Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (35)  – ou as mulheres professoras e a solidariedade na pandemia

Postado em 08/11/2020, 11:42

 

Domingo, oito de novembro de dois mil e vinte. Em Florianópolis, enfurnada no meu canto, tenho tido ideias distópicas de como trucidar esse vírus medonho. E não só a ele… Nesta semana Florianópolis entrou em estado “gravíssimo” na pandemia, tanto que tenho receio até de colocar o pé no elevador. Fico em casa. Até as eleições me quedo na capital. Depois volto a Turvo para junto de minha mãe, da Tchê, do Guevara, das bolinhas amarelinhas que piam e perto de todo o verde que tem por lá. Muito trabalho me espera já que as ervas daninhas crescem mais que as verduras. Mas estou doida para calçar as botas!

Nesta semana o livro de crônicas foi para a revisão, e está um capricho nas mãos de Angelita, a profissional que trabalha com gosto e ternura pelos livros. Rejane faz a revisão final com esmero. As tratativas com editora, gráfica, feitura da capa e outros detalhes estão em franca produção. Que ousadia a minha! São mais de duzentas páginas, saídas do deslizar da caneta em papéis em branco, isso em 160 dias, em meio ao caos sanitário e em plena clausura. Sorte que tive minha mãe por perto. Sorte e doçura.

Domingo último, pelo horário do almoço, fui avisada pelo interfone que alguém me procurava.  Era o Carlos Eduardo de Souza, o Cadu, trazendo a marmita que eu havia encomendo de uma ação solidária, como tenho feito todas as semanas. Fiquei pensando na abnegação dessa gente que tem ocupado todos os domingos nas funções das cozinhas, alimentando pessoas, embalando marmitas e levando-as de casa em casa.

Quem faz essa ação solidária? No início da pandemia, o isolamento mostrou o quanto era urgente saciar a fome dos vulneráveis.  Padre Vilson Groh, pároco da Igreja Nossa Senhora do Monte Serrat, que já fazia um trabalho com as pessoas em situação de rua, esmerou-se a alimentar os necessitados. Estabelecidas as redes de apoio, passou, com o apoio de volutários, a fornecer jantares no espaço da passarela Nego Quirido. Mas havia outras demandas e, por intermédio do Padre Vilson, foi montada uma cozinha comunitária nas dependências da Igreja Anglicana dos Ingleses.  “No início, fornecíamos em torno de 30 almoços, e um mês depois já eram fornecidas 700 refeições, com o que constatamos a grande quantidade de famílias não tinham como se alimentar”, explica Cadu. Para atender a essa demanda, planejaram vender marmitas para quem pudesse pagar, e com isso obter recursos para garantir as refeições durante a semana. Deu certo. Esta é a marmita que comprei e recebi em casa.

A partir disso, outras ações foram sendo desenvolvidas pelos bairros, como a cozinha comunitária na Vila Aparecida. Com planejamento e com o apoio da comunidade, padre Vilson, Cadu e outras pessoas pensaram um projeto de economia solidária. Além de fornecer alimentação, contou-me Cadu que houve a montagem de “um brechó, um ateliê de roupas, produção de sabão e uma padaria a custo acessível para a comunidade, o que tem gerado emprego e renda para mulheres e homens na Vila Aparecida”.  Essas ações são fruto da solidariedade das pessoas que têm na dignidade o princípio que as move.

Em julho, o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) fez a doação de 11 toneladas de alimentos, armazenados na Igreja de Monte Serrat. O Instituto encarregou-se de distribuir os alimentos às famílias às famílias necessitadas, para cozinhas comunitárias e para diversos projetos sociais da região metropolitana da capital. A generosidade sempre vem de pessoas que conhecem a fome e as lutas por terra e comida.

