda melhor!” Ah, esse carinho e amor não têm preço!

Mas também dá sustos. Dia desses quando entardecia, eu escrevia concentrada enquanto ela assistia televisão. Passado algum tempo, fui vê-la e ela não estava na sala.  Pela casa, não a encontrei. Pelo jardim, nada dela. Ouvi um “pipipi” e era ela no cercado das galinhas escorando-se na bengala com dificuldade e chamando umas penosas que não queriam entrar no galinheiro. Fiquei olhando-a por algum tempo até fazer com que me visse. “Marlene, essas galinhas não querem entrar, e preciso ver se têm ovos nos ninhos!”. Fui até ela, dei meu braço e a conduzi até os ninhos. Tinha três ovos que ela apanhou, faceira: “Viu que bom? Vou colocar mais uma choca para ter mais galinhas e mais ovos!”. “Sim, mãezinha, vamos buscar ovos galados e pôr no ninho da choca”.

Foto: arquivo pessoal

Devagar e com o máximo cuidado, a trouxe de volta para casa.  Em outros tempos eu daria um sermão, mas aprendi que cuidar é valorizar essas fugas do cotidiano, os desejos dela, e alimentá-la de esperança. Na verdade, as galinhas dão prejuízo, porque comem muito milho e não compensaria, em cifrões, os ovos e a carne. Mas o que importa? Enquanto eu estiver por perto teremos ovos de galinhas felizes!!

Nesta última semana em que se anunciou, finalmente, a aplicação da necessária vacina contra a Covid-19, aguardo minha vez. Quero a vacina. Mas tem gente que não quer e comprou o discurso dos negacionistas de plantão. Meu irmão Madson contou que, ao atender um cliente no conserto de um trator, este perguntou: “Tu vais tomar essa vacina? Eu acho que é furada, não vou tomar depois que ouvi na rádio que é roubada e pode fazer mais mal, que é bobagem… o que tu achas?” Meu irmão respondeu: “Olha, quando tiver prá mim eu vou sim, vou me vacinar. Como o senhor vê, estou de máscara e estou bem gripado. Acho que estou com suspeita de Covid-19 e eu nem ia trabalhar hoje”. O homem arregalou os olhos e, sem uma palavra, se mandou para longe, rapidinho. É, negar é fácil…

Se é mesmo verdade que “ouviu na rádio” não sei. Mas, suponho que não foi dito por um radialista. Mas há quem faça esse desserviço infame que estraga a mente das pessoas. Meu irmão estava mesmo muito gripado e utilizou de uma tática do cotidiano, dessas dos momentos de quebras de rotinas e de perigo.

Numa ocasião, era o mês de setembro, recebi um trabalhador para roçar o pasto daqui do terreno da casa da mãe. Ele veio sem máscara e foi se achegando para perto de minha mãe. Intervi para que se afastasse, entreguei uma máscara e sugeri que a usasse. “Olha, eu não pego isso aí, nem acredito nesse vírus, não tenho medo, acho que já peguei e não deu nada”. “Mas nós temos medo!”, respondi. Pedi que se cuidasse e expliquei as consequências do contágio. Eu o contratei e marcamos que iniciasse no dia seguinte, mas que conversaríamos de longe. Não apareceu mais. Me pergunto o que teria acontecido com esse homem…

Temos acompanhado os usos políticos da pandemia e o negacionismo de uma corja nacionalicida que brinca com vidas. No Brasil, passam de 215 mil os óbitos pela Covid-19 e perto de nove milhões de infectados que, sabe-se, são dados subnotificados: são mais. Isso em dez meses e alguns dias desde meados de março de 2020, quando passamos a viver sob medidas restritivas para conter a proliferação do vírus. Parecem anos! O imbróglio na compra de vacinas, cepas e seringas tem sido uma novela sem precedentes: que governo ousaria ser tão destrutivo se não o de um verme sem caráter?

Não há vivente que esteja alheio ao que se passa neste planeta. Turvo, um pequeno município de 13 mil habitantes, tem oito óbitos e 108 casos ativos, o que significa que, nas redes de relações, outras pessoas podem estar contaminadas e não saber. Ouvi de um incauto cliente, numa loja, quando pedi que pusesse a máscara: “Ah, baixou o número de contaminados, e temos poucos mortos”. Poucos mortos? São vidas ceifadas, famílias enlutadas, dores e desconsolos. Não queremos mais perdas.

Fico irada com estes negacionismos e deboches para quem quer se cuidar. Mais ainda com governantes, pastores, padres, pessoas nas mídias e nas redes sociais que desatam a dizer asneiras – a exemplo do pastor que reverberou a notícia de que a vacina feita na China altera o DNA e dá câncer. Podres poderes. Asco.

Em meio à pandemia, coisas inusitadas acontecem. Um senhor amigo de meu irmão, com idade avançada e consciente do perigo do contágio para sair de casa, pediu-lhe para levar “um negócio que estava no saco e jogar no rio”.  Ao abrir o saco, meu irmão percebeu que ali havia um gambá fêmea morta e uns dez gambazinhos recém-nascidos mamando no corpo frio. Pasmo e consternado, enterrou o corpo morto e levou os bebês para casa. Daí que estamos vendo o que gambás bebês comem para salvar os filhotes, já que eles recusam o leite. Que coisa, mamma mia! Não fosse a pandemia, por certo não teríamos esta história, e nem a pequena Laura a acompanharia, levando para a vida a memória o cuidado com os animais. Cotidianidades.

Notícia boa é que minha filha recebeu nesta semana a carteira, ainda que provisória, da identidade italiana. Ela está em Cecina, na Itália, é seu sonho virando realidade!  Minha filha tem a garra de minha mãe, coisa que ensinei também: as mulheres podem, e devem, ir atrás de seus sonhos. Não sabemos quando volta, depende das burocracias e, depois, de como retornar ao Brasil com as dificuldades advindas da pandemia e voos restritos. Tashi, mami está aqui!  Eu e a tua avó te esperamos!

Cuidar é verbo que remete à ação de preservar, apoiar, tomar conta, promover o bem-estar de si e do coletivo. Numa pandemia, cuidar-se é cuidar também dos outros. É proteger as vidas contra a doença. Preservar os animais e o ambiente. Todo cuidado é pouco, mesmo com a vacina… O cuidado sempre vem acompanhado de solidariedade, humildade, afeto e generosidade – eis a ética do cuidado. E do amor. Clarice Lispector resume: “Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor…”.

Marlene de Fáveri, 24 de janeiro de 2021. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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