Persistência da Memória (1931), óleo sobre tela, de Salvador Dali.

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (40) – ou o tempo das mulheres e o tempo da pandemia

Postado em 13/12/2020, 16:05

Domingo, treze de dezembro de dois mil e vinte. Desde menina tenho a impressão de que o mês de dezembro voa. Professores trabalham dobrado neste mês com avaliações, fechamento de semestre, reuniões de conselho de classe e planejamento. Era sempre assim antes de aposentar-me. O que mudou? Assumi outros compromissos e por isso custo a dar conta principalmente dentro de uma pandemia. Escrever toma tempo, requer dedicação. Nesta última semana do ano que estou em Florianópolis dedico-me aos escritos e guardados. Mas logo volto para minha mãe, para a horta e minhas botas!

Para qualquer lado que olho me vejo numa cidade mergulhada em um suco de corona. Um caos anunciado. Pior que isso:  a gente se acostuma com a realidade caótica. Santa Catarina está em alerta máximo: são 4.230 óbitos e 417 mil pessoas contaminadas. No Brasil, passam de 180 mil mortos. E o povo nas praias, como se o amanhã fosse só miragem… Maldito vírus, e malditos ferrabrases das cavernas que zombam dos mortos. São perversos e criminosos.

No ano passado, por estes dias, promovi uma festa de aniversário reunindo amigas e amigos. Foi linda, e dancei tango para convidados! Naquela ocasião, terminada a festa, ficou acertado que faríamos a próxima neste dezembro, com direito a milongas e muito samba! Faríamos… O encontro com pessoas queridas, e que têm a ética do cuidado, são de esquerda, democráticas, generosas e amigas. Me energizam. Agora, nada de abraços, quanto mais dançar, que lástima. Mas estamos conectadas!

Tango com Herber Benítez, dezembro de 2019, em Florianópolis/Foto: arquivo pessoal

Acompanhei relatos de amigas e amigos nas redes sociais durante a pandemia sobre a estranheza dos aniversários comemorados na solidão de um apartamento. Imagens de bolo solitário, auto brindes e reclamações da falta de beijos e abraços presenciais invadiram as telinhas. Algumas pessoas tiveram companhia pelo ‘níverzapp’, acalentando passagens da idade. Quase todas as mensagens dizem da esperança de relações humanas com mais escuta, partilha, solidariedade e afetos. Que importa o tempo que nos passa se continuamos vibrando??

Conta a lenda que Chronos, o deus do Tempo, personifica um senhor que parece reger os destinos da humanidade. Numa representação da mitologia grega, o tempo aparece com caráter destrutivo, porque tudo o que existe pode findar, sendo impossível fugir dele. As religiões, principalmente as monoteístas, construíram seus alicerces na finitude do tempo terreno e no alcance de um tempo divino. Mas o que é o tempo? Filósofos, dos antigos aos mais contemporâneos, têm se debruçado para entender o tempo em teorias diversas. Henri Bergson, por exemplo, entendeu o tempo como uma passagem, um fluxo da vida interior ou a experiência humana entendida como uma duração. Mas fiquemos no nosso tempo…

O tempo cronológico como conhecemos escorre pelo tique-taque dos relógios, o vai e vem dos sinos, da areia escorrendo na ampulheta, das badaladas do Big Ben de Londres, no do canto do galo…  A organização do tempo foi construída a duras penas: no início da Revolução Industrial foi preciso ‘educar’ as pessoas à força para obedecerem ao tempo das máquinas e do trabalho. Tanto é que hoje somos pessoas-máquinas regidas pelo tempo do trabalho e pelo cartão ponto. Mas esse é o tempo do capitalismo. Outros tempos, como o cíclico, o das estações do ano, o das luas, o do calendário judaico e dos calendários de outras culturas têm outros marcadores.

Contamos o tempo através da passagem dos anos por nossas rugas, ites, oses, lentidão nos gestos, olhos que embaçam. E através das fotografias – “como eu era jovem e magra!” a gente diz quando se vê na imagem do tempo pretérito. Se você pudesse voltar no tempo, o que faria? Não, ele não volta. “Em que espelho ficou perdida a minha face?” pergunta, num poema, Cecília Meirelles. Nos meus quinze anos, minha mãe presenteou-me com uma fotografia. Foi um acontecimento: cortar os cabelos, usar uma blusa nova e a única gargantilha que eu possuía, ir ao um estúdio… e, claro, retocaram, o que era moda. Ah, guardou minha face!

O que fica do tempo é a experiência acumulada na memória, nas cicatrizes do corpo e da alma. Boas ou ruins, mas cicatrizes. O que dá sentido à vida é o quê e como vivemos, porque somos a soma dos conhecimentos, aflições, ternuras, medos, prazeres, conquistas, amores, afetos, indignações, espantos e, sobretudo, cuidados.

Em todo caso, com ou sem pandemia, a gente faz aniversário. Não há ninguém que não tenha feito aniversário neste ano inóspito, desde que tenha conseguido ficar vivo.  O que muda? O tempo não muda, quem muda somos nós. O tempo é abstração. Não se pode pegar o tempo, nem pará-lo com uma manivela. Mas ele existe como passagem de nós. Somos mortais, limitados. O tempo fica quando morremos. Todavia, é a moeda mais cara que existe no mercado: quanto daríamos para viver mais um ano, um mês, um dia? Quanto vale um minuto?

Quem pode escolher seu tempo? E os usos de seu tempo? Quem tem o direito ao tempo do ócio?  Cresci ouvindo que tempo é dinheiro e que descansar é luxo. Acaso não precisamos do luxo do descanso?  No que vale a pena investir nosso tempo?  Ouve-se que só é rico quem tem tempo e que tempo é remédio.  É, faz descansar, pensar, refletir, largar os músculos numa almofada. Cuidar-se.

Vida é tempo. “Não tenho mais como comprar tempo e os anos que me faltam são para viver intensamente” disse a amiga Mônica Sol Glik. Concordo.  Quero meu tempo para escrever com a pena solta, paixão, tesão, vontade… O que me conforta é que todas as pessoas envelhecem à mesma proporção que eu. Não é consolo, claro. É constatação. Já pensou se só você envelhecesse? José Saramago, um mestre das coisas do tempo, ponderou: “Nao tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Quando interrogado, já em idade avançada, sobre o que desejaria ter e ainda não obtivera, respondeu de pronto: “Mais tempo”. Ah, nossa finitude…

Caetano Veloso, na Oração ao tempo, fala que o tempo é “Compositor de destinos, Tambor de todos os ritmos”.  Nana Caymmi responde: “E o tempo se rói/Com inveja de mim /Me vigia querendo aprender /Respondo que ele aprisiona /Eu liberto/Que ele adormece as paixões, eu desperto /E gira em volta de mim /Sussurra que apaga os caminhos…”  Discordo de Cazuza de que o tempo não para porque o tempo não anda: quem passa e anda somos nós, finitos. Não resolve quebrar o ponteiro do relógio: o tempo é presidente.

“Quem mata o tempo não é um assassino. É um suicida’, ironiza Millôr Fernandes. É possível matar o tempo? Ou, quando se mata o tempo, ele morre? O tempo ruge ou urge? Qual tempo que urge? A pandemia desnorteou nosso tempo? Ou fomos nós que desnorteamos com as mudanças a que ela nos obrigou? Em meio a esse desvario de tempos, o que fica mesmo são os amores que tivemos, os cuidados que dedicamos, as ações humanitárias que fizemos, o espaço que preservamos.  O tempo fica, nós vamos. Que o nosso tempo pandêmico faça com que aprendamos profundas lições.

Para historiadores, os marcadores do tempo são falaciosos, porque a experiência humana é que constrói o tempo. Hoje, o tempo da informação não é mais o mesmo. Ler um jornal, despretensiosamente, num banco de praça ou na poltrona, pode ser considerado perda de tempo. As redes sociais comem nosso tempo – por que gastamos tanto dele nas telinhas? Nossa cabeça está ocupada demais com as notícias que nos alarmam e nos consomem. Não temos mais tempo para ouvir os sons ao redor.