Ao observar rituais do Vaticano, minha mãe disse: “Os padres deveriam ser mais solidários, olhar mais para os pobres e não viver nessa riqueza toda, né?”. Nas doutrinas sociais de várias orientações religiosas lemos que esse princípio as deveria orientar. É certo que alguns religiosos se envolvem em ações solidárias, acolhem esses ensinamentos com solidariedade e humildade.  Todavia, mesmo com a fome de vidas miseráveis durante a pandemia, com o sistema de saúde à beira de um colapso e o desemprego crescendo, há pastores e padres nos tronos de templos suntuosos, ladrilhados por mármores, preocupados apenas com cifrões e abrigando sistemas financeiros bilionários nem sempre lícitos. Paradoxos.

Com a pandemia e o isolamento, as aulas em Florianópolis, como também em outras cidades, foram canceladas. Filhos de famílias em situação de vulnerabilidade que tinham na escola a melhor, senão a única, refeição do dia, sentiram sobremaneira o fechamento das escolas.

No início da pandemia, a merenda escolar não estava sendo entregue de forma regular, mas a fome tem pressa. Coordenadoras de escolas e professoras da rede municipal de Florianópolis envolveram-se na busca dos alunos carentes e na provisão de cestas básicas. Maria de Jesus Lucena Conte, diretora da União Florianopolitana de Entidades Comunitárias – UFECO, me contou que “São elas, as mulheres na direção das escolas, com outras professoras, as responsáveis pela entrega de alimentos para as crianças. Com esse contato, ouvem das mães não só as questões da fome, mas também os problemas de acessibilidade à internet e à fata de computadores e celular. Muitas vezes, os problemas acabam caindo nos braços das diretoras. Durante a pandemia, as crianças pobres de Florianópolis têm o que comer porque essas mulheres existem e se mobilizam!! A função social da escola é de grande relevância, e as direções e professoras, além de proporcionar o conhecimento para essas crianças, também alimentam seus estômagos, porque sabem que criança com fome não aprende”. Concordo.  E me solidarizo com estas iniciativas. A escola centraliza os problemas e as professoras se sentem responsáveis e solidárias.

A professora Rose Ucha Peres, que coordena o Núcleo Continente 1 de Educação de Jovens e Adultos na Escola Almirante Carvalhal, no Continente, sentiu o impacto nos seus alunos: “Quando a covid-19 começou, do meio para o final de março, a gente passou fazer mobilização, pois percebemos que nossos alunos eram os mais prejudicados. São jovens e adultos que haviam perdido o trabalho, ou são autônomos, sendo que muitos nem podiam sair de casa pois estavam de quarentena.”  Professores e pessoas da comunidade organizaram uma campanha e arrecadaram recursos para a compra de cestas básicas.

Diante da dificuldade de estas pessoas irem até a escola, as professoras resolveram entregar as cestas nas casas dos alunos. “Fui entregar a cesta em muitas casas no Carvalhal, na Vila Aparecida, no Morro da Caixa e no Monte Cristo. Muitas alunas são mães que têm filhos pequenos e com dificuldade de buscar a cesta ou por falta de recursos ou por não ter como deixar os filhos em casa, não tinham como ir até a escola”. Mesmo depois, quando o poder municipal passou a fornecer cestas básicas, as dificuldades continuavam. “Algumas mães cotizavam o uber para buscar os alimentos, e nessas ocasiões, uma vez na escola, as mulheres desabafam, falam de seus problemas como a falta de computador, de rede de internet, do desemprego e outras adversidades dos seus cotidianos”, continua Rose. “Às vezes elas têm um único celular para três filhos. Ali a gente conversa e entrega atividades escolares para os alunos fazerem em casa. Temos responsabilidade com os alunos, então nós, diretoras, professoras e coordenadoras fazemos as entregas das cestas na escola ou levamos até a casa dos alunos.” Em situação de pandemia, as mulheres constroem estratégias de solidariedade. Rose e Maria Lucena detalham o que outras direções e professoras de escolas também estão fazendo.

