Registro da Marcha da Consciência Negra, realizada no último sábado (21), em Florianópolis/Foto: Viviane Rocha

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (37) – ou no cotidiano e na política, um basta às violências

Postado em 22/11/2020, 15:46

 

Domingo, vinte e dois de novembro de dois mil e vinte. Voltei para Turvo no último domingo, mas só depois de teclar numa urna minhas escolhas em pessoas com princípios democráticos. A viagem transcorreu tranquila com pouco movimento que, suponho, foi devido as eleições. À medida que me aproximava da casa de minha mãe aumentava a vontade de revê-la. A encontrei sem poder andar após uma queda que comprometeu a bacia. Mesmo com dor me recebeu com o abraço cálido. “Vai passar logo, sempre que caí passou”, disse-me. Mas ela e eu sabemos que não é mais como antes: oito décadas pesam e o Parkinson maltrata. Passei a semana entre idas a médicos, cuidados com ela e lhe aplicando massagens – ah, se eu pudesse tirar sua dor e devolver a mobilidade, ah!

“Mas eu não posso nem ir até o jardim, nem tratar as galinhas”, reclamou, ressentida. Não se preocupe, mãezinha, eu cuido de tudo. Calcei as botas, afiei a enxada e me vesti de camponesa. Ervas daninhas crescem mais que as hortaliças, e tive um trabalhão para capinar e limpar tudo. As alfaces estão lindas de ver, os repolhos fechados, as rúculas robustas, os pés de vagens florindo, uma beleza! Renovei um canteiro de alfaces e semeei pimentões e morangas.

Também plantei mudas de flores – onze horas, perpétuas, hortênsias, violetas, antúrios – e reorganizei parte do jardim. Minha mãe sempre cultivou variedades e nesta época do ano brotam em mil cores formando floreteadas paisagens que parecem pinturas de Renoir. Mesmo nos seus esquecimentos, ela lembra dos nomes das flores, época de plantio, poda – amo aprender com ela! Deste modo vou fazendo as coisas que ela sempre fez nos arredores de casa.

Foto: arquivo pessoal

Já contei noutra crônica a magia de assistir os ovos quebrando e deles saírem bolinhas de cor amarela e piando!! Pois é, os pintinhos cresceram rápido – em quarenta dias viraram adolescentes, ficaram pernudos e disparam, desembestados, ao menor sinal de perigo. E como comem! Não há milho e folhas de couve que deem conta do apetite voraz. Me pego coscuvilhando os hábitos de galináceos, o que tem reforçado a sabedoria de minha mãe: sim, é preciso cortar as penas das asas ainda quando nas fraldas, ensinar a subir as escadas, e eles aprendem mesmo, alimentar com milho para que fiquem fortes e cresçam rápido. Curioso que com um cacarejo da mãe penosa anunciando um petisco que encontrou onde esgaravatava, que pode ser uma minhoca ou outra iguaria, os pernudos correm se atropelando e ganha aquele que chegar primeiro.  As galinhas emitem diversos sons que transmitem diferentes mensagens aos pintinhos, bem como de expressões com diversos significados dentro da sua comunidade. Me impressiona como os quinze marmanjos ainda se agacham todos sob as penas maternas para dormir.

“Tia, o galo anda rápido ao redor da galinha e fica em cima nela e faz uma coisa!”, exclama Laura nos seus inocentes oito anos. “Eles fazem sexo, Laura”! Ela me pôs os olhões… Na intimidade, as galinhas são resistentes à corte dos galos, mas quando um deles consegue imobilizar uma fêmea, o ato é muito rápido. Logo que ela se liberta, corre esbaforida para longe, enquanto ele bate as asas numa postura de garbo. Será que elas sentem prazer? Vá saber…

Foto: arquivo pessoal

Assim que cheguei na casa da mãe e depois de abraçá-la muito, perguntei sobre Tchê e Guevara. Cadê? Mas foi só fazer pspspssss que apareceram pulando de gulodice ao chamado para ganhar comida. Passaram uns quarenta dias desde a desconfiança que a Tchê podia estar com miúdos felinos no ventre. Aventei levá-la a um veterinário, mas acolhi a sabedoria da mãe: “Se ela está mesmo, a natureza faz seu curso quando for a hora, sempre foi assim”. Está com o ventre meio avantajado e as tetas salientes, mas minha mãe meio que duvida: “Ela deveria estar bem roliça nesta altura, não sei não…”.  O tempo de gestação das gatas dura em torno de dois meses e alguns dias – vamos esperar se vêm mesmo os manhosos felinos.

Espalhamos camas na garagem – caixas de papelão forradas com roupas avariadas e em desuso guardadas para estas necessidades, um cesto grande devidamente atapetado – e em outros espaços de circulação dos felinos para que Tchê fique confortável quando a hora chegar. Sim, os gatos daqui vivem soltos, dormem onde querem nos arredores e, pelo barulho que fazem à noite, transam adoidado em épocas de cio. Sei que a Tchê andou pulando a cerca e dormindo fora, e que de vez em quando aparecia por aqui um gato cinza com listras escuras e olhar penetrante e sedutor! Agora ele anda por aí, à espreita da Tchê, mas ela não lhe dá a mínima bola.

Seguindo o curso da natureza, como diz minha mãe, aguardamos os acontecimentos. Laura provocou apostas na família: entre dois e sete. Apostei que serão dois e está bom demais da conta! Se forem mais, teremos que doar, ai ai.  É uma espera delicada e terna. Andei falando para Tchê sobre Feminismo… não sei se ela entendeu…

                                                               Foto: arquivo pessoal

Não é um paraíso? Ah, é um agrado à vida estar entre animais, árvores e vegetais que renascem o tempo todo, acordar com a sinfonia de bem-te-vis gorjeando e ouvindo o clarinar dos galos. Seria o Éden, não fosse o motivo de tudo isso estar acontecendo na minha vida: a pandemia. Preferiria estar revivendo a camponesa longe desta moléstia infame. Será que o curso da vida me traria por outros caminhos para junto de minha mãe, sem estar misturado ao pavor deste oleoso broxante e medonho?  

Em Turvo o número de contaminados pelo covid-19 sobe exponencialmente. “É que aqui muita gente não se cuida e não acredita no vírus corona, fazem festas e ajuntamentos”, disse-me o caixa de uma loja quando reclamei das pessoas que estavam ali sem máscara e se abraçando como se não houvesse amanhã.  Enquanto isso, no Brasil, passam de 170 mil mortes. O descaso dos governantes é criminoso. Manifesto meu desprezo a essa horda que está depredando literalmente o país nas suas reservas vegetais, minerais e animais, liquidando a soberania. Sobretudo, solapando os direitos humanos, vidas e a dignidade da população vulnerável: o capitalismo se alimenta do sangue desse exército de pobres diabos sem direito de aprender a pensar.

Para esse regime econômico e ideológico, as pessoas que se explodam no trabalho intermitente e sem perspectiva de aposentadoria, saúde, segurança, vida digna. Não há saída a não ser que trabalhadoras e trabalhadores se unam contra a exploração e o descarte de vidas.

Nesta semana assistimos um homem negro sendo esmurrado até morrer num supermercado em Porto Alegre, mais um. Uma mulher candidata a prefeita na Ilha de Marajó (Pará) assassinada por um feminicida, mais uma. Uma adolescente vulnerável estuprada por um vizinho em Manacapuru (Amazonas), mais uma. Uma vereadora negra recém eleita ameaçada de morte em Joinville, mais uma. Todos os dias acontecem violências de gênero, raciais, sexuais, fóbicas que matam, amarguram, doem, destroem vidas e sonhos. Vocifero minha ira com essas violências e abomino fascistas.

Esperanças? Sim, com lutas e representação. Fui a uma loja comprar um ventilador de teto para a cozinha de minha mãe, e perguntei à atendente sobre uma escrivaninha. Conversa vai e vem, disse a ela que escrevo crônicas e sobre o que versam. Ana, a jovem que me atendia, disse: “É mesmo preciso falar sobre esses assuntos, é necessário. Tenho um grupo de amigas e a gente sempre sabe de assédios, sofre, e como é difícil lidar com isso”. Muito gentil, me deu seu contato e enviei a última crônica (a de número 36).  Depois contou-me por áudio que leu e enviou para amigas: “Todas elas gostaram muito e elogiaram! O que tu escreves é incrível, sem palavras!”. Com isso falo da juventude e da importância de falar, ouvir, comunicar-se sem perder os princípios. Ana e tantas outras jovens querem um lugar para viver sem violências, querem falar e estar em segurança. Querem educação de gênero e viverem como sujeitos de direito. Querem liberdade e paz. Este é o futuro em que acredito. Bem vinda, Ana, e amigas! Temos muito a conversar.

Nestas eleições municipais cresceu o percentual de mulheres eleitas vereadoras no país: em 2016 eram 11,6% e neste ano são 12,2%. Muito aquém do que almejamos, já que somos a maioria do eleitorado. Todavia, pela primeira vez, temos mais representações na diversidade e mais mulheres com ganas para as lutas feministas chegaram ao legislativo. Aliada a essa juventude ávida de participação coletiva, as representantes na esfera pública política defenderão as mulheres e a integridade como sujeitos dos direitos. Avante, camaradas!

Dedico esta crônica a todas as mulheres que se dispuseram a concorrer às câmaras municipais e prefeituras. Às que foram eleitas, sucessos nas lutas e projetos na busca de uma sociedade sem violências.

Marlene de Fáveri, 22 de novembro de 2020. Turvo, SC.  




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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