Foto: arquivo pessoal

Coluna da Marlene de Fáveri

Crônica da incontingência da clausura (33) – ou as necessárias escolhas contra violências

Postado em 25/10/2020, 14:09

 

Domingo, vinte e cinco de outubro de dois mil e vinte. Tenho refletido sobre a pandemia e tudo o que me aconteceu depois daquele fatídico dia dezoito de março, quando fiquei ilhada em Turvo. Situação que me tirou do eixo, mas quem conseguiria, depois destes meses todos, ficar impune ao isolamento? Sorte que venho aprendendo coisas e conseguindo escrever. Mais sorte é ter vocês que me leem e me realimentam! Tem dias, como hoje, que parece que estou oca de tão cansada; recorro a um papel em branco e me acalmo.

Nesta semana os dias foram de muito trabalho nos arredores da casa e nos cuidados com minha mãe. Eu sofro com seus esquecimentos das coisas recentes e penso que ela não merecia ficar assim, não mesmo. Vez por outra a olho com vontade de apagar os tantos sofrimentos com as violências que, hoje sei, vivenciou. Me enterneço a cada dia com suas lembranças do tempo distante e como passou por tantos enfrentamentos, e dos afazeres de uma vida que, em boa parte, eu desconhecia. Ou não prestei atenção na época. Ou não sabia prestar atenção. Ou tinha meus próprios problemas. Ou tudo junto. A gente se dá conta quando o coração remexe e junta passado e presente num afeto profundo.

Numa manhã dessas acordei em sobressalto: “Marlene, acorda, vem ver que tua mãe está cortando as asas dos pintinhos!”, me chamava Rita, a cuidadora. De um salto, saí da cama e corri até ela. Estava mesmo cortando: ia tirando um por um do cercadinho e, com uma tesoura, cortava as pontas das asas dos pequerruchos com menos de dez dias de vida. Ufa, ainda bem que cortava só as penas mais crescidas, mas a imagem dela com uma mão segurando uma asa e com a outra a tesoura sob os gritos do bichinho me perseguiu por instantes.

Ao ver a destreza com que executava a tarefa me deixou muda por uns instantes. “Mãe, porque está cortando as penas das asas deles? Como vão voar depois? Assim vão ficar mutilados!”, perguntei com preocupação. “Ah, tu não sabes? Eu sempre fiz isso! Tem que cortar as pontas das asas porque senão elas crescem e pesam demais, e eles, os pintos, se atrapalham para caminhar, ficam fracos e podem ficar tristes”, respondeu. Virgem das Penosas, isso eu não sabia! Que se cortam as asas de fujonas que voam por cima dos cercados da horta eu sabia, mas assim pequeninos?

Observei que os miudinhos corriam felizes para sua mãe como se as penas das asas não fizessem falta. Resolvi pesquisar e encontrei muitas informações técnicas: se não cortar, eles ficam com as asas baixas, o que pode afetar o sistema imunológico devido ao esforço físico, ficam tristes, cabisbaixos, sem a mobilidade normal. Ah, sabedoria de mãe! Estou falando dos pintos nascidos de galinhas felizes, chocados nos quintais caseiros, criados soltos e junto da mãe galinha. Nas granjas, os ovos são aquecidos aos milhares por um sistema elétrico até nascerem os miúdos. Ali são tratados para o abate, depois encherão os freezers nos supermercados. A gente come. Ou pelo menos quem não é vegetariano.

Outra novela neste cotidiano é que, de manhã, minha mãe solta a família no cercado das penosas. Mamãe galinha passa o dia esgravatando minhocas e outras guloseimas e assim vai ensinando aos rebentos a arte de catar comida. É lindo de ver as acrobacias nesta tarefa pedagógica! À noite, dormem debaixo das asas, agachadinhos!

Foto: arquivo pessoal

O problema é que a casa desta família fica no alto – para proteger dos gambás – e quem diz que os filhotes sobem sozinhos? Minha mãe usa uma tábua com madeirinhas pregadas, como uma mini escadaria, e coloca um a um no pé da escada – “Eles vão aprender a subir sozinhos, mas é preciso ensinar”.  Socorro! Eles correm mais do que eu, me driblam, somem por debaixo de qualquer buraco – como é difícil pegar esses danadinhos! Pegos, são levados para a aula de subir escadas. Eu não me imaginava nesse contexto antes da pandemia! E não é que alguns olham para cima, relutam, mas acabam escalando os degraus, e o fazem correndo?

Desta vez na casa de minha mãe, plantei sementes de feijão de vara, semeei rúcula e renovei canteiros de alfaces com mudas de uma espécie mais resistente ao calor. Tchê, a felina que me cativou, está com a barriga gordinha – será logo? O jardim está em alvoroço com tantas as cores e formas. Uma planta à qual eu não dava tanta importância abriu-se em pétalas e amanheceu assim:

Foto: arquivo pessoal

Não resisto e começo a fotografar as diferentes flores, formas e capto as cores. Também eu nunca havia prestado atenção na forma e cor das flores das rúculas: um espetáculo que se assemelha a uma rosa dos ventos, pequenas e com uma cor indefinida.