Com estes exemplos, falo de solidariedade, palavra rica em sentidos.  Do latim solidus, diz-se do que é consistente, seguro. Já do francês solidarité,  refere-se à mútua responsabilidade no que é solidário – solidaire – ou situações onde cada pessoa responderia por todos. O filósofo Diderot, no século XVIII, chamou de solidariedade a adesão às causas sociais como entendemos hoje.  Solidariedade e reciprocidade andam juntas. Como tudo  o que é mútuo, compartilhado, socializado. Socializar os bens é base no Socialismo – por isso os mandantes e os gananciosos usurpadores da força de trabalho odeiam tudo o que se refere ao social e comunal. O que é comunal se firma na comunidade; prevê comunhão, compartilhamento, princípios de todas as decisões coletivas. Já o capitalismo é o sistema da exploração absoluta da força de trabalho dos operários e operárias. Que fique claro: sem as ações de solidariedade, o mundo seria um amontoado de corpos esquálidos e descartáveis.

A adoção da solidariedade como princípio de Estado leva à formulação de políticas sociais, basilar nas relações humanas. Mas, infelizmente, nem sempre é assim que acontece. No Brasil de hoje, estamos longe de concretizar esse princípio e, na maior parte das ações solidárias, são os pobres que ajudam pobres. É o que vemos, por exemplo, no projeto de economia solidária na Vila Aparecida.

Na Constituição brasileira estão expressos os direitos inalienáveis: o  Estado deve fomentar as condições para que todos tenham comida, moradia, emprego, segurança, educação, lazer e saúde. Neste momento, no atual governo, rasgaram-na. Lembro da promessa de Lula no seu discurso de posse na primeira eleição, em 2003: “Vou acabar com a fome no Brasil”. Sim, com fome as pessoas perdem a dignidade. Agora, o desemprego advindo da pandemia se ressente de políticas de trabalho e renda – até o Ministério do Trabalho foi desmontado. E a fome volta a se instalar.

A solidariedade é também um princípio do Feminismo. Uma breve mirada para as lutas das mulheres pela história evidencia que, unidas, fizeram revoluções. Foram elas que, nas grande fomes e pestes, deram conta de sobreviver e alimentar seus filhos. São elas que estão à frente das denúncias, movimentando-se contra as violências sofridas por suas iguais.

Elas se juntam quando uma é aviltada, exposta, violentada, morta.  Neste momento, em Florianópolis, cerram os punhos contra o vil estupro sofrido por Mary Ferrer, submetida a um tribunal de inquisição medieval. Denunciam o judiciário brasileiro misógino, machista e patriarcal. Bradam contra outras tantas violações de corpos. As mulheres se movimentam, estão aqui, ali, acolá, em todos os lugares. Elas querem respeito, cidadania, dignidade.

Ato #JustiçaPorMariFerrer, em Florianópolis, realizado nesse sábado (7), em Florianópolis/Foto: Bianca Taranti

Faltam sete dias para as eleições municipais. O voto é necessário, pode mudar destinos e recuperar a dignidade. O amigo Antônio compartilhou comigo suas reflexões quando conversávamos dia desses: “Sabe, tem umas coisas que sempre procuro argumentar na questão política e do voto. Quando a gente vota, a gente não deveria votar por nós, mas votar pelos mais pobres, os excluídos, os desempregados, as mulheres”.  Nossas utopias são desejos. Muita gente vota pensando absolutamente no seu umbigo, no seu emprego, seu bolso, no seu mérito pessoal, na sua riqueza, nos seus privilégios. Urge, para o legislativo e executivo municipal, que elejamos pessoas sensíveis para com o social. Votemos em candidatos e candidatas que abriguem, acolham, escutem, entendam e ajam. Mais que sonhar, é preciso agir!

Dedico esta crônica às pessoas generosas que alimentam outras pessoas no exercício da solidariedade. Dentre elas, principalmente, as professoras.

Marlene de Fáveri, 08 de novembro de 2020. Florianópolis.




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
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