O tempo das mulheres é diferente do tempo dos homens? Pensemos: a gestão do tempo para as mulheres requer desdobres. Elas estão sempre planejando este ou aquele afazer antes de dormir, antes de sair para o trabalho, depois do almoço. Lembro-me de minha mãe lavando roupas no escuro da noite porque o dia era carregado de outros afazeres. Minha nona acordava muito cedo e era sempre a última a ir dormir e, quando ia, os homens da casa já roncavam.

O tempo delas parece menor, no entanto é o mesmo que o dos homens. Elas acumulam tarefas da casa e dos cuidados com todos da família, dormem menos e cansam mais. Têm um volume muito maior de urgências diárias e das coisas essenciais na manutenção da casa e na reprodução da vida, um tempo não é contado nem valorizado. Minha mãe não teve tempo de se dar ao luxo do descanso, tampouco minha nona. Quantas mulheres viveram, e ainda vivem, sem os prazeres do descanso e de um tempo para si?

Qual é o tempo da pandemia? Para muitas mulheres, ainda mais violento e sobrecarregado. Muito se tem dito por aí desse desvario do tempo pandêmico. Eu mesma já declarei várias vezes do meu sair da casinha, atrapalhada com os horários e dias e calendário. Mas o tempo é o mesmo, eu é que despiroquei. Este vírus veio para marcar um novo tempo para a humanidade?? Deixo um poema feito em trinta de março:

O tempo parou?
Parou o tempo?
Paramos nós?
Canceladas viagens,
passeios, almoços,
reuniões, aulas,
aniversários, cultos,
funerais, baladas,
comícios, cinemas,
praias, tangos.
Encolheu o espaço?
infiltrado em ruas,
estradas, trilhas,
sapatos, corrimões,
elevadores, favelas,
bocas, mansões,
moedas, celular,
máscaras, mãos.
Em nosso tempo,
no mesmo espaço
cumpre-se a profecia
de Raul Seixas – a
terra parou.
Paramos para aprender
e, talvez, compreender
que somos uma partícula
do nada sem o sentido

Todas essas perguntas sobre o tempo fazem pensar. Fico com a sabedoria de Clarice Lispector: “O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna”. Costumo fazer determinadas coisas como se fossem a última vez. Sexo, por exemplo: a expectativa do amanhã limita os prazeres do hoje e então deixo voarem os sentidos. Tente!

De tudo isso, eu, enrobustecida, bendigo a vida! A minha, a de minha mãe e de minha filha. A de meus irmãos e irmã, sobrinhos e sobrinhas. A dos amigos e das amigas. Das pessoas do bem, democráticas e generosas.  O tempo de cada pessoa deve ser usado para não passar em vão neste mundo.

Deixo um convite para escutar os sons do tempo, acariciá-los e partilhá-los com os sons da vida. Apesar das discordâncias e diferenças vamos partilhar este lugar que ainda existe. Cuidar é dar sentido. Como você cuida dos seus? Em Rosa e o Momo, um filme raro, percebi que a finitude é só um pedaço do tempo quando há cuidado e enxergamos a pessoa que amamos nos seus limites.

Eu celebro a vida. Venham tormentas, trovoadas, raios, chuvas, ventos, frios, calores… sei que também virão amores, afetos, conquistas e gostos!  Enquanto eu viver, quero todas as pregas que me vierem, os cabelos brancos, as varizes, as dobras e manchas nas mãos. Não me importo nada com o fato de estar envelhecendo. Tenho a sorte de ouvir minha filha dizendo “te amo, mãe!” e de abraçar minha mãe e poder dizer: obrigada!

“Afinal, em meio da vida sempre se faz as seguintes contas: temos mais ontens ou mais amanhãs?” Espero os amanhãs, Mia Couto.

Marlene de Fáveri, treze de dezembro de 2020. Florianópolis.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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