Foto: arquivo pessoal

Confesso: nestes dias procurei me afastar de notícias, preservando minha saúde mental. Mas ontem resolvi me informar das tragédias recentes, que mais perecem um teatro dos absurdos. Sobrevivendo ao caos, brasileiras e brasileiros assistem às patifarias ardilosas de um pulha que, pasmem, nega-se a comprar vacinas para combater o covid-19. Somos 156 mil vidas agora mortas e quase seis milhões de infectados, mas isto não sensibiliza o presidente que, num arroubo de empáfia, bradou contra a aquisição de vacinas chinesas, outorgando-se poder sobre vidas. É a estupidez em forma de gente. A ignorância deveria ter limites, só que não. Não bastasse isso, está dificultando os testes do Instituto Butantan, num verdadeiro atentado contra a ciência e a vida. Mais uma insanidade para o currículo das coisas insanas praticadas por este governo nacionalicida.

Em Santa Catarina passam de três mil óbitos desde o início da pandemia, e perto de 250 mil casos de infecção pelo novo coronavírus. O grande problema é que não existe vacina para a estupidez – se existisse, estes nauseabundos negacionistas, na sua costumaz arrogância, não a tomariam, apoiados nas suas aberrações oportunistas e individualistas.

Além da crise sanitária ao limite da displicência, o combate aos incêndios sofre paralisações, enquanto a Amazônia e o Pantanal estão em chamas. O que será que ainda sustenta um governo que comete tantos crimes? Os poderes e interesses capitalistas abusam da necropolítica, no seu ideal de sociedade baseada na exploração do trabalho e no consumismo. Neste propósito, vidas não importam.

Como sempre, quem mais sofre são as mulheres. Na medida em que a sobrevivência da população é afetada por estes infortúnios, as violências de gênero e sexuais aumentam. Uma lógica infeliz, mas real. E as mulheres menos favorecidas, além de terem que matar um leão por dia para sobreviver,  ainda sofrem violências domésticas que se acumulam nos cárceres privados, violências sexuais e abusivas e mesmo a morte. Durante a pandemia, no Brasil, uma mulher é morta a cada nove horas, são três assassinatos por dia. A culpa?  Serem mulheres e não aceitarem mais a violência. “Tolerância zero à violência contra as mulheres e à impunidade”, concordando com Eleonora Menicucci.

A ministra regida pelo ‘deus da goiabeira’ nem se dá ao trabalho de ler as estatísticas, suponho. O que pensa essa mulher sobre a pasta que comanda? Jesus – e acredito que possa ter existido em carne e osso esse homem preocupado com os problemas sociais que protegeu Maria Madalena dos furiosos fanáticos e foi sacrificado por sua opção política em favor dos desfavorecidos – pregou a paz, a humildade e a solidariedade. Violências e ódios não são obra de um Jesus, ou de um deus, mas em nome dele cometem tantos pecados. Assim também se agravam preconceitos raciais e étnicos, e se acirram crimes de ódio. Paradoxos.

 Laura e os pintinhos/Foto: arquivo pessoal

Nestas semanas que antecedem as eleições municipais, urge que pensemos em nossas escolhas. Vamos aumentar o número de mulheres na câmara municipal, e de homens parceiros que respeitam as mulheres na sua integridade. Essas pessoas que levam para a esfera pública política os sonhos de uma sociedade mais igualitária, nos representam.

O voto tem poder. Votar é um exercício democrático e cidadão. Exige estarmos conscientes de que é possível mudar esse estado de catástrofe, escolhendo representantes com compromissos sérios e princípios humanitários. Valores como dignidade, solidariedade e humildade são imprescindíveis no labor de quem se coloca à disposição do coletivo.

O acolhimento das diversidades e da igualdade de direitos, as lutas e ações contra todas as violências – de gênero, sexuais, raciais, étnicas, patrimoniais, morais, sociais, ambientais, fóbicas e discriminatórias em geral – são compromissos que temos o dever de apoiar.

Tomo o saber de Eduardo Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos.”

 

Marlene de Fáveri, 25 de outubro de 2020. Turvo, SC.

 

 




Professora do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UDESC, onde leciona a disciplina de História e Relações de Gênero. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Relações de Gênero e Família” (CNPQ), e do Laboratório de Relações de Gênero e Família (LABGEF). Membro do Grupo de Trabalho de Gênero da Associação Nacional de História (ANPUH), e do Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Autora de livros e artigos de História, Gênero e Feminismo. Militante pelos direitos humanos, integrou o Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Florianópolis (COMDIM).
Veja a coluna da Marlene de Fáveri