Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (38)  – ou do trabalho das mulheres – o que mudou?

Postado em 29/11/2020, 15:24

Domingo, vinte e nove de novembro de dois mil e vinte. Esta semana foi de climas extremos aqui no sul profundo: fez 36 graus uns dias, depois veio o aguaceiro em bátegas torrenciais, e esfriou. Escrevo na mesa da cozinha à noite, depois que minha mãe dorme. O silêncio é quebrado por uma desconcertada sinfonia de sapos, rãs e pererecas que sempre sobrevêm depois das chuvas.  Sobressaem os sons emitidos pelos machos que se amoitam em poças d’água e entoam lamentos chamando as fêmeas para o acasalamento. Elas escolhem os machos pelos sons que mais lhes agradam e vão até eles: os sons mais fortes têm mais chances de atrair fêmeas. Já presenciei esse enlace sexual dos batráquios, uma beleza!

Agora Tchê mia lá fora e não me contenho: levo mais leite, sobras do jantar e a acaricio. Ela deita com as tetas para cima e gosta dos afagos. Traz felininhos, traz logo! Depois ela sai de mansinho e vai para a horta caçar rãs, que coisa! Mas desconfio que é atrás do gato cinza com listras escuras que ela vai…

O calor se aproxima e sabemos que vem forte. O clima está maluco e não se tem mais meio termo: ou faz frio, ou o calor inferniza e traz mosquitos que parecem voadores das trevas. Nem repelentes assustam os danados pernudos feito dráculas. “A gente tem que fechar todas as janelas antes de acender as lâmpadas, ou eles invadem a casa”, na sabedoria da mãe. No entardecer fechamos a casa e conseguimos que fiquem de fora, mas sempre tem uns espertos que entram, aff.

A chuva é providencial: todas as plantas ficam mais verdes e de suas folhas despencam pingos de vida. As hortaliças revigoram, assim como as flores. Notei que a força da chuva machucou as alfaces. “Mas é que a chuvarada forte danifica as folhas tenras das alfaces e depois o sol quente bate nelas e queima”, explica minha mãe. Assim que der sol vou conferir os estragos, espero que sejam mínimos. “Marlene, sai dessa chuva! Vem prá dentro!” disse a mãe quando, pela janela, me viu com as botas embarradas, chapéu e capa de chuva plantando grama num espaço que capinei. Desobedeci: leivas de grama transportadas pegam fácil com chuva. Na terra molhada coloquei pedaços de terra com grama e vão ficar lindas no jardim!

Foto: arquivo pessoal

Perguntei à mãe o que se planta na lua cheia que entra na próxima semana: “Ah, na lua crescente e cheia se planta o que dá acima da terra, como as folhas, flores, milho, frutos, melancia, assim. Já na lua minguante se planta o que dá abaixo do solo, como batatas, tubérculos, alho, cebola, mandioca, o que tem raiz comestível e cresce para baixo”. É que quando a lua está crescendo e cheia a seiva é atraída para as folhas e favorece a parte de cima, os frutos estão mais suculentos. Já na lua nova não é bom plantar mudas porque é baixa a resistência às pragas. Ah, que coisa boa é a sabedoria de mãe!

Perguntei sobre as estações do ano, e ela me disse que também é melhor plantar na primavera o que dá em cima da terra e no outono o que dá embaixo, mas que no inverno bem frio não se planta nada, só trigo. Trigo? “O meu pai plantava trigo no morro na época de frio lá em Vila Maria (interior de Nova Veneza) e nós colhíamos trigo”. Me contou que semeavam na terra à mão e depois mexiam com a enxada para cobrir os grãos. Quando colhiam as espigas do trigo, levavam para moer na atafona mas que era uma farinha escura com a qual faziam o pão e o macarrão. “Era da cor da casca, bem integral mesmo”, disse.

Quando menina, todos os dias eu pilava arroz num pilão de madeira, um trabalho que eu odiava porque era pesado e tinha que peneirar para separar o grão da casca, e sempre me enchia de farelo pelo corpo.

“Era assim mesmo: os homens iam prá roça, e as mulheres e crianças que ficavam em casa tinham essa tarefa de socar o arroz até separar da casca para fazer a minestra prá janta. Eu tinha seis, sete anos e tinha que pilar o arroz, que eu detestava! Tinha raiva de fazer, era cansativo e chato. Se o arroz estivesse bem seco, pilava rápido, mas se estivesse um pouco úmido, demorava mais e era duro!”

 

Pilão de madeira/Foto: arquivo Marcio de Fáveri

Das crianças da época de minha mãe era esperado que, assim que tivessem força, trabalhassem nos afazeres da casa. Mas muito cedo também iam para a roça. Era das mulheres as tarefas de prover a alimentação e os cuidados da casa. “Desde que me lembro de ser gente eu trabalhava em casa e logo que fiz uns doze anos ia para a roça com os adultos”, diz a mãe, e assim era com toda a numerosa família. Isso faz setenta anos.

Lavar a roupa de toda a família era um martírio: tinha que lavar numa tábua inclinada na sanga (riacho).

“Os homens nem sabiam que tinha roupa para lavar! Varrer a casa, então? nem pensar! Homem não pegava uma vassoura”, relembra minha mãe. Era delas as tarefas de ordenhar as vacas, fazer o queijo, cozinhar, fazer o pão, cuidar da roupa lavada e passada. “Mas só as de domingo a gente passava!”

Em geral uma das filhas ficava em casa para cozinhar, lavar a roupa, fazer o queijo e depois levar a comida até a roça.

Minha nona, mãe de minha mãe, cuidava da imensa horta da qual colhia tudo o que se consumia de hortaliças. O quintal era ladeado por parreiras e a colheita das uvas era coisa do nono: ele colhia com a ajuda dos filhos homens e fazia vinho. Esta era a tarefa deles, e amassavam as uvas com os pés num cocho grande – isso eu vi! Achava engraçado ficarem com os pés e canelas roxos depois dessa dança descalços no cocho cheio de uvas maduras!

A nona Henriqueta costurava as roupas de toda a família.  “Ela costurava para todo mundo de casa, filhos, filhas, marido. Não se comprava roupas prontas, no máximo um tecido que ia para alfaiataria em ocasiões muito especiais”, lembra a minha mãe. Mas se ela tinha tantas tarefas e ia para a roça, quando costurava? perguntei. “A mãe costurava quando chovia, ou de noite, ou nos domingos depois de ir ao terço ou missa, e nos feriados, porque no tempo bom tinha que ir pra roça acompanhar os homens. Depois, quando crescíamos um pouco, aprendíamos a costurar também”.

Todas as pessoas da família trabalhavam muito, das sete da manhã até à noite. Mas para as mulheres era esperado, e cobrado, que se virassem em cinco, ou não seriam boas esposas e mães. Que calassem sempre que suas vozes pudessem pôr em risco o sacrossanto matrimônio, ainda que apanhassem e aguentassem bebedeiras. E a tudo elas passavam, e tudo faziam entre um parto e outro, uma quarentena e outra… lembrando que, para as mulheres do campo da geração de minha mãe, era exclusivamente delas o cuidado com os filhos pequenos, as crianças e os velhos. Pensemos: mudou muito? Pouco? Nada? E que mudou? Para quem? São perguntas que persistem até hoje.

Na obra “O fim do desejo no casamento sem fim”, Rejane Wilke investigou as repercussões do modelo de casamento repressor e as razões que levam algumas pessoas a continuarem casadas após o esgotamento da relação amorosa. Observou o modelo de educação no contexto da sociedade patriarcal dominante desde meados do século 20 e que, em pleno século 21, mulheres continuam divididas entre dois extremos: de um lado, as amarras da educação conservadora, de outro, os apelos nada sutis da sexualidade enquanto mercadoria. Serviam ao trabalho e manutenção do lar e, na maioria das vezes, eram objetificadas.

O trabalho das mulheres era árduo na época de minha mãe. Mudou? Não, para as agricultoras esse cotidiano de dar conta da reprodução da vida nas diversas esferas do cotidiano continua sendo das mulheres. Mas não só no meio rural, porque na construção cultural do gênero ainda se separam trabalhos de homens e de mulheres, elas ainda recebem menos pelo mesmo trabalho, com frequência são assediadas e desqualificadas como sujeitos do direito. “A cadela do fascismo está sempre no cio” não é, Bertold Brecht?

Com muita frequência, a dupla e tripla jornada de trabalho ainda recaem sobre os ombros e os corpos das mulheres. Como também é frequente a desvalorização do trabalho doméstico, um trabalho não pago e até mesmo desqualificado. Me vem uma veneta quando me deparo com alguma fala de que mulher que não trabalha fora de casa não faz nada, ou não trabalha porque é só uma doméstica ou do lar. Veneta!!

Tão endiabrada fico com o descaso deste governo com as trabalhadoras e os trabalhadores, que solto impropérios, mas baixinho para não acordar minha mãe nesta hora: zero e vinte. Este governo e sua ignorante equipe nos têm feito passar vergonha no débito, no crédito e à vista.

Há três horas eu jantava com minha mãe e falávamos do trigo e do pilão, do trabalho e da horta, das uvas… Há duas horas escrevi a data que inicia esta crônica. Algo me diz que preciso terminar.  Os sapos e outros batráquios se acalmaram. Voltou o silêncio.  Será que todos acasalaram com as fêmeas que os procuraram pelo encanto da voz? Vá saber! Mas espero que sim, porque se sexuar é tão bom para nós viventes humanos, deve ser para as fêmeas batráquias!! E para seus machos escolhidos por elas, por supuesto!

Desejo com ardência que, na data de hoje, sejam eleitas mulheres prefeitas que nos representem, e homens que nos respeitem.

 

Marlene de Fáveri, 29 de novembro de 2020. Turvo, SC.